Por Luciana Leão
No coração do Agreste pernambucano, uma revolução silenciosa e liderada por mulheres transforma a vida de dezenas de famílias, movimenta a economia e consolida Pernambuco no mapa da produção de ovos de postura no Brasil, segmento da avicultura para a criação de galinhas para produção de ovos destinados ao consumo humano. À frente dessa transformação está a Coopave – Cooperativa de Avicultores de São Bento do Una, que além de gerar trabalho e renda, é exemplo de organização, empreendedorismo coletivo e protagonismo feminino.
A presidente Maria Aparecida Cordeiro de Almeida, ao lado de outras cinco mulheres, não apenas comanda, mas inspira. Juntas, assumiram a gestão da cooperativa de ovos de postura há cinco anos, em meio a desafios que ameaçavam sua existência.
Hoje, com 28 cooperados, a Coopave responde por uma produção de aproximadamente 900 mil ovos por semana, abastecendo mercados em Pernambuco, Alagoas, além de municípios do entorno da cidade.
Onde o ovo é rei
São Bento do Una não carrega o título de “Capital Nordestina dos Ovos” por acaso. O município é hoje o maior polo produtor do Norte e Nordeste e ostenta a posição de terceiro maior produtor do Brasil. Por trás desses números estão centenas de granjas, pequenas, médias e grandes, que fazem do ovo não só um alimento, mas o motor da economia local.
Entre os gigantes do setor está a Granja Almeida, com uma produção de 3 milhões de ovos por dia, considerada a maior do Norte/Nordeste. E é nesse ambiente de tradição e força produtiva que a Coopave se destaca, mostrando que o modelo cooperativo é caminho seguro para prosperidade e autonomia no campo.
Pernambuco lidera, cresce e impacta
Os dados não deixam dúvidas. Pernambuco é, hoje, o maior produtor de ovos de postura do Nordeste. No primeiro semestre de 2024, a produção cresceu 33% em relação ao mesmo período de 2023, alcançando 73,7 milhões de dúzias. O estado também conquistou uma posição de peso no cenário nacional, ocupando o 4º lugar no ranking brasileiro.
Mais do que números, esses resultados representam impacto direto na vida das pessoas. A cadeia da avicultura de postura emprega aproximadamente 200 mil pessoas em Pernambuco, direta e indiretamente. O setor de avicultura também passou a integrar, pela primeira vez, o seleto grupo das atividades bilionárias do estado, com um Valor Bruto de Produção (VBP) de R$ 1,3 bilhão.
Das pintinhas ao mercado
Vídeo mostra máquinas separando os ovos por classificação: industrial, médio, extra e jumbo/ Unidade de Beneficiamento da Coopave
O ciclo produtivo começa com as pintinhas de um dia, que passam por um período de criação de 17 semanas, até se tornarem galinhas poedeiras ou de postura. A partir daí, seguem na fase produtiva por até 102 semanas, quando, naturalmente, ocorre uma queda na produtividade e elas são substituídas.
A Coopave, segundo revelou ao site da revista NORDESTE, a presidente Maria Aparecida Cordeiro de Almeida trabalha com ovos de todas as classificações — industrial, médio, extra e jumbo. Este último, muitas vezes, traz uma surpresa: duas gemas no mesmo ovo, um clássico da região.
Cooperativismo que transforma

“A cooperativa transformou nossa vida. A gente não é mais refém de atravessadores. Aprendemos a nos organizar, a crescer juntas e a fortalecer nossa comunidade”, afirma com orgulho Maria Aparecida, que lidera a cooperativa desde que ela e outras mulheres decidiram não aceitar o fracasso como destino.
O nascimento da Coopave foi uma resposta coletiva à dependência de atravessadores, que ditavam preços e sufocavam os pequenos produtores. Com apoio do Sebrae-PE e da Prefeitura de São Bento do Una, surgiu um modelo que une autonomia, solidariedade e desenvolvimento econômico.
Funciona assim: cada cooperado cuida da produção na sua granja. A Coopave faz a coleta, classificação, embalagem e comercialização. Em troca, os cooperados pagam uma taxa administrativa de R$ 1,30 por bandeja, que cobre custos operacionais, pagamento de funcionários e aquisição de embalagens. “O modelo não busca lucro, mas sim garantir a sustentabilidade do negócio e das famílias envolvidas”, pontua Maria Aparecida.
Atualmente, são comercializadas cerca de 30 mil bandejas por semana, equivalente a 900 mil ovos, com destinos principais para Recife, Maceió e outras cidades da região.
Biossegurança: questão de sobrevivência
O setor avícola vive em alerta constante, especialmente após os casos recentes de influenza aviária no Sul do país. Na Coopave e nas granjas da região, as medidas de biossegurança foram intensificadas. O protocolo inclui, segundo informações da Cooperativa, granjas 100% teladas; Arcos de desinfecção nas entradas; Controle rigoroso de acesso, com registro de qualquer visitante; Vacinação constante dos plantéis; Manutenção de barreiras sanitárias e rigor no manejo.
“Se um problema desses que aconteceu no Sul do país chega aqui, é uma bomba. Porque é uma granja em cima da outra. Por isso, todo mundo tem que fazer sua parte”, alerta Maria Aparecida.
Próximos passos: mais mercado, mais força
O foco da Coopave agora é conquistar o registro da Adagro, essencial para consolidar a operação e dar mais segurança sanitária e jurídica ao negócio. O passo seguinte será obter o SIF (Serviço de Inspeção Federal), que abrirá portas para que a cooperativa possa comercializar em todo o território nacional.
Com uma gestão feita por mulheres que quebraram barreiras, a cooperativa é hoje símbolo de resistência, organização e potência econômica em Pernambuco. O que se vê em São Bento do Una é mais do que produção de ovos. É a materialização do cooperativismo na sua essência mais pura: trabalho coletivo, geração de renda, desenvolvimento local e transformação social.
Saiba Mais:
Pernambuco, potência dos ovos no Nordeste
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Maior produtor de ovos de postura do Nordeste e 4º do Brasil
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73,7 milhões de dúzias produzidas no 1º semestre de 2024
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Crescimento de 33% em relação a 2023
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VBP do setor: R$ 1,3 bilhão
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Cerca de 200 mil empregos diretos e indiretos no estado
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São Bento do Una: 3º maior polo produtor do Brasil

