Saiba como o Tarifaço de Trump afeta a pauta exportadora do Nordeste

Por João Marques (*) e Michel Teixeira (**) 

 

A imposição de tarifas por parte dos Estados Unidos, iniciada na gestão do presidente Donald Trump, trouxe repercussões relevantes para o comércio exterior brasileiro. Os nove estados nordestinos fazem parte da cena brasileira também afetada com a repercussão das medidas anunciadas pelo presidente americano. A pedido da editoria da Revista NORDESTE, vamos construir a seguir análises à base dos números.

Apesar da histórica condição de déficit do Brasil na balança comercial com os EUA, que se intensifica quando se inclui a conta de serviços, a medida gerou preocupação, sobretudo em setores específicos da pauta exportadora nacional.

De acordo com os dados das Nações Unidas (UN COMTRADE), os Estados Unidos (inclusive territórios) exportaram para o Brasil US$ 49,6 bilhões em mercadorias e importou US$ 44,2, bilhões dos produtos brasileiros.

Olhando para os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) pelo COMEXSTAT, analisando somente os produtos enviados diretamente aos Estados Unidos, esse montante soma US$ 41,9 bilhões em 2024, ou seja é basicamente o que estava em risco diante do anúncio precipitado de Trump de tarifar todas as importações de produtos brasileiros, que devido a certo êxito na condução política do Brasil, foi relativamente mitigado em cerca de US$ 18,3 bilhões, visto que 1388 produtos foram isentados por Trump, conforme anunciou na carta intitulada “ENFRENTANDO AS AMEAÇAS AOS ESTADOS UNIDOS PELO GOVERNO DO BRASIL” (AddressingThreats To The United States By The Government OfBrazil).

Primeiramente, é importante considerar que não é o fim do mundo para o Brasil, pois os Estados Unidos são um parceiro comercial relevante, mas não são o único parceiro. 

Em 2024, representou 12% das exportações brasileira e 15,5% das importações, além disso, é importante ponderar que as exportações brasileiras para os Estados Unidos são, com algumas exceções como Aviões e alguns manufaturados metálicos, bens de baixo valor agregado, classificados como intermediários (54,3%) e que servem para fomentar a própria atividade econômica estadunidense, desta forma, até produtos que exportamos como o Café, não é essencialmente direcionado para o consumo final, pois ele ainda será processado e terá valor adicionado dentro do território americano. 

Em síntese, revela o papel do Brasil como elo fornecedor dentro das cadeias globais de valor (CGV), fornecendo insumos e matérias-primas processadas para indústrias dos estadunidenses.

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Adentrando na agenda do Nordeste, olhamos para a participação dos Estados Unidos na pauta a mesma semelhança com a relação nacional com pouca diferença percentual, cerca de 11,1% das exportações nordestinas são comercializadas com o país e totalizam US$ 2,8 bilhões, de um total de US$ 22,4 bilhões.

Com base no gráfico 3, observa-se que as exportações do Nordeste brasileiro para os Estados Unidos são fortemente concentradas em bens intermediários, que somam aproximadamente R$ 2,29 bilhões, o que representa expressivos 82,01% do total exportado. 

Em seguida, aparecem os bens de consumo, com R$ 419,1 milhões e 15,02% de participação. O que acentua a condição de especialização regressiva da região, com baixa incorporação tecnológica e menor geração de valor agregado local, intensificando sua vulnerabilidade frente a choques externos.

Combustíveis e lubrificantes respondem por 2,88%, com cerca de R$ 80,5 milhões, enquanto os bens de capital têm participação quase residual, com apenas R$ 2,39 milhões, ou 0,09%. Esses dados reforçam o perfil das exportações nordestinas para o mercado norte-americano como predominantemente composto por produtos de menor valor agregado, utilizados como insumos em cadeias produtivas estrangeiras, e não como bens voltados ao consumo final, o que indica uma relação de complementaridade produtiva mais do que de consumo direto.

Em uma análise por Unidade Federativa, com objetivo de analisar a vulnerabilidade do setor externo em relação às medidas, em ordem decrescente da participação do total do valor da pauta de cada UF, logo se tem:

O Ceará fica com 44,9% da pauta com a cifra de US$ 659 milhões vendido aos EUA; a Paraíba com  21,6% e US$ 205,2 milhões; Sergipe com 17,1% e US$ 72,2 milhões; Maranhão com 13,4% e US$ 748,6 milhões; Pernambuco com 9,4% e US$ 205,2 milhões; Alagoas com 8,8% e US$ 79,3 milhões; Bahia com 7,4% e US$ 882,1 milhões; Rio Grande do Nortecom 5,9% e US$ 67,1 milhões, e Piauí com 3% e US$ 42,1 milhões. 

Essa elevada participação indica dependência comercial e sensibilidade externa, especialmente para estados como o Ceará e Paraíba, que concentram parcela expressiva de sua pauta em um único mercado.

Por sua vez, em termos de valor exportado, os Estados não ficam ou não seguem a mesma lógica do ranqueamento acima, considerando o valor absoluto das exportações aos Estados Unidos e ordenando em ordem decrescente

Diante deste contexto, observa-se que a Bahia lidera com US$ 882,1 milhões, seguida pelo Maranhão, com US$ 748,6 milhões, e pelo Ceará, que exportou US$ 659 milhões. 

Na sequência, aparecem a Paraíba, com US$ 205,2 milhões, o mesmo valor exportado por Pernambuco; Alagoas, com US$ 79,3 milhões; Sergipe, com US$ 72,2 milhões; o Rio Grande do Norte, com US$ 67,1 milhões; e, por fim, o Piauí, com US$ 42,1 milhões. 

 

Efeitos não acontecem de forma linear, pois existem diferenciações

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Contudo, os impactos das medidas tarifárias não se distribuem de forma linear entre os estados, dado que cada Unidade da Federação possui uma estrutura exportadora específica e um grau distinto de exposição às mercadorias afetadas. 

Para mensurar os efeitos reais do tarifaço, foi adotada uma metodologia baseada no cruzamento entre os códigos tarifários norte-americanos (HTSUS) e as classificações brasileiras de mercadorias (NCM), reconhecendo-se, entretanto, possíveis assimetrias decorrentes das diferenças nos sistemas de codificação. 

Com base nos dados atualmente disponíveis, é possível estimar que as isenções concedidas pelos Estados Unidos,abrangendo as 1.388 mercadorias, foram decisivas para mitigar os efeitos potenciais das tarifas sobre o Nordeste brasileiro. 

No agregado regional, das exportações totais de R$ 2,79 bilhões destinadas ao mercado norte-americano em 2024, aproximadamente R$ 1,07 bilhão (ou 38,5%) foram resguardados por isenções, reduzindo o impacto efetivo das medidas tarifárias para R$ 1,71 bilhão.

 

CEARÁ, MAIS ATINGIDO

Na análise por Unidade da Federação, o Ceará aparece como o estado mais afetado em termos absolutos, com R$ 649,9 milhões em exportações atingidas. A alta exposição se deve à forte dependência do mercado estadunidense que representa 44,9% da pauta exportadora cearense e à baixa cobertura de isenções, limitadas a apenas 1,4% dos embarques. 

Em seguida, destaca-se a Bahia, com um impacto de R$ 590,8 milhões, mesmo com 33% de suas exportações aos EUA amparadas por isenção. O terceiro estado mais atingido foi Pernambuco, cujo impacto somou R$ 179,9 milhões, apesar de uma cobertura parcial de isenções (12,3%).

Estados como Alagoas (R$ 79,1 milhões) e Maranhão (R$ 68,4 milhões) também figuram na lista dos afetados, mas com impactos relativamente menores, explicados no caso maranhense por uma expressiva cobertura de isenções (90,9%), que atuou como importante fator de mitigação. 

Por outro lado, o menor impacto absoluto foi registrado em Sergipe, com R$ 17,1 milhões, beneficiado por um nível elevado de isenção (69,2% de suas exportações aos EUA).

EXPORTAÇÕES DO NORDESTE PARA OS ESTADOS UNIDOS, REGIÃO E UF’S DE 2024, ISENÇÕES ESTIMADAS, PARTICIPAÇÃO DAS INSENÇÕES NA EXPORTAÇÃO TOTAL E IMPACTO DO TARIFAÇO , VALORES EM US$ E PART EM (%)

Conheça os estados MAIS AFETADOS

O ranking das unidades federativas mais afetadas pelo tarifaço, em valores absolutos, é o seguinte:

Ceará – R$ 649.958.870

Bahia – R$ 590.791.091

Pernambuco – R$ 179.998.678

Alagoas – R$ 79.176.654

Maranhão – R$ 68.410.840

Rio G. do Norte – R$ 60.124.387

Piauí – R$ 36.654.957

Paraíba – R$ 35.003.390

Sergipe – R$ 17.182.666

 

OS MAIS BENEFICIADOS

Em contrapartida, os dados também revelam os estados mais beneficiados pelas isenções, cujas pautas exportadoras conseguiram escapar em grande parte do tarifaço. 

O destaque absoluto é o Maranhão, cujas isenções cobriram impressionantes 90,9% das exportações aos EUA, reduzindo o impacto a apenas R$ 68,4 milhões, mesmo com um volume expressivo de vendas (R$ 748,6 milhões). 

Também se destacam Sergipe, com 69,2% das exportações isentas e impacto de apenas R$ 17,1 milhões, e o Rio Grande do Norte, com 10,4% de isenção, o que ajudou a conter o impacto em R$ 60,1 milhões.

Além dos efeitos diretos sobre o setor exportador brasileiro, é importante destacar que as tarifas impostas pelos Estados Unidos também produzem repercussões negativas significativas sobre a própria economia americana. 

Ao tarifar um fornecedor relevante como o Brasil, especialmente em segmentos de bens intermediários, o governo dos EUA acaba onerando suas próprias cadeias produtivas, encarecendo insumos industriais e elevando custos de produção para suas empresas, o que pode pressionar a inflação interna, reduzir a competitividade internacional e até mesmo inviabilizar determinados mercados internos e externos.

 

TENTATIVA DE EQUILIBRIO

Não por acaso, a decisão de isentar 1.388 mercadorias reflete uma tentativa de equilibrar os interesses protecionistas com os riscos macroeconômicos internos, sinalizando que o tarifaço não é neutro nem politicamente sustentável no longo prazo. Além disso, os efeitos colaterais da medida no comércio global ainda precisam ser devidamente mensurados, especialmente diante de um cenário em que o Brasil, até o momento, não adotou medidas retaliatórias formais contra produtos americanos. 

Essa postura de contenção, no entanto, não exclui a possibilidade de retaliação futura, o que configura uma carta diplomática relevante, embora potencialmente arriscada para ambos os lados. 

 

RESUMO

Em suma, os desdobramentos desse episódio devem ser acompanhados com atenção, pois envolvem não apenas variáveis comerciais, mas também estratégias e geopolíticas de médio e longo prazo.

A imposição de barreiras comerciais por parte dos EUA, ainda que parcialmente mitigada pelas isenções, impõe ao Brasil e, em particular ao Nordeste, o desafio de diversificar mercados, sofisticar sua pauta exportadora e fortalecer sua inserção nas cadeias globais de valor. 

Ao mesmo tempo, reforça a urgência de uma governança comercial mais estratégica, com instrumentos capazes de antecipar e amortecer choques externos, e de proteger setores mais expostos em cada território estadual.

 

 

(*) Economista, Sócio fundador e Diretor de Articulação Institucional do IDENE

(**) Economista, Sócio fundador do IDENE

***Publicado na edição 223 da Revista NORDESTE, Agosto 2025

 

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