Integração entre PF, Receita, governos estaduais e MP pode ter desencadeado maior operação de combate ao crime organizado do país; quiçá do mundo

1.400 agentes públicos foram às ruas em oito estados, para desbaratar um esquema de sonegação e lavagem de dinheiro envolvendo grupos criminosos que movimentou R$ 52 bilhões nos últimos quatro anos

 

Por Isabel Cesse — Especial para a Revista Nordeste

A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (28/08) três operações cujo resultado foi considerado a maior estratégia interligada de órgãos de investigação e de fiscalização fazendária no país, além dos apoios do Ministério Público dos estados e governos estaduais para combate ao crime organizado.

Segundo o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, dependendo do resultado a ser apurado ao final dos trabalhos, a iniciativa pode vir a ser considerada a maior do mundo nesse tipo de atuação.

Estão nas ruas, no total, três operações — Quasar, Tank e Carbono Oculto. Juntas, elas apuraram um esquema de sonegação de R$ 7,6 bilhões e descobriram serviços sofisticados operados por quadrilhas do crime organizado que movimentaram, em quatro anos, R$ 52 bilhões

São 1,4 mil os profissionais envolvidos nas medidas de prisão e de busca e apreensão, entre policiais, auditores fiscais e representantes do Ministério Público, dentre outros. São 350 os alvos (entre pessoas físicas e jurídicas), e a atuação acontece em oito estados: São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina.

Estratégia conjunta

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, ao divulgar o balanço do que foi feito durante o período da manhã, afirmou que o dia é “marcante para o país”

“Temos acompanhado há anos o crime organizado e percebido as infiltrações e ramificações com o objetivo de transformar as atividades ilegais em atividades legais. Não seria possível chegar a esse resultado se não tivéssemos realizado um trabalho em conjunto com os órgãos policiais, governos estaduais, Ministério Público dos estados e a Receita Federal”, enfatizou.

De acordo com o ministro, ao seguirem o caminho do dinheiro, os investigadores descobriram que uma das maiores ações do crime organizado no Brasil tem sido no setor de combustíveis e no sistema financeiro. “Uma operação dessa envergadura só podemos levar a cabo num país como o Brasil, por meio de uma estratégia macro, a partir do Governo brasileiro e extensiva aos estados”, destacou.

Lewandowski relatou que tudo se iniciou em fevereiro, quando foi criado um núcleo de combate ao crime organizado para atuar de forma sistêmica e integrada entre órgãos diversos, nos vários estados brasileiros. Ele elogiou a importância do trabalho recebido não apenas pela Receita Federal e pelo Ministério Público, mas principalmente pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, que instaurou um inquérito concentrando todas as investigações sobre o mesmo tema existentes no país.

Esquema envolvendo combustíveis

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, por sua vez, mostrou mais dados obtidos a partir das operações. O esquema vinha sendo feito por meio de 1 mil postos de gasolina, quatro refinarias e mais de 1 mil caminhões para transportar o combustível. “O crime se sofistica a cada dia e temos de nos sofisticar nas nossas apurações também”, frisou Haddad. “Fomos vitoriosos porque conseguimos identificar o caminho do dinheiro”, acentuou.

O ministro afirmou que as apurações chegaram a surpreender os agentes públicos pela forma detalhada como o trabalho era feito, definido por ele como “um esquema extremamente capilar do ponto de vista material, de uso de caminhões e postos de abastecimento, e ao mesmo tempo extremamente sofisticado do ponto de vista financeiro”.

Haddad: decisão política

E acrescentou: “O resultado que obtivemos hoje não é obra do acaso, é resultado de um compromisso de Estado, assumido por esse governo no sentido de priorizar o combate ao crime organizado. A investigação tem que andar conjuntamente com a fiscalização. E a forma de trabalho consiste em uma decisão política, no sentido de se usar a inteligência do Estado em conjunto com todos os órgãos para chegar à origem do crime”.

“Esperamos que essas ações coordenadas se intensifiquem e sejam naturalizadas entre os governos estaduais em apoio com o Governo Federal daqui por diante. A gente sabe que, por meio desse tipo de ilegalidade, que muitas vezes demora para ser combatida ou que não se consegue combater, termina sendo punido o bom empresário”, enfatizou Haddad.

O ministro da Fazenda acrescentou, ainda, que “a ação de hoje deu início a uma nova forma de se trabalhar”. Em tempo: dos 350 alvos das investigações, 42 deles estão localizados na Faria Lima, principal polo financeiro do país, localizado na capital paulista.

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Walter Santos

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