Evento internacional no Vale do São Francisco articula soluções integradas para a crise climática com base no cooperativismo e nos saberes do Semiárido
Por Luciana Leão*
Com base na força produtiva do Semiárido brasileiro — que abrange os nove estados do Nordeste e partes de Minas Gerais e Espírito Santo — o ICS – Internacional Coop Semiárido 2025 reuniu representantes de cooperativas, comunidades, pesquisadores, parlamentares e organismos internacionais no Vale do São Francisco, entre os dias 31 de julho e 2 de agosto.
A programação aconteceu em Juazeiro (BA), no Centro de Multieventos da Univasf – Universidade Federal do Vale do São Francisco.
A proposta central foi refletir sobre o papel do cooperativismo e da economia solidária no enfrentamento das mudanças climáticas, da desigualdade e da insegurança alimentar.
Fruto da articulação entre os sistemas OCB-PE e OCEB, em parceria com a WEX Business, o evento sinalizou o potencial do Semiárido brasileiro para ganhar projeção internacional com sua produção sustentável e capacidade de organização comunitária, com foco central nos desafios impostos pelas mudanças climáticas.
“Fizemos o evento no Vale por tudo o que ele representa: é onde pulsa a força produtiva do Semiárido e onde encontramos uma rede sólida de cooperativas.Isso nos inspira a construir um novo caminho para a cooperação diante da crise climática”, destacou Luis Branco, CEO da WEX Business e um dos organizadores do evento.
Ao longo dos três dias, foram realizados painéis temáticos, oficinas e visitas de campo. O resultado final será a publicação do Manifesto ICS, a ser entregue na COP 30, que ocorrerá em novembro de 2025, em Belém (PA).
O Manifesto representa uma construção colaborativa com os participantes. Os workshops temáticos abordaram Mudanças Climáticas e Adaptação; Educação e Capacitação; Desenvolvimento Econômico e Social; e Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável, com especialistas da Embrapa, UFRPE, Univasf e UNEB.
A partir dessas discussões, está sendo elaborado um documento coletivo — o Manifesto ICS — que reunirá as principais propostas, diretrizes e compromissos assumidos pelas cooperativas e parceiros presentes no evento.
A proposta é entregar o documento como contribuição concreta do Semiárido à agenda climática global, com curadoria de Silvio Bugelli.
“Não estamos esperando respostas de fora. Estamos construindo soluções com base no que já fazemos e no que ainda podemos fazer melhor”, resumiu Bugelli. “É a vez da cooperativa estar presente na COP 30”, acrescentou.
Além da conferência internacional, o Manifesto ICS também será apresentado a redes internacionais de cooperação e inovação social, ampliando o alcance das experiências do Semiárido brasileiro.
Cooperativas como protagonistas da transformação

“Esse evento foi sonhado em um hotel em Lisboa. Conversamos sobre o porquê de não discutir o papel do cooperativismo no Semiárido. Essa região não pode ser lembrada apenas pelo sofrimento — aqui há desenvolvimento, tecnologia e capacidade produtiva. Essa é a oportunidade de mostrarmos ao mundo que o Semiárido é um lugar de potência”, afirmou o presidente da OCB-PE, Malaquias Ancelmo.
“Fizemos uma profunda reflexão sobre o Semiárido nordestino e como as cooperativas podem contribuir para o desenvolvimento mais equitativo da região, visando construir um mundo melhor para nós e para as futuras gerações”, complementou.
Guilherme Coelho, presidente da Abrafrutas, também reforçou o protagonismo regional: “O Semiárido nordestino concentra uma das maiores riquezas econômicas do país. Temos papel estratégico nas exportações de manga e uva para o mundo.”
Saberes populares e científicos juntos

Os painelistas marcaram as principais discussões durante o ICS. A convite do evento, o mestre em Agronomia pela Universidade Hebraica de Jerusalém, Luiz Dimenstein, falou sobre novas tecnologias em biofertirrigação, tratamentos de águas, pós-colheita, fertilizantes enriquecidos e fitossanidade amigável.
Em sua palestra, a engenheira ambiental Aline Fanti (UNESP/USP) destacou a proposta de aliar conhecimento acadêmico e saberes das comunidades locais para enfrentar a crise climática.
“Há um abismo entre o discurso e a prática, e a gente precisa discutir melhor isso. Este espaço já está sendo importante para expormos nossas ideias e estudos.”
Fanti alertou para o crescimento desordenado do uso da terra (46%), principal vetor de emissões no país, seguido pela agropecuária (27%) e pela energia (18%).

Inserção do Semiárido na pauta global
O deputado estadual Waldemar Borges (PSB-PE) ressaltou o impacto político do ICS ao conectar o Semiárido com debates globais:
“Como presidente da Frente Parlamentar em Defesa do Cooperativismo de Pernambuco, avalio como de extrema relevância esse evento. Vi muita gente trocando percepções que irão nortear suas cooperativas… e o Semiárido entrando na pauta mundial.”
Para Joice Silva, da cooperativa Afeto (Caruaru – PE), o aprendizado multidimensional foi o ponto forte do evento:
“Aqui abrimos um mundo de conhecimentos. O que me marcou foram as pautas climáticas — ver como a questão influencia não só no agro, mas também em nossa saúde.”
Pesquisador de Oxford aponta: “As cooperativas podem liderar a pressão por uma transição energética justa”

Ao encerrar a programação do ICS Internacional COOP Semiárido, em Juazeiro-BA, o cientista político Anthony Calacino, pesquisador da Universidade de Oxford e membro da Rede Global de Ciências Climáticas e Sociais, apresentou uma análise global sobre os desafios dos países que dependem fortemente da energia hidrelétrica diante das mudanças climáticas.
A partir de estudos comparativos envolvendo Brasil, Colômbia, Nepal e Laos, Calacino reforçou a necessidade de ação política contínua por parte da sociedade civil, com destaque para o potencial de atuação das cooperativas na defesa de uma matriz energética sustentável. Confira nossa entrevista exclusiva:
REVISTA NORDESTE – Professor, quais são os principais desafios para o Semiárido brasileiro diante das mudanças climáticas?
Anthony Calacino – O primeiro obstáculo é o que chamamos de memória curta. Quando ocorre uma seca grave, há mobilização, projetos, promessas. Mas, depois que a crise passa, o tema some da agenda pública. Falta continuidade. É como se a urgência evaporasse com a chuva. Sem pressão da sociedade para que as mudanças estruturais aconteçam, o padrão se repete — e, a cada novo ciclo de seca, os impactos são ainda piores.
NORDESTE – E além dessa memória curta, o que mais compromete a resposta do Brasil às crises climáticas?
Calacino – O segundo ponto crítico é a capacidade institucional. O Brasil tem um sistema razoável, mas ainda faltam investimentos robustos e orçamentos adequados para modernizar a rede elétrica e incentivar fontes renováveis.
O terceiro obstáculo são os interesses econômicos e lobistas. Há empresas que lucram com a expansão de usinas térmicas, mesmo sabendo que isso eleva o custo da energia e piora as emissões de gases de efeito estufa. Esses grupos atuam para manter o status quo e resistem a qualquer transição energética mais justa e limpa.
NORDESTE – O senhor defende que a comunidade deve pressionar. Isso vai além do voto?
Calacino – Com certeza. Votar é importante, mas insuficiente. A mudança exige ação no cotidiano: mobilização comunitária, articulação com organizações locais, cobrança contínua. Um bom exemplo é a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), que atua fortemente pelo direito à água, por políticas de convivência com o Semiárido e por uma transição energética justa. Essas vozes têm que ecoar constantemente, não só em época de crise.
NORDESTE – E qual é o papel das cooperativas nesse cenário?
Calacino – As cooperativas têm estrutura democrática, organização e legitimidade econômica. Elas podem — e devem — se posicionar como atores políticos no bom sentido. Têm força para dialogar com os poderes públicos, propor audiências públicas, pautar a sociedade e mobilizar opinião pública.
Não se trata apenas de reagir. As cooperativas podem liderar o debate, ser referência em práticas sustentáveis, articular redes e pressionar por políticas estruturantes. Elas estão em uma posição estratégica para conduzir o Brasil a um novo modelo de desenvolvimento. E serem os líderes dessa transformação.

