Presidente da CNPQ assegura que o valor da ciência foi restaurado no atual governo
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Por Walter Santos
A Ciência e Tecnologia no Brasil convive com nova fase exercida desde o início do atual Governo de reimplantar todas as políticas públicas a merecer atenção de organismos como o CNPQ visando manter investimentos em pesquisas avançadas diante do negacionismo enfrentado pelas universidades e organismos de pesquisa. Em entrevista Exclusiva à Revista NORDESTE, o presidente do CNPQ avalia conjuntura e perspectivas de futuro. Leia:
Revista NORDESTE – O mundo convive com cenário contemporâneo diferenciado de ameaças econômicas, conflitos, guerras, etc, em meio à incerteza sobre soluções a curto prazo. Como a inteligência científica encara esse contexto a merecer perspectivas futuras?
Ricardo Galvão – A ciência oferece conhecimento e informações essenciais para formulação de políticas públicas que permitam suplantar os desafios e as ameaças do atual cenário sombrio enfrentado pela humanidade. No entanto, a mentalidade negacionista infelizmente ainda permeia muitos centros de poder, principalmente políticos. Esses opem-se à utilização do conhecimento oferecido pela comunidade científica na formulação de suas ações e estratégias sempre que seja contra a seus estultos e predatórios interesses imediatos.
NORDESTE – No Brasil, como andam os investimentos na Ciência & Tecnologia diante da conjuntura global para construir soluções, sobretudo em favor da humanidade?
Ricardo Galvão – No atual governo, o valor da ciência foi restaurado na formulação de políticas públicas. Os recursos do FNDCT, Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico foram integralmente restaurados e impedidos de serem contingenciados.
NORDESTE – O que ele significa?
Ricardo Galvão – Esse fundo é o principal instrumento de financiamento da atividade científica do país, aportando, neste ano, cerca de 14 bilhões de reais para instituições de pesquisa e para o desenvolvimento tecnológico em empresas. Um dos principais eixos de atuação do FNDCT é o “Programa de Apoio a Políticas Públicas Baseadas em Conhecimento Científico –Política com Ciência”. Nesse programa, foram enviadas cartas-convite para todos os ministérios apresentarem propostas de projetos de pesquisa científica voltados diretamente à formulação de soluções a problemas de suas áreas de atuação.
NORDESTE – Objetivamente, qual o nível das políticas públicas para contribuir com a sociedade e o segmento privado? Qual o nível de nossa Ciência e Tecnologia em nível de desempenho internacional?
Ricardo Galvão – Não é possível definir um único nível abrangente a todas as áreas. Na produção agrícola, por exemplo, o Brasil está na fronteira mundial da agricultura tropical, com um desenvolvimento fortemente baseado no conhecimento científico e eficazes ações governamentais, exemplificadas pela atuação da Embrapa.

NORDESTE – Por exemplo, nessa área como anda a indústria nacional?
Ricardo Galvão – No caso da indústria, o Brasil tem avançado bastante na interação das instituições de pesquisa com empresas para alavancar a inovação tecnológica acionada pelo descobrimento científico. A Embrapii é um exemplo notável dos avanços nessa direção. Mas ainda estamos bastante distantes dos países mais avançados nesse aspecto, como China e Israel.
NORDESTE – Na atualidade, como definir o nível das medidas e ações do CNPQ na construção de melhores dias à sociedade a partir de nossas novas gerações?
Ricardo Galvão – O CNPq fornece cerca de 90.000 bolsas para pesquisadores, indo desde a iniciação científica no ensino médio até o pós-doutoramento, e apoia mais de 15.000 projetos de pesquisa, fornecendo recursos para despesas de custeio e aquisição de equipamentos. Além disso, é responsável pelo mais robusto sistema de pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico do País, o Programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia – INCTs. Os INCTs são redes nacionais de pesquisa, envolvendo várias instituições em todo o território nacional investigando temas prioritários para nossa sociedade. Atualmente existem 102 INCTs em operação e mais 143 sendo implantados, com aporte de recursos cerca de 1,6 bilhões em cinco anos. Além disso, o CNPq promove fortemente a interação de instituições de pesquisa com empresas, oferecendo bolsas para mestres e doutores trabalharem diretamente em programas de inovação e desenvolvimento tecnológico dentro de empresas.
NORDESTE – O mundo vive a disputa de vanguarda tecnológica entre Vale do Silício diante da China tendo a chinesa HUAWEI na liderança inclusive há tempo já com 10G.Na sua opinião, como anda essa disputa e ranking?
Ricardo Galvão – Não tenho uma avaliação do estágio atual da disputa entre os Estados Unidos e a China na área de tecnologia digital, incluindo fabricação de chips de alto grau de miniaturização, inteligência artificial, computação e comunicação quântica etc. Mas creio ser improvável que um dos países acabe avançando muito mais que o outro, devido a infraestrutura e ao conhecimento tecnológico já disponível em ambos.
NORDESTE – A “nova” Guerra global se traduz na manipulação e interferência da IA nas relações sociais. Quando teremos uma regulação capaz de preservar a individualidade das pessoas longe da manipulação político – ideológica?
Ricardo Galvão – Pergunta muito difícil de responder, pois regulamentação da IA envolve vários aspectos, desde técnicos a políticos. O projeto está em trâmite no Congresso e existe a previsão de que as regras para o uso seguro e responsável da IA sejam aprovadas ainda este ano. Mas, julgo que não serão suficientemente abrangentes e que, com o rápido desenvolvimento inovador dos algoritmos, acabem perdendo a validade em pouco tempo.
NORDESTE – O que o Sr aponta como maiores desafios do Brasil para estarmos na competitividade com formação das novas gerações, sobretudo de regiões com problemas na questão social?
Ricardo Galvão – Nosso maior desafio continua sendo um sistema de educação de alto nível e suficientemente abrangente, seguido de substancial reforma de nosso sistema político.
NORDESTE – Ao final de sua gestão, qual a contribuição a merecer marco histórico nesta nova fase?
Ricardo Galvão – Substancial aprimoramento dos sistemas de informação e análise de resultados de nossos programas, recuperação do investimento em fomento à pesquisa, em particular de jovens pesquisadores, e fortalecimento da interação institucional de pesquisas com empresas e de colaborações internacionais.
*Entrevista publicada na Edição 224, da Revista NORDESTE.

