Setor de frutas do Vale do São Francisco alerta para impacto devastador de tarifa dos EUA

A poucos dias do início da safra de mangas e uvas no principal polo de produção e exportação de frutas do Brasil, a imposição de uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras pelo governo dos Estados Unidos, prevista para entrar em vigor em 1º de agosto, acendeu um sinal de alerta em todo o setor.

A Valexport, Associação dos Produtores e Exportadores de Hortigranjeiros e Derivados do Vale do São Francisco, que representa produtores e exportadores da região, divulgou  uma carta pública em que apela por ações imediatas para evitar prejuízos à economia nordestina e à base social de uma das cadeias produtivas mais relevantes do semiárido brasileiro.

No documento, endereçado aos governos do Brasil e dos Estados Unidos, bem como a embaixadas e órgãos de comércio exterior, a entidade pede a reabertura urgente do diálogo diplomático e técnico entre os países.

É imperativo encontrar uma solução que permita a manutenção do fluxo de exportações, a preservação dos lucros e o respeito ao esforço de milhares de famílias e empresas comprometidas com a produção sustentável de alimentos”, declarou o presidente da Valexport, José Gualberto de Almeida.

O que representa o setor da fruticultura

A fruticultura irrigada no Vale do São Francisco responde por cerca de US$ 500 milhões em exportações anuais, segundo dados da COMEXStat (jul/2025), com destaque para a manga, principal item da pauta brasileira de exportações de frutas.

Mas o peso do setor vai além dos números: segundo a Embrapa, a cadeia produtiva gera aproximadamente 250 mil empregos diretos e 950 mil indiretos, sendo o único meio de subsistência para milhares de famílias em uma das regiões mais áridas e desiguais do país.

O que está em jogo é muito mais que a balança comercial. É a renda de pequenos produtores, o emprego de embaladores, irrigantes, motoristas, técnicos agrícolas e comerciantes. É a dignidade de um povo que transformou o semiárido em vitrine de produção e exportação de frutas para o mundo”, reforça Gualberto. Para ele, a nova tarifa ameaça desorganizar toda a logística e a viabilidade econômica das exportações para os EUA, principal destino das frutas do Vale.

Na avaliação dos produtores, caso a medida não seja revista, a produção destinada ao mercado americano será redirecionada à Europa e ao consumo interno, que não têm capacidade de absorção do volume excedente.

O resultado será uma queda acentuada nos preços, o colapso da rentabilidade do setor e, de forma alarmante, o desemprego em massa na região”, adverte o presidente da Valexport.

A carta conclui com um apelo às autoridades para que prevaleçam o bom senso, a responsabilidade institucional e o espírito de cooperação que historicamente marcaram as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.

 

Leia a carta na íntegra:

ÀS AUTORIDADES GOVERNAMENTAIS DO BRASIL E DOS ESTADOS UNIDOS, EMBAIXADAS,
MINISTÉRIOS, ÓRGÃOS DE COMÉRCIO E RELAÇÕES EXTERIORES

Assunto: Alerta sobre os efeitos devastadores da nova tarifa americana de 50% sobre as
exportações brasileiras de frutas.

Prezadas Autoridades,

A VALEXPORT – Associação dos Produtores e Exportadores de Hortigranjeiros e Derivados do Vale do São Francisco – Associação representativa de uma das mais importantes regiões produtoras do Brasil, vem, por meio desta, manifestar sua profunda preocupação com os possíveis efeitos da
recente proposta em discussão nos Estados Unidos, que prevê a aplicação de 50% de tarifas de
importação sobre produtos brasileiros, entre eles as frutas frescas.

Tal possibilidade representa um risco significativo para a fruticultura irrigada do Vale do São
Francisco, principal polo de produção e exportação de frutas do Brasil, que movimenta cerca de
US$ 500 milhões em exportações anuais, com destaque para a manga (COMEXStat, Jul/25), item
de maior valor exportado na balança comercial da fruticultura nacional.

Além de sua expressiva importância econômica, a fruticultura no Vale do São Francisco possui
impacto social intenso. O setor gera cerca de 250 mil empregos diretos e 950 mil indiretos
(EMBRAPA), ou seja, quase 1,2 milhão de pessoas dependem diretamente dessa cadeia produtiva.
São trabalhadores rurais, embaladores, irrigantes, motoristas, técnicos agrícolas, pequenos
produtores, comerciantes e famílias inteiras que encontram na fruticultura sua única fonte de
renda e dignidade em uma das regiões mais desafiadoras e carentes do país. Essa atividade é o
oásis econômico e social do semiárido nordestino.

Mais do que um setor produtivo, ela representa uma barreira contra o êxodo rural, uma ferramenta
real de combate à pobreza e um vetor de inclusão social e desenvolvimento sustentável.
A nova tarifa compromete diretamente o principal canal de escoamento da produção, ou seja,
mais de 50% da manga produzida no Vale entre os meses de agosto e novembro, período da
principal safra, é exportada para os Estados Unidos. Estamos a menos de três semanas do início
desse ciclo, e essa tarifa inviabiliza totalmente a operação logística e comercial para esse
mercado, ameaçando paralisar a atividade em toda a região.

Caso essa situação não seja revista com urgência, o impacto será devastador, pois a produção que
deveria ir para os Estados Unidos ficará represada, sendo redirecionada à Europa e ao mercado
interno, que não possuem capacidade de absorção desse volume excedente. O resultado será
uma queda brusca nos preços, o colapso da rentabilidade do setor e, de forma alarmante, o
desemprego em massa no Vale do São Francisco.

A fruticultura é a única atividade econômica estável em vários municípios do semiárido. Estamos
diante de uma tragédia social iminente. Um colapso acarretará não apenas prejuízos financeiros,
mas também o agravamento da pobreza extrema, migração forçada, aumento da informalidade,
sobrecarregando centros urbanos e rompendo o tecido social de uma região que há décadas luta
por estabilidade.

Manifestamos profundo respeito tanto ao governo dos Estados Unidos quanto ao governo do
Brasil. Com o primeiro, temos uma relação técnica e amistosa consolidada há muitos anos,
especialmente por meio da colaboração constante com o USDA, com quem partilhamos uma
rotina intensa de trabalho.

Com o governo brasileiro, registramos o nosso reconhecimento, cujos esforços técnicos e compromisso institucional têm sido fundamentais para a consolidação do programa de exportação de frutas do Vale do São Francisco, através do MAPA, permitindo sua execução com profissionalismo e segurança operacional no cotidiano da cadeia produtiva. Ao mesmo tempo em que, depositamos confiança para que conduza os próximos passos com a cautela e serenidade que o momento exige, por meio de um diálogo diplomático, estratégico e respeitoso.

O tempo é curto e o risco é real. Os exportadores fazem um apelo veemente aos governos do Brasil
e dos Estados Unidos: que restabeleçam o diálogo diplomático e técnico com máxima prioridade.
É imperativo encontrar uma solução que permita a manutenção do fluxo de exportações, a
preservação dos empregos, e o respeito ao esforço de milhares de famílias e empresas
comprometidas com a produção sustentável de alimentos.

As frutas têm prazo curto de validade (shelf life) e não podem esperar negociações lentas ou que sejam desviadas para mercados distantes, como a Ásia. O momento de agir é agora, a propósito, mais do que comércio, nos referimos a vidas e dignidade de um povo. A fruticultura do Vale do São Francisco não poderá ser esquecida ou sacrificada.

Contamos com o bom senso, a responsabilidade institucional e o espírito de cooperação que
sempre marcaram as relações entre nossos países.
Atenciosamente,

JOSÉ GUALBERTO DE FREITAS ALMEIDA

PRESIDENTE

 

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Luciana Leão

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