Por Paulo Galvão Júnior *
O presidente norte-americano Donald Trump ao assinar um decreto que impõe uma taxa adicional de 40% sobre produtos brasileiros, elevando a tarifa de importação para 50%, com entrada em vigor prevista para 6 de agosto, representa uma escalada protecionista na histórica relação comercial entre Brasil e EUA, com sérios reflexos sobre a economia brasileira, sobretudo no Nordeste.
Os setores mais afetados, como fruticultura, apicultura, pesca, calçados, têxteis e metalmecânica, são intensivos em mão de obra e sustentam milhares de famílias nordestinas. Produtos como abacaxi, manga, cacau, uva, mel, açúcar, pescados, roupas, calçados e máquinas agrícolas agora enfrentam barreiras tarifárias que comprometem gravemente sua competitividade no mercado norte-americano.
Como consequência direta, empresas desses segmentos suspenderam o envio de contêineres aos portos e de palets aos aeroportos dos EUA, diante da inviabilidade comercial imposta pela tarifa de 50%, a alíquota mais elevada aplicada por Trump entre os 164 países membros da OMC na atualidade.
CNI prevê grande perda para o Ceará
Segundo dados da CNI, o Ceará destina 44,9% de suas exportações ao mercado americano. A Paraíba direciona 21,6%, seguida por Sergipe (17,1%) e Maranhão (13,4%). Pernambuco e Alagoas mantêm relações comerciais com os EUA, com 9,4% e 8,8% de suas exportações totais, respectivamente.
Considerando que os EUA são a maior economia do mundo e a terceira nação mais populosa do planeta, essa elevada exposição acentua a vulnerabilidade das empresas nordestinas frente às tarifas unilaterais e contraproducentes.
Vale destacar que mesmo estados nordestinos com menor participação nas exportações para os EUA, como Piauí (3,0%), Rio Grande do Norte (5,9%) e Bahia (7,4%), também serão atingidos, uma vez que tais medidas impactam amplamente as cadeias produtivas, prejudicando setores interdependentes e comprometendo a competitividade regional, independentemente do volume exportado por cada estado nordestino.
Na Paraíba, estima-se prejuízo de US$ 101 milhões, com paralisação das exportações por parte de cooperativas, micro, pequenas, médias e grandes empresas paraibanas. No Ceará, o impacto pode alcançar R$ 190 milhões, afetando diretamente o Complexo do Pecém e indústrias de pescados e calçados. A Bahia deverá registrar perdas de até R$ 1,8 bilhão, enquanto Pernambuco pode acumular prejuízo de aproximadamente R$ 377 milhões, conforme projeções da CNI.
Impactos fiscais e sociais
Além dos efeitos econômicos, há impactos fiscais e sociais preocupantes. A forte retração nas exportações aos EUA, o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China, comprometerá a arrecadação de estados e municípios nordestinos, dificultando investimentos em áreas essenciais como saúde, educação e infraestrutura.
Tendências como desemprego, informalidade, inadimplência e pobreza tendem a se intensificar progressivamente mês a mês.
Ainda de acordo com a CNI, até 1,3 milhão de empregos podem ser perdidos no país, com impacto mais profundo sobre os nove estados do Nordeste. A fruticultura, por exemplo, emprega milhares de trabalhadores rurais em regime sazonal, agora sob risco iminente de desemprego.
Em contrapartida, 694 produtos brasileiros foram isentados da tarifa de 50%, permanecendo com alíquota de 10%. Itens como suco de laranja, aeronaves civis, automóveis, minérios, fertilizantes, celulose, madeira, petróleo e metais industriais, majoritariamente exportados por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, representam 65% das exportações brasileiras para os EUA e sofrerão os menores impactos do tarifaço de Trump.
Essa exclusão favorece as economias do Sudeste, enquanto produtos como café, carne bovina, pescados, frutas, móveis, etanol e açúcar permanecem sujeitos à tarifa de 50%. É preciso revelar que a região Sudeste é a maior exportadora de café, açúcar e etanol para os EUA.
Região terá efeitos severos
O Nordeste segue exposto aos efeitos mais severos do protecionismo dos EUA, com prejuízos diretos às empresas exportadoras da segunda região mais populosa e terceira mais rica do Brasil.
Diante desse cenário adverso, governadores e empresários nordestinos já articulam respostas técnicas e estratégicas, diante da ausência de justificativa técnica ou econômica que sustente o aumento abrupto das tarifas de 10% para 50%.
Nesse contexto desafiador, a diversificação de mercados, como Canadá, México, Chile, BRICS, ASEAN e União Europeia, e o investimento em produtos com maior valor agregado despontam como medidas urgentes para preservar a competitividade das empresas nordestinas.
As tarifas unilaterais impostas por Trump contrariam os princípios do livre comércio e da previsibilidade econômica. Ao adotar medidas protecionistas com motivações ideológicas, os EUA desestabilizam cadeias produtivas em uma região marcada por desigualdades sociais.
O próprio presidente Trump declarou: “Os artigos do Brasil importados para o território aduaneiro dos Estados Unidos estarão, de acordo com a lei, sujeitos a uma taxa adicional de imposto ad valorem de 40 por cento”, com base na Lei Internacional de Poderes Econômicos de Emergência e na Lei de Emergências Nacionais, seção 604 da Lei de Comércio de 1974.
O Brasil, especialmente o Nordeste, não pode ser penalizado por interesses do movimento MAGA, liderado por Trump e respaldado por empresários bilionários das big techs americanas.
As empresas exportadoras de frutas e pescados do Nordeste já enfrentam os graves impactos da guerra comercial deflagrada pelo presidente Trump. Inicialmente fixadas em 10%, às tarifas de importação foram elevadas para 50%, e há sérias ameaças de novos aumentos, podendo atingir patamares entre 100% e 500%, o que compromete gravemente a competitividade das empresas brasileiras no mercado americano.
Estudos conduzidos pela CNI, pela CNA e pela SUDENE indicam que o estado do Ceará será o mais afetado da região Nordeste pelo tarifaço de Trump. O Ceará consolidou-se como o principal exportador nordestino para os EUA em 2025, com destaque para os segmentos de frutas tropicais e pescados, cuja dependência comercial do mercado norte-americano ultrapassa 44%.
Por fim, torna-se essencial que os governos, as empresas, as associações empresariais, os trabalhadores, os sindicatos, os conselhos de classe, as cooperativas, as universidades e os fóruns de desenvolvimento se mobilizem pela defesa da economia nordestina, do livre comércio e dos interesses nacionais. Como bem ressaltou o economista paraibano Celso Furtado: “Não há desenvolvimento verdadeiro sem soberania nacional”.

