Estudo da FIEC, em parceria com CNI, ABDI, Finep e Sebrae, mostra que a região tem força em sustentabilidade e capital humano, mas ainda enfrenta desafios em empreendedorismo, infraestrutura e financiamento público em ciência e tecnologia
Por Luciana Leão
O Índice de Inovação dos Estados 2025 revela um Nordeste dividido entre avanços e gargalos. Enquanto o Ceará figura entre os dez estados mais inovadores do país, o Maranhão encerra o ranking nacional. Essa distância interna expõe os desafios de integrar políticas e investimentos capazes de equilibrar o desempenho regional.
O IIE, em sua 7a edição, é elaborado pela Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) e, pela primeira vez, em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e Sebrae. A metodologia combina 12 indicadores, organizados em duas grandes dimensões: Capacidades (os insumos necessários para gerar inovação) e Resultados (os outputs efetivos).

O estudo mapeia, por meio de mensurações quantitativas, os principais aspectos relacionados à inovação nas 27 unidades federativas (UFs) e nas cinco grandes regiões do Brasil.
A dimensão Capacidades mede fatores que possibilitam a ocorrência de inovação, como disponibilidade de recursos e criação de soluções de produtos e processos. Já a dimensão Resultados concentra-se na inovação em si, ou seja, nas consequências do ecossistema inovador,diz trechos explicativos do estudo.
Entre os insumos avaliados em Capacidades estão infraestrutura, capital humano, graduação e pós-graduação, instituições e investimento público em ciência e tecnologia. Nos Resultados, entram produção científica, propriedade intelectual, intensidade tecnológica e criativa, empreendedorismo, competitividade global e sustentabilidade ambiental. O cruzamento desses parâmetros gera os índices por estado, comparados em nível nacional e regional.
Alguns destaques e desafios

No topo da região, o Ceará (7º lugar nacional) combina bons resultados em sustentabilidade ambiental (2º no país) e intensidade tecnológica e criativa (4º), mas enfrenta limitações em infraestrutura (17º) e empreendedorismo (16º). É o estado que mais se aproxima dos líderes nacionais e puxa a média regional para cima.
Na sequência, Pernambuco (12º) se destaca pela força institucional (7º) e pela formação em pós-graduação (8º), mas perde competitividade em empreendedorismo (17º) e produção científica (16º).
A Bahia (13º) também aparece bem em sustentabilidade (4º), mas enfrenta gargalos estruturais em infraestrutura (22º) e em investimento público em C&T (18º).
Outros estados revelam um padrão semelhante: o Rio Grande do Norte (14º) tem vigor em produção científica (10º) e em graduação (9º), mas amarga posições baixas em instituições (21º) e em investimento público em ciência (22º).
Já a Paraíba (16º) mostra desempenho relevante em propriedade intelectual (9º), mas ocupa a 23ª posição em empreendedorismo. Sergipe (17º), por sua vez, figura bem em graduação (8º), mas também cai para os últimos lugares em empreendedorismo (25º) e sustentabilidade (22º).
Na faixa inferior do ranking estão estados que alternam pontos fortes isolados com gargalos estruturais mais graves. O Piauí (19º) aparece bem em instituições (8º) e sustentabilidade (7º), mas tem fragilidade marcante na formação de capital humano: graduação em 25º lugar. Alagoas (22º) surpreende positivamente em infraestrutura (9º), mas cai para os últimos lugares em sustentabilidade (23º) e em investimento público em ciência e tecnologia (23º).
Já o Maranhão (27º) confirma os maiores desafios do Nordeste: apesar de um desempenho isolado em infraestrutura (10º), o estado ocupa as últimas posições em empreendedorismo (27º) e instituições (26º).
Uma leitura regional


Em entrevista à Revista NORDESTE, as organizadoras do Índice pelo sistema FIEC, Eduarda Lustosa de Mendonça – Líder Técnica de Inteligência Competitiva do Observatório da Indústria Ceará e responsável técnica pelo estudo – e Laís Veloso Cavalcante, gerente de Inteligência Competitiva do Observatório da Indústria Ceará, apontam que o Nordeste mostra força em sustentabilidade ambiental e capital humano, mas enfrenta gargalos persistentes em empreendedorismo, infraestrutura e financiamento público em C&T.
Esse desequilíbrio, segundo as responsáveis pelo estudo, ajuda a explicar por que a região, mesmo estando à frente do Centro-Oeste, não consegue competir de igual para igual com Sudeste e Sul — que lideram o ranking nacional de forma consistente. Além disso, a região revela grande desigualdade interna entre os estados, especialmente em comparação com os primeiros colocados no índice geral.

As discrepâncias ficam evidentes ao observar que Ceará, Pernambuco e Bahia puxam a média regional para cima, enquanto Maranhão e Alagoas revelam as fragilidades mais profundas.
O contraste interno mostra que o avanço da inovação no Nordeste depende menos de casos isolados de sucesso e mais da capacidade de integrar políticas e investimentos de forma equilibrada.
“Constata-se que o Nordeste tem indicadores excelentes em sustentabilidade ambiental. Existe sim o protagonismo da região, demonstrado em três fatores: geração de energia limpa — solar, eólica e hídrica; compromisso das empresas em buscar certificações ambientais como a ISO 14.000; e as despesas públicas em favor das melhores práticas ambientais”, analisa Eduarda Mendonça.
Segundo a especialista, há uma sinergia nítida entre o Poder Público e o setor privado nesse indicador, em consonância com as preocupações globais advindas das mudanças climáticas.
Intensidade tecnológica, economia criativa e infraestrutura
No mercado de trabalho ligado à economia criativa e tecnológica, novamente o Ceará desponta como protagonista, seguido de Pernambuco, Sergipe, Rio Grande do Norte, Bahia e Paraíba.
Na dimensão Capacidades, o indicador de infraestrutura aponta dificuldades ligadas sobretudo ao financiamento. São considerados fatores como infraestrutura física, modais de transporte e logística, além da digital, com velocidade da internet e acesso dos municípios à fibra óptica.
“Os destaques no Nordeste vão para Alagoas, Maranhão e Pernambuco. Malha ferroviária e localização estratégica são pontos a favor para o Maranhão; em Alagoas, destacam-se as condições das estradas e um avanço em conectividade”, explica Eduarda Mendonça.
Ela acrescenta que, para estados de maior extensão territorial, como a Bahia, o desafio é ampliar a sofisticação dos modais de transporte.
“No caso do Maranhão, há vantagem pela malha ferroviária e pela localização geográfica, que favorece o escoamento portuário para os Estados Unidos, outros países das Américas e para a Europa”, observa.
Alagoas, em particular, aparece como destaque em infraestrutura rodoviária. A conectividade logística e a qualidade das estradas colocaram o estado em posição de liderança no Nordeste.
“A extensão territorial menor facilita investimentos e políticas públicas. Também houve avanços em conectividade digital”, destaca a especialista.
Na avaliação de Laís Veloso, existe um avanço em toda a região, apesar dos gargalos. Para o futuro, ela projeta impacto positivo a partir da Transnordestina e investimentos em Data Centers, capazes de fortalecer transporte, logística e infraestrutura digital.
Empreendedorismo como gargalo
Apesar de o Nordeste concentrar hubs de inovação e startups, o índice mostra que o empreendedorismo permanece como um dos maiores gargalos. O reflexo da pandemia ainda pesa, e muitas empresas têm dificuldade de se manter abertas.
“É preciso criar condições propícias para que nasçam mais negócios e que eles permaneçam sólidos. Já houve avanço em relação ao ano passado, mas ainda há um longo caminho”, observa Laís Veloso.
O Índice reforça que, para sustentar a dinâmica de crescimento em inovação, o Nordeste precisa de investimentos consistentes em educação, produção científica e energia limpa — áreas nas quais pode se diferenciar das demais regiões. No entanto, ao se observar as diferenças entre os nove estados, persistem desigualdades importantes, sobretudo em capital humano e ambiente de negócios.
“O Ceará se destaca como um todo na região e no Brasil porque investe historicamente em educação e em infraestrutura digital. É um diferencial importante no campo da inovação”, conclui Laís Veloso.


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