Por Luciana Leão e Walter Santos
A nova fase do BNDES na atualidade tem abrigado políticas de forte impacto no incremento à economia de uma forma geral e da indústria brasileira no particular como há tempos não se via. Nesta entrevista exclusiva, a diretora Maria Fernanda Coelho avalia com conhecimento de causa os diversos projetos em curso abrigando a inserção do crédito como incremento. Leia a seguir:
NORDESTE – A senhora assumiu a presidência da ABDE em um momento em que o Nordeste ganha centralidade no debate sobre desenvolvimento sustentável. Como ajustar as políticas de investimento num momento em que o tarifaço anunciado pelo presidente americano Donald Trump exige articulações e antídotos a envolver proteção no país e, em especial, os 9 estados?
MARIA FERNANDA – O Nordeste ocupa hoje uma posição estratégica no Brasil quando falamos em desenvolvimento sustentável e soberania energética. A região virou polo nacional de eólica e solar, saltando de cerca de 20.000 MW (2013) para mais de 50.000 MW (2023) em capacidade instalada. Para se ter ideia, esse montante de energia corresponde a quase 70% do consumo de energia no Brasil.
Esse protagonismo da região não é apenas ambiental e energético, mas também econômico e geopolítico. Em um cenário de tensões comerciais, proteger e fortalecer essa capacidade é fundamental para garantir competitividade à produção nacional — especialmente das cadeias industriais nordestinas. Essa transformação exige crédito de longo prazo, juros adequados e articulação com políticas públicas.
NORDESTE – Como encarar enfrentar possíveis desvantagens?
MARIA FERNANDA – A ABDE e o Sistema Nacional de Fomento (SNF) já têm atuado para transformar essa vantagem estrutural em oportunidades concretas. Nos últimos 10 anos, os bancos públicos de fomento — muitos deles com forte atuação no Nordeste — destinaram mais de R$ 146 bilhões a projetos de transição energética. Desse total, uma parcela expressiva está concentrada na região.
Nesse momento, a ABDE acredita que a ampliação da capacidade de emissão das Letras de Crédito de Desenvolvimento (LCDs) é uma alternativa importante para aumentar o financiamento na região. A LCD é um instrumento que permite às instituições financeiras de desenvolvimento captar recursos no mercado para projetos estruturantes.
Hoje, há um limite de 6,5% do patrimônio líquido para emissão, além de um teto anual de R$ 10 bilhões. A ABDE estima que, se esse teto for ampliado, quatro instituições poderiam emitir R$ 18 bilhões dos R$ 40 bilhões previstos. Isso abriria espaço para financiar a reindustrialização verde, a inovação e a sustentabilidade empresarial, especialmente em cadeias produtivas nordestinas como a têxtil, o agronegócio e a energia.
NORDESTE – Como o BNDES pretende contribuir fortemente nesta fase de instabilidades e proteção ao mercado interno brasileiro?
MARIA FERNANDA – Esta é uma agenda que vem sendo conduzida, com firmeza, transparência e muito diálogo com todas as partes envolvidas, pelo governo federal. Desde 2023, o BNDES tem retomado seu papel de indutor da economia brasileira e tem tido papel relevante na neoindustrialização.
Em 2024, o banco realizou a maior injeção de crédito da história da instituição, com aprovações e garantias que somaram R$ 276,5 bilhões. Também foi o ano em que o banco alcançou a maior carteira de crédito desde 2017, R$ 584,8 bilhões, e a menor inadimplência do sistema financeiro (0,001%). Dentro da Nova Indústria Brasil (NIB), política industrial do governo federal, o BNDES já aprovou, até junho deste ano, financiamentos que somam R$ 220 bilhões.
NORDESTE – Que fatos registrar como contribuição efetivamente à nova fase?
MARIA FERNANDA – Um fato muito relevante para a região Nordeste foi o lançamento, em maio, da chamada pública de projetos da NIB para o Nordeste. São R$ 10 bilhões para investimentos na região nos seguintes temas: energia renovável, bioeconomia, hidrogênio verde, indústria automotiva e agrícola e data center verde.
É o maior volume de crédito já direcionado para indústria da região. O nosso recado é claro: o Nordeste tem todas as condições para ampliar sua base industrial e ser protagonista da neoindustralização.
NORDESTE – Qual a adesão efetiva a esse programa relevante de reindustrialização?
MARIA FERNANDA – Estamos convocando empresários, cooperativas e instituições a apresentarem seus projetos. Outra singularidade desse edital é o fato de reunir BNDES, Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Caixa Econômica Federal e Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), com apoio técnico da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e do Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável do Nordeste (CNE).
Crédito
NORDESTE – Em tempo, quais os caminhos para tornar o crédito mais acessível na região?
MARIA FERNANDA – Ampliar o acesso ao crédito no Nordeste exige uma abordagem combinada: ajustes regulatórios, instrumentos adaptados à realidade local e apoio técnico para transformar projetos em operações viáveis. Para os municípios, em 2023, o Sistema Nacional de Fomento (SNF) — coordenado pela ABDE — destinou R$ 16,1 bilhões aos municípios brasileiros, sendo responsável por 96,2% de todo o crédito concedido aos entes locais.
O Nordeste concentrou 21,7% dos recursos. Para aumentar o financiamento, a ABDE também tem atuado junto ao Banco Central e ao Conselho Monetário Nacional para ajustar a regulação. Defendemos a ampliação do teto prudencial da Resolução 4.995/2022, permitindo que mais recursos sejam direcionados aos entes locais.
NORDESTE – Como mensurar os incrementos financeiros?
MARIA FERNANDA – Estima-se que cada ponto percentual adicional pode liberar cerca de R$ 1,8 bilhão em crédito novo. Esses recursos podem ser decisivos para preparar os territórios diante das exigências ambientais globais. Além disso, a ABDE tem atuado para fortalecer a capacidade técnica dos territórios.
Uma das estratégias já adotadas por algumas instituições financeiras é a manutenção de escritórios regionais de apoio à estruturação de projetos sustentáveis. Essa estruturação é essencial para que pequenos e médios municípios do Nordeste consigam captar recursos para obras de saneamento, mobilidade urbana, infraestrutura resiliente e transição energética. Programas governamentais, como a Nova Indústria Brasil, também desempenham papel importante na ampliação do financiamento regional.
Micro, Pequenas e Médias Empresas

NORDESTE – Como diretora do BNDES, a senhora lidera a agenda de crédito digital para MPMEs. Que iniciativas têm sido mais eficazes no Nordeste?
MARIA FERNANDA – O fortalecimento do apoio às regiões Norte e Nordeste, especialmente às micro, pequenas e médias empresas (MPMEs), é uma prioridade estratégica para o BNDES, que atua como importante instrumento do Governo Federal na execução de políticas públicas voltadas ao segmento, bem como aquelas direcionadas à redução das desigualdades regionais e à promoção do trabalho e da renda.
A atuação com MPMEs traz uma série de externalidades positivas, como induzir ganhos de produtividade, sustentabilidade, solidez financeira, competitividade e governança. As iniciativas mais eficazes realizadas pelo Banco e que atendem às demandas das MPMEs da Região Nordeste envolvem a oferta de diversas soluções de crédito de longo prazo destinadas ao financiamento de máquinas e equipamentos, materiais industrializados, projetos de investimento e capital de giro, bem como a disponibilização das soluções de garantia.
NORDESTE – Como efetivar na prática os incrementos na ponta, ou seja para o tomador do crédito?
MARIA FERNANDA – Para atingir esse objetivo, o BNDES atua, de forma preponderante, por meio do modelo indireto via parceiros, no qual os recursos e serviços do BNDES chegam às MPMEs através dos mais de 80 agentes financeiros credenciados no Banco e autorizados a operarem suas soluções financeiras.
Como o banco não possui agências, os interessados devem procurar diretamente tais instituições, que são responsáveis pela análise do financiamento e negociam as condições com os clientes. Dentre as instituições parceiras, estão agências de fomento, bancos de desenvolvimento regionais, bancos de montadoras, cooperativas de crédito, bancos cooperativos, bancos privados e bancos públicos.
Estas instituições permitiram que o modelo indireto crescesse de forma exponencial ao longo do tempo, viabilizando a desconcentração do crédito, bem como sua presença em todo território nacional, apoiando atividades econômicas em mais de 93% dos municípios do país.
NORDESTE – Como dimensionar efetivamente os resultados na realidade?
MARIA FERNANDA – Alguns dados demonstram esse esforço. De 2023 a 2025 (até junho), as aprovações do BNDES às MPMEs da Região Nordeste, totalizaram R$ 13,5 bilhões, para mais de 25,6 mil operações. Destacam-se os financiamentos concedidos por meio dos Programas Agropecuários do Governo Federal (PAGFs); do BNDES Crédito Rural; do BNDES Finame – linha Materiais Industrializados; da solução destinada à capital de giro BNDES Crédito Pequenas e Médias Empresas e, por fim, do BNDES Finame – linha BK Aquisição e Comercialização.
NORDESTE – Como encarar as famosas Garantias de crédito?
MARIA FERNANDA – Em relação à atuação do BNDES por meio das soluções de garantia, no período de 2023 a 2025 (até junho), foram realizadas 96,4 mil operações no total de R$ 36,3 bilhões, viabilizadas pela utilização principalmente do FGI-PEAC. Vale destacar também algumas iniciativas recentes adotadas pelo Banco que possuem impacto direto na Região Nordeste e que tem o objetivo de ampliar os investimentos e o desenvolvimento regional em todos os setores da economia, atendendo especialmente às MPMEs.
Primeiro, o BNDES aprovou alterações nas políticas operacionais para oferecer melhores condições de crédito aos clientes das regiões Norte e Nordeste, incluindo a redução do seu spread bancário em suas principais soluções financeiras. Além disso, foram incluídos orçamentos exclusivos para as essas regiões em linhas de financiamento específicas, com o objetivo de impulsionar o crédito nestas localidades.
São eles: BNDES Mais Inovação – R$ 1 bilhão (saldo disponível de R$ 953 milhões); BNDES Fundo Clima Automático Máquinas e Equipamentos – R$ 300 milhões; Pronaf (agricultura familiar) Plano Safra 2025/2026 – R$ 532 milhões. Por fim, o BNDES tem realizado uma série de oficinas do programa “BNDES Mais Perto de Você” nas grandes capitais das regiões Norte e Nordeste, com o intuito de apresentar as principais soluções aos empresários locais, estimulando o acesso ao crédito.
Os eventos mais recentes foram organizados no Piauí, Acre, Amapáe Maranhão e os próximos ocorrerão em Amazonas, Sergipe e Alagoas. Os empreendedores podemesclarecer dúvidas com representantes do banco e consultar alternativas mais adequadas ao perfil de suas empresas junto a agentes financeiros parceiros que participam dos eventos.
Financiamento verde
NORDESTE – Crédito verde é prioridade no BNDES. Como a ABDE pode envolver os bancos do nordeste nessa agenda?
MARIA FERNANDA – Sim, hoje o BNDES é o maior financiador de energia renovável do mundo, segundo a Bloomberg. Os bancos estaduais e regionais do Nordeste já vêm atuando estrategicamente na agenda da transição ecológica. As instituições financeiras do sistema de fomento da Região Nordeste, a exemplo do Banco do Nordeste têm grande capilaridade, profundo conhecimento do território e capacidade de operar com micro, pequenas e médias empresas, cooperativas e entes públicos locais.
Essa combinação faz deles agentes essenciais para o avanço do crédito verde no Brasil. A ABDE tem promovido uma série de parcerias e articulações para consolidar uma estratégia nacional de financiamento climático com base no que esses bancos já estão fazendo.
Estamos organizando, por exemplo, uma participação coordenada na COP30, com a realização de painéis temáticos sobre cidades sustentáveis, transição energética e bioeconomia, reforçando o protagonismo regional e o papel do Sistema Nacional de Fomento (SNF). Vale destacar que a ABDE também foi apoiadora institucional do Brazil Energy Conference, realizado no estado do Piauí — uma das unidades da federação que mais cresceu em capacidade de geração de energia renovável.
O evento contou com a presença ativa de bancos do Nordeste, debatendo o papel do financiamento no avanço da infraestrutura verde, na mobilização de recursos privados e na criação de empregos sustentáveis. Esse tipo de agenda mostra que os bancos da região não apenas podem, como já estão fazendo parte da solução.
Economia informal e apoio aos municípios
NORDESTE – E quanto aos empreendedores informais, tão presentes no Nordeste? Como o banco tem inovado para alcançar esse público?
MARIA FERNANDA – O BNDES atua junto a esse público através de sua rede de parceiros no repasse de microcrédito. Muitos desses parceiros estão se expandindo a partir de outras regiões para o Nordeste, sobretudo para cidades do interior dos estados do Ceará, Piauí, Maranhão, Pernambuco e Paraíba, além de Tocantins e Pará.
NORDESTE – Os pequenos municípios ainda enfrentam barreiras no acesso ao crédito. A ABDE pode contribuir para mudar esse cenário?
MARIA FERNANDA – Apenas 300 municípios pequenos (até 50 mil habitantes) realizaram operações de crédito junto ao SNF em 2023, em um universo de 4.914 municípios deste porte. Muitos desses municípios estão no Nordeste e enfrentam limitações técnicas, regulatórias e fiscais.
A ABDE tem defendido a criação de “escritórios de projetos” locais, com apoio técnico e metodológico para estruturar propostas viáveis. Também estamos articulando parcerias com organizações como a GIZ, ICLEI, WRI e PNUD para criar plataformas de projetos urbanos sustentáveis e soluções baseadas na natureza.
É preciso capacitar as prefeituras para que construam projetos que facilitem o acesso ao crédito. Outra frente é a ampliação de fundos garantidores regionais que viabilizem o acesso ao crédito mesmo para municípios com menor capacidade de endividamento.
Desafios da digitalização financeira
NORDESTE – A digitalização dos serviços financeiros ainda enfrenta desafios no Semiárido. Como superar isso?
MARIA FERNANDA – De fato, a digitalização dos serviços financeiros no semiárido enfrenta desafios significativos. O BNDES possui soluções financeiras, não destinadas exclusivamente para este fim, mas que podem ser acessadas pelas empresas para direcionar os investimentos nesta área.
Como exemplos, existe a linha BNDES Mais Inovação, que é destinada ao apoio à implantação de investimentos voltados para inovação e digitalização, sendo possível o financiamento de máquinas e equipamentos ou projetos; e a linha FUST BNDES, que pode ser acessada por empresas prestadoras de serviços de telecomunicações, cujo apoio é parafinanciamentos de investimentos voltados à expansão e/ou melhoria da qualidade das redes e dos serviços de telecomunicações.
Apenas para ilustrar, as aprovações de 2023 até junho de 2025 da linha BNDES Mais Inovação somam R$ 15,8 bilhões com mais de 2.600 operações, e da linha FUST BNDES, R$ 2 bilhões em 200 operações. Acreditamos que o modelo indireto de atuação do BNDES com MPMEs, via instituições parceiras, contribui para o enfrentamento da limitação bancária no semiárido. E torna possível o alcance dos recursos do BNDES às empresas locais, evidenciando a capilaridade do crédito em todas as regiões do país.
NORDESTE – Como articular crédito, assistência técnica e políticas públicas em um contexto de vulnerabilidade climática como o do Semiárido?
MARIA FERNANDA – O Semiárido é uma das regiões que mais precisam de soluções integradas — e a ABDE acredita que o crédito só faz sentido se vier acompanhado de conhecimento e planejamento. Por isso, temos defendido que as Instituições Financeiras de Desenvolvimento atuem de forma integrada. A retomada do Comitê Regional das Instituições Financeiras Federal, sob a liderança da Sudene e do Consórcio Nordeste tem sido fundamental para aprofundar esta articulação.
Cadeia produtivas locais e Fundo Clima
NORDESTE – A nova política industrial destaca cadeias regionais. Como apoiar os arranjos produtivos locais do Nordeste?
MARIA FERNANDA – O Nordeste tem uma riqueza imensa em arranjos produtivos locais que envolvem desde a agricultura familiar até a indústria têxtil, o turismo sustentável e a bioeconomia. Para que essas cadeias avancem, é preciso crédito orientado, planejamento territorial e estímulo à inovação. O intuito é trabalhar com a ideia de uma “neoindustrialização verde e inclusiva”, conectada aos desafios do território. O apoio a arranjos produtivos locais pode ser feito com linhas de crédito específicas, assistência técnica, digitalização e acesso a mercados.
NORDESTE – E sobre os recursos do Fundo Clima, as instituições do Nordeste estão prontas para operá-los em larga escala?
MARIA FERNANDA – Sim, os bancos parceiros estão preparados para receber os pedidos de financiamento das linhas do BNDES. O orçamento de R$ 300 milhões em 2025destinado exclusivamente às Regiões Norte e Nordeste, por meio do BNDES Fundo Clima Automático Máquinas e Equipamentos, foi totalmente comprometido. Cerca de 13 instituições financeiras parceiras realizaram operações, incluindo bancos comerciais públicos e privados, banco de desenvolvimento, banco de montadora e banco cooperativo e cooperativa de crédito.
NORDESTE – A senhora é a primeira mulher a presidir a ABDE. Que mensagem deixaria às mulheres nordestinas que atuam na economia?
MARIA FERNANDA – Não sou a primeira mulher a presidir a instituição, pois Jeanette Lontra esteve à frente da ABDE em 2022. É uma honra e uma responsabilidade ocupar esse espaço. Lugar da mulher é onde ela quiser, inclusive na liderança de instituições que moldam o futuro do país.
As mulheres do Nordeste sempre estiveram na linha de frente da resistência e da inovação social. O nosso papel, na ABDE e no BNDES, é garantir que elas tenham acesso ao crédito, à tecnologia, à formação e às oportunidades para crescerem. Precisamos continuar quebrando barreiras — econômicas, culturais e institucionais — para construir um Brasil mais justo e sustentável, com a força do Nordeste e o protagonismo das mulheres.

