Entrevista: “O Nordeste será novamente o centro da disputa política em 2026”, analisa cientista político

Cientista político Hely Ferreira analisa o peso dos legados familiares, os limites da polarização e os desafios que desafiam a renovação no cenário regional

 

Por Luciana Leão

 

 

Na avaliação do cientista político Hely Ferreira, o Nordeste volta a ocupar posição central na disputa eleitoral de 2026. Com influência decisiva tanto nos governos estaduais quanto na eleição presidencial, a região combina forças tradicionais, como o peso dos legados familiares, com a crescente presença do bolsonarismo e os desafios impostos pela polarização.

Apesar disso, Ferreira alerta: a dificuldade de renovação política e a concentração dos debates em nomes, mais do que em propostas, seguem como entraves para mudanças mais profundas no cenário regional.

 

Revista NORDESTE – Professor, ainda faltando mais de um ano para as eleições, como o senhor analisa o nível de antecipação dos movimentos partidários no Nordeste? Já se percebe um quadro de polarização em estados-chave como Bahia, Pernambuco e Ceará?

HELY FERREIRA – A eleição no Brasil se fala constantemente. O eleitor é que basicamente se preocupa com ela nos últimos 15 dias. E o cenário no Nordeste anda antecipado porque existe uma polarização nacional, e como o Nordeste tem mantido uma linha de votar no PT, isso faz com que a visão sobre a região seja de que ela caminha em sentido contrário a outras áreas do país. Principalmente Bahia, Pernambuco e Ceará, que têm os maiores colégios eleitorais da região, concentram essa antecipação.

NORDESTE – A permanência de lideranças tradicionais e a baixa renovação política continuam sendo características marcantes da política regional. Isso tende a se repetir em 2026?

HELY FERREIRA – Existe uma carência de renovação, especialmente no Nordeste, por conta da tradição familiar. A política sempre foi dominada por famílias. Há quem diga que há famílias que não precisam sequer usar desodorante porque vivem apenas sob a esfera pública, sem transpirar. Às vezes, aparece um nome novo, mas que é velho nas ideias. Apesar disso, há insatisfação com os dois lados da polarização, e isso pode abrir espaço para o surgimento de algo novo. Mas é difícil, porque as oligarquias permanecem muito vivas em nossa história política.

 

Disputa eleitoral por estado

 

NORDESTE – Em seu entendimento, onde a disputa para governador deve ser mais acirrada em 2026? E onde há mais chance de reeleição tranquila?

HELY FERREIRA – Acredito que no Ceará, embora a disputa seja forte como em Pernambuco e Bahia, a reeleição tende a ser mais tranquila. Isso não significa que ocorrerá. Em Pernambuco e Bahia, a disputa deve ser intensa. E há uma razão: o crescimento da popularidade dos governos estaduais, somado à possibilidade de surgirem nomes fortes como João Campos e ACM Neto — ambos representantes de famílias políticas. Isso afeta diretamente as chances de reeleição.

NORDESTE – Estados como Bahia, Pernambuco e Ceará estão no centro do debate político nacional. O Nordeste continuará sendo um dos principais redutos do campo progressista ou há espaço real para crescimento da oposição bolsonarista ou da centro-direita?

HELY FERREIRA – A orfandade existe tanto na direita quanto na esquerda. Bolsonaro não representa a direita histórica, e a esquerda depende da figura de Lula. O Nordeste tem predominância petista, mas as pesquisas mais recentes mostram queda significativa na popularidade do governo federal também na região. Isso abre espaço para novas alternativas, embora ainda não se saiba quais. A fragilidade da nossa democracia é que discutimos menos ideias e mais nomes.

 

Influência de lideranças nacionais

 

NORDESTE – Como avalia o papel do presidente Lula e de figuras como o ministro Rui Costa, senador Jaques Wagner, ministro Renan Filho e até mesmo ACM Neto nesse tabuleiro regional?

HELY FERREIRA – Esses nomes são padrinhos políticos em seus estados. Lula é o único que transcende e atua como padrinho em todos os estados nordestinos. Mas o poder local ainda é muito forte, e muitas vezes decide eleições, mesmo com candidatos inexpressivos — desde que bem apadrinhados.

Impacto da gestão estadual e gargalos estruturais

 

NORDESTE – Questões como segurança pública, evasão escolar, déficit habitacional, saúde precária e infraestrutura desigual devem entrar no centro dos debates de campanha? Que tipo de narrativa tende a ser mais bem aceita pelo eleitor nordestino em 2026?

HELY FERREIRA – Respondendo sua primeira pergunta. Temas como segurança, saúde, infraestrutura, esses temas sempre estarão presentes em qualquer campanha porque o Brasil tem dificuldade em sanar esses problemas. Mas como as campanhas estão cada vez mais profissionalizadas, a gente certamente observará que os discursos dos candidatos estarão pautados nas pesquisas qualitativas.

Aquilo que as pesquisas qualitativas apontam como prioridade, como o maior desejo do eleitor, certamente se fará presente nas propostas dos candidatos. E o que é interessante nisso aí é que muitas vezes os candidatos prometem certas coisas que historicamente são contra, mas eles prometem porque sabem que a pesquisa qualitativa aponta que é um dos maiores desejos do eleitorado.

Em relação à narrativa, eu creio que os problemas sociais são muito fortes e sempre foram muito bem-vindos no Nordeste, até porque ao longo da nossa história a região sempre foi preterida dentro de um cenário nacional. De modo que quando se tem uma agenda voltada para tentar suprir essas dificuldades, deficiências históricas, naturalmente isso faz com que tenha muito mais peso as chamadas políticas sociais dentro da região Nordeste, muito mais forte do que a questão de promessas com questões do mundo técnico.

 

Sobre o peso regional

 

NORDESTE – A soma do eleitorado nordestino torna a região decisiva também para o cenário federal. Como o senhor vê o papel do Nordeste na eleição presidencial de 2026?

HELY FERREIRA – O resultado eleitoral passará, mais uma vez, pelo Nordeste. Pela tradição de voto no PT e pela curiosidade em saber até que ponto a queda de popularidade de Lula poderá afetar seu desempenho. Existe grande expectativa em torno disso. Como dizia um pensador dinamarquês, “a expectativa faz parte do prazer”.

NORDESTE – A presença de candidaturas “alinhadas ao Planalto” nos governos estaduais pode ter efeito de tração para o voto em Lula (caso ele dispute) ou outro nome do PT e eventuais alianças?

HELY FERREIRA – Como dizia Magalhães Pinto, política é como nuvem. Hoje, Lula ainda é muito bem-vindo nos palanques nordestinos. Mas se a popularidade cair ainda mais, alguns candidatos podem tentar se distanciar. No entanto, sua presença continua sendo um ativo importante. Não garante eleição, mas garante competitividade.

 

 

 

 

*Matéria publicada na edição 221 da REVISTA NORDESTE

 

 

 

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Luciana Leão

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One thought on “Entrevista: “O Nordeste será novamente o centro da disputa política em 2026”, analisa cientista político

  1. LOURINALDO NOBREGA 5 de julho, 2025 at 9:03

    Alguns sobre a entrevista do eminente professor Helly Ferreira sobre a eleição majoritária de 2026
    De início sugeria substituir a afirmação de que “o Nordeste tem mantido uma linha de votar no PT”, pela frase: O Nordeste tem mantido a linha de perceber e rejeitar candidatos com propostas vazias e sem preocupação com desenvolvimento da região.
    Concordo com o professor sobre a tradição oligarca do Nordeste. Do ponto de vista econômico esse sistema perverso se compara a um Oligopólio familiar que cria várias barreiras à entrada de novos concorrentes e assim consegue garantir o acesso de parentes aos cargos públicos preservando o patrimonialismo que opera ao misturar negócios do Estado com interesses familiares e de grupos. O curioso é que apesar de o país contar com mais de 30 partidos políticos tudo acaba em polarização.
    A afirmação de que o “O Nordeste tem predominância petista” é explicado pelas políticas sociais que este partido defende, bem diferentes da abordagem neoliberal abraçada pela linha evangélico-bolsonarista para os quais o país é visto como uma empresa ou um mercado onde se pode fazer lucrativos negócios sem se preocupar com a preservação do meio ambiente, observação as leis trabalhistas e sem ser incomodados com tributação. Concordo que “A fragilidade da nossa democracia está em discutir menos ideias e mais nomes”.
    Infelizmente “Questões como segurança pública, evasão escolar, déficit habitacional, saúde precária e infraestrutura desigual” são substituidas muitas vezes por propostas do tipo Pauta de Costumes orientadas por pasto evangélico politiqueiro como: aborto, casamento gay, pena de morte para menor infrator quando, por exemplo, deveria ser discutido politicas públicas para evitar a existência do menor infrator
    Concordo que “O resultado eleitoral passará, mais uma vez, pelo Nordeste” e a Direita vai explorar este fato estimulando o divisionismo.
    Eng. Lourinaldo Nobrega

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