Por Luciana Leão
Paulo Magnus costuma dizer que seu primeiro plano estratégico foi simples: “não voltar para a roça, nem para o frio”. Nas palavras dele, esse era o objetivo até os 30 anos. Filho de um agricultor e de uma costureira, nascido em Dom Pedro de Alcântara, no interior do Rio Grande do Sul, ele cresceu carregando cana com o pai e os irmãos — não para produção industrial, mas para alimentar as vacas de leite, principal ativo do pequeno sítio onde viviam com simplicidade e fartura.

Mas ouvir Magnus contar sua própria história revela camadas que só o protagonista pode compartilhar. Com fala simples, entrelaçada de emoção e propósito, o CEO reflete sobre passado, presente e os caminhos que o futuro da saúde ainda deve trilhar.
Das geadas do Sul ao calor dos hospitais
“Eu tenho verdadeiro horror a frio”, confessa Paulo Magnus. “Na infância, a gente esquentava a cama com tijolos aquecidos no fogão, enrolados em pano.” A família vivia de maneira simples, mas sem faltar o essencial. “Produzíamos tudo. Minha mãe costurava, meu pai cuidava da terra e da criação.”
Aos 13 anos, perdeu o pai, vítima de um segundo AVC durante uma viagem de ônibus. O impacto foi imediato. “Até aquele momento, ele cuidava de mim. Dali em diante, eu cuidei da minha vida.”
A saída foi estudar, como sempre aconselhava seu pai. Mudou-se para Torres, litoral do Rio Grande do Sul, onde trabalhou como jornaleiro e depois em uma imobiliária. Um professor perguntou na escola se alguém queria lidar com papel. Ele topou — e foi assim que entrou no setor de faturamento de um hospital. Sem saber, era o início da jornada.
Um sonho chamado tecnologia
Já em Porto Alegre, cursando engenharia eletrônica, fundou sua primeira empresa aos 21 anos. Ela surgiu de uma proposta ousada: assumir o faturamento de um hospital em troca de um percentual. Com a experiência, vislumbrou o que poucos previam nos anos 1980: a tecnologia transformaria radicalmente a gestão da saúde.
Em 1987, criou a MV com um propósito: automatizar processos hospitalares e tornar o sistema mais sustentável. “Começamos a desenvolver tecnologia para resolver gargalos da saúde — e nunca mais paramos.”
O primeiro grande sistema da empresa, lançado em 1998, foi implantado em hospitais como a Unimed de João Pessoa e o Hospital Santo Antônio, da Irmã Dulce, em Salvador (BA). A partir daí, o crescimento foi contínuo.
Do Recife para o mundo
Foi em 1988, numa quinta-feira pré-carnaval, que Paulo Magnus decidiu abrir uma filial no Recife. “Cheguei com uma pastinha embaixo do braço e uma ideia. Recife me deu calor, carnaval e profissionais comprometidos.”
Hoje, quase metade da equipe da MV está na capital pernambucana, ainda que o maior faturamento venha de São Paulo. A empresa atende clientes em países da América Latina e África — e prepara agora sua expansão para Estados Unidos e Oriente Médio.
“Temos uma tecnologia altamente adaptável, focada na jornada do paciente. Estamos trabalhando fortemente para entrar nos EUA e nos países árabes até 2027.”
A força da filantropia
A relação com a saúde nunca foi apenas técnica. A convite de uma freira, conheceu Irmã Dulce em Salvador. “Ela se encantou por mim e eu por ela”, resume. Magnus ajudou a credenciar o hospital da religiosa junto ao antigo INAMPS e esteve com ela no leito, pouco antes de sua partida.
Hoje, é mantenedor de dois hospitais filantrópicos em Jaboatão dos Guararapes (PE), com mais de 400 leitos, maternidade e UTI neonatal. Também lidera uma creche na comunidade de Nova Cruz, no Litoral Norte de Pernambuco, onde articula apoio com outros empresários locais.
“Quem faz muito, tem portas para abrir. A fé sempre me moveu.”
MaVi e a saúde sem barreiras

“Com reconhecimento facial, integração e organização, podemos construir uma saúde sem barreiras. Onde não se passa por catracas, mas por toques. Onde o paciente sai de casa, chega direto ao ponto de atendimento e tudo já está preparado para ele.”
A IA MaVi, carro-chefe do ecossistema MV, já recebeu certificação da Anvisa — um feito inédito no setor — e começa a operar em hospitais com assistentes virtuais que automatizam processos e ajudam na tomada de decisão clínica em tempo real.
A experiência digital completa começa no agendamento remoto e vai até a recepção automatizada. “Já estamos implementando esse modelo no Hospital Português, no Recife. É o futuro — e ele já chegou. O tempo que se gasta para conseguir um atendimento, mesmo nos melhores hospitais do Brasil, é insano”, acrescenta.
O SUS como missão nacional
Embora 80% da receita da MV venha do setor privado, Paulo Magnus enxerga no SUS uma missão pessoal. “O SUS atende 75% dos brasileiros. É uma das maiores inovações sociais do planeta.”
Um dos marcos recentes foi o desenvolvimento de uma LLM (Large Language Model) própria, voltada à compreensão da linguagem médica brasileira. Com apoio da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), a empresa criou uma base robusta para treinar inteligências artificiais com foco em saúde pública.
“Meu propósito é deixar o Brasil com saúde digital em 10 anos. Já perdemos cinco meses, mas seguimos. A tecnologia só faz sentido se gerar inclusão social”.
Legado e bússola: de olho no futuro
Ao projetar o futuro, Paulo Magnus não mede palavras: o foco está em crescer com propósito. A meta de R$ 1 bilhão em faturamento até 2027 é desafiadora, mas ele prefere falar de impacto. “Não me preocupo com o faturamento. Me preocupo com o legado”, comenta Magnus.
“A MV cresce 20% ao ano. Se mantivermos o ritmo, vamos chegar lá. Mas, o mais importante do que os números é o legado que deixamos, “reforça o CEO.
Para os jovens que estão começando, deixa um conselho direto:
“Nunca desistam dos seus sonhos. Transformem cada fragilidade em combustível. Sonhar é bom, mas realizar é melhor ainda — principalmente se for para melhorar a vida das pessoas.”
*Matéria publicada na edição 221 da revista NORDESTE. Leia também pelo APP da NORDESTE clicando aqui.

