Para onde vai o Nordeste nas eleições de 2026?

Lideranças e partidos começam a montar o tabuleiro político; Piauí é o único estado do Nordeste onde o governador tende à reeleição; demais estados vivem cenários de disputa ou indefinição

 

Por Luciana Leão

 

Embora ainda falte mais de um ano para as eleições majoritárias de 2026 — que definirão os governos estaduais, a Presidência da República e parte do Senado — os partidos já se movimentam em todos os nove estados nordestinos.

A região, historicamente favorável ao campo progressista, volta a ser estratégica. Pesquisas de opinião e articulações revelam disputas acirradas em estados como Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão e Pernambuco. Sergipe, Paraíba e Rio Grande do Norte ainda vivem cenários de indefinição. Apenas no Piauí há uma sinalização clara de recondução do atual governador Rafael Fonteles, do PT.

 

A análise do cientista político Hely Ferreira, nesta edição 221, destaca a persistência das oligarquias regionais e a dificuldade de renovação no quadro político. “A política na região nordestina sempre foi de famílias”, observa. Ferreira também alerta para os riscos da personalização excessiva dos pleitos: “Ao invés de discutirmos ideias, ficamos esperando que surja um nome, ou seja, uma pessoa e não propostas.”

Alagoas

O governador Paulo Dantas (MDB) ainda não confirmou se buscará a reeleição. Nos bastidores, cogita-se o retorno do ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), ex-governador do estado por duas vezes, como possível nome do grupo político.

O atual prefeito de Maceió, JHC (PL), apoiado pelo ex- presidente da Câmara Arthur Lira, abriga uma nova realidade ao ser mencionado em entendimentos com o senador Renan Calheiros. Ele é considerado um dos pré-candidatos mais fortes, com alta aprovação. JHC, Dantas e Renan lideram os cenários mais recentes das pesquisas eleitorais.

Bahia

O governador Jerônimo Rodrigues (PT) deve tentar a reeleição, com apoio do presidente Lula. A articulação do PT envolve também os ex-governadores Rui Costa e Jaques Wagner, nomes fortes na disputa por uma cadeira no Senado.

Na oposição, o vice-presidente da União Brasil, ACM Neto se apresenta novamente como pré-candidato ao governo. Crítico da condução petista no estado, ele reforça o discurso de alternância de poder. As últimas pesquisas indicam Jerônimo, ACM Neto e um possível nome do PL entre os mais bem posicionados.

Ceará

O governador Elmano de Freitas (PT) tende a disputar a reeleição. Seu principal adversário pode ser o ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (sem partido, ex-PDT). O bolsonarismo no estado deve apostar novamente em Capitão Wagner (PL). Há a possibilidade de Ciro Gomes entrar na disputa.

As últimas pesquisas mostram Elmano, Roberto Cláudio e Wagner nas primeiras colocações. Caso mantenha sua base unida, Elmano pode ter vantagem, conforme análise de Hely Ferreira.

Maranhão

O governador Carlos Brandão (PSB) decidiu não apoiar o vice-governador Felipe Camarão (PT), que já aparece nas pesquisas em terceiro lugar. Ao invés de Camarão, Brandão lança o nome de seu sobrinho Orleans Brandão (MDB) para o governo, além de apoiar o senador Weverton Rocha (PDT), seu adversário na disputa em 2022, e vai tentar sua reeleição e o deputado federal licenciado e ministro do Esporte André Fufuca (PP).

Do lado da oposição, o prefeito de São Luis, Eduardo Braide (PSD), aparece como um nome forte da oposição e primeiro lugar nas pesquisas mais recentes,. Outro nome da oposição é o ex-prefeito de São Pedro dos Crentes, Lahésio Bonfim (Novo), em segundo lugar com 19,4%, seguido pelo vice-governador Felipe Camarão (PT), que registra 13,2%, enquanto Orleans Brandão (MDB), aparece com 8,4%.

Paraíba

O governador João Azevêdo (PSB) cumpre seu segundo mandato e não poderá disputar a reeleição. A base governista trabalha a hipótese dele ser candidato ao senado ainda precisando resolver a composição para os cargos majoritários.

Existe a hipótese de o vice-governador, Lucas Ribeiro, vir a ser candidato, mas o partido Republicanos do presidente Hugo Motta e Adriano Galdino se manifesta a merecer outra definição. Há ainda a possível presença também do prefeito Cícero Lucena na disputa .

Na oposição, os nomes lembrados para o governo são do senador Efraim Filho (UB) e do ex-deputado Pedro Cunha Lima (PSD). O médico Marcelo Queiroga surge como nome para o partido PL.

Pernambuco

A governadora Raquel Lyra, hoje filiada ao PSD, trabalha para ampliar sua base. No entanto, deve enfrentar João Campos (PSB), prefeito do Recife e nome com forte apelo eleitoral com reforço no universo digital e histórico familiar: bisneto de Miguel Arraes e filho de Eduardo Campos.

Fora dessa disputa maior, Gilson Machado (PL), ex-ministro do Turismo e apoiado por Jair Bolsonaro, lidera a preferência do eleitorado de direita e figura como principal representante do bolsonarismo no estado. Segundo as pesquisas, João Campos lidera, seguido por Raquel Lyra e Gilson Machado.

Piauí

Único estado com cenário mais definido, o governador Rafael Fonteles (PT) é favorito à reeleição, com alta aprovação. A oposição ainda não apresenta um nome competitivo, e Fonteles aparece com ampla vantagem nas últimas sondagens.

Rio Grande do Norte

Fátima Bezerra (PT) está no segundo mandato e deve disputar o Senado. A sucessão segue indefinida tanto na base quanto na oposição. Dias atrás, o senador potiguar Styvenson Valentim (PSDB) sinalizou que pode entrar na disputa pelo Governo do Rio Grande do Norte em 2026, caso o aliado Rogério Marinho (PL) decida não concorrer.

Entre os nomes cotados estão Rogério Marinho (PL), Walter Alves (MDB, atual vice-governador) e Natália Bonavides (PT), que figuram nas primeiras posições das pesquisas mais recentes.

Sergipe

O governador Fábio Mitidieri (PSD) pode buscar a reeleição, embora não tenha oficializado a intenção. O ex-prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira, e Valmir de Francisquinho são nomes da oposição que aparecem bem nas pesquisas iniciais.

Entre legados, alianças e o fator Bolsonaro

A disputa de 2026 deve acirrar o confronto entre campos ideológicos. O bolsonarismo — representado sobretudo pelo PL, partido de extrema-direita — tende a marcar presença em todos os estados. Ainda assim, partidos de centro-direita devem compor chapas em alianças híbridas, como ocorre no PSD, União Brasil, Progressistas e Republicanos.

A força dos legados familiares ainda é relevante, especialmente em estados como Pernambuco, Alagoas, Paraiba e Bahia. Mas o apelo popular de candidaturas associadas à gestão local ou à máquina federal será determinante em um cenário de baixa aprovação do governo Lula, mesmo no Nordeste.

Gargalos e desafios estruturais à frente de 2026

Embora avance em áreas como energias renováveis, transição energética, tecnologia, agronegócio e economia criativa, o Nordeste segue enfrentando obstáculos históricos que desafiarão os futuros gestores a partir de 2026.

Segurança Pública é um dos grandes desafios aos gestores dos estados nordestinos. Foto: Reprodução Internet

Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto de Planejamento e Economia Aplicada (Ipea) mostram que a região concentra os piores indicadores nacionais em áreas-chave como saneamento e segurança pública.

Educação

Apesar de alguns estados como o Ceará ser modelo na educação, o abandono escolar no ensino médio ainda atinge níveis preocupantes em alguns estados. O analfabetismo funcional e a defasagem idade-série continuam elevados, sobretudo nas zonas rurais e periferias urbanas. O acesso desigual à internet também limita a aprendizagem e a inclusão digital, mesmo com avanços de cobertura por parte do Ministério das Comunicações.

Saúde

Na saúde, há carência de médicos em muitas cidades do semiárido, além de longas filas por exames e cirurgias. Há esforços significativos do atual governo, mas a cobertura da atenção básica varia bastante entre os estados e ainda não atinge patamares ideais.

Saneamento

No campo da infraestrutura, cerca de 50% da população nordestina ainda vive sem acesso a coleta de esgoto adequada, com implicações diretas para saúde e meio ambiente. Em estudo recente do Instituto Trata Brasil, o Nordeste despeja mais 1,3 mil piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento diariamente. Em 2024, mais de 93 mil habitantes na região Nordeste foram internados por doenças associadas à falta de saneamento.

A precariedade do transporte público em capitais e regiões metropolitanas reforça a desigualdade no acesso a serviços essenciais.

Segurança

A insegurança segue como um dos principais entraves. Estados como Bahia, Pernambuco e Ceará registram altas taxas de homicídios, com destaque para conflitos entre facções e violência urbana.

Em paralelo, cresce a sensação de medo e a pressão social por medidas duras — pauta que tende a ser explorada pelo campo da extrema-direita.

Trabalho

No mercado de trabalho, a informalidade é superior à média nacional, e o desemprego afeta especialmente jovens e mulheres negras. Mesmo com o aumento do salário mínimo, o poder de compra permanece baixo em muitas cidades.

Esses desafios devem pautar o debate eleitoral. Em jogo estarão propostas capazes de articular desenvolvimento com justiça social e sustentabilidade — com atenção especial à juventude, à economia regional e à inclusão das populações mais vulneráveis.

 

 

*Matéria publicada na edição 221, da revista NORDESTE.
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Luciana Leão

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