Saiba os problemas mais graves na visão dos brasileiros e como o país pode se precaver já na infância
Por Walter Santos
O mundo de uma forma geral e o Brasil/Nordeste em particular, precisam conviver com a advertência e ensinamentos do cientista brasileiro Osvaldo Travassos expondo a importância de encarar e resolver os cenários. Ele desenvolveu modelo a exigir que o Brasil adote para resolver os dramas dos recém-nascidos
Revista NORDESTE – Dr. Osvaldo, em pleno século XXI, como podemos definir o nível da saúde visual no Brasil de Norte a Sul, de Leste a Oeste?
OSVALDO TRAVASSOS -O nível de saúde visual especificamente no Brasil varia de acordo com alguns fatores: o acesso aos cuidados oftalmológicos, sofrendo a influência regional, áreas remotas ou carentes têm menor frequência a esses cuidados, a prevalência de doenças oculares, o envelhecimento da população, devendo ainda ser levado em conta a prevenção e as campanhas educativas.
NORDESTE -Qual o patamar atual do tratamento médico visual da sociedade deste importante e fundamental segmento e fator humano?
OSVALDO TRAVASSOS – O tratamento médico oftalmológico atual oferece opção avançada e personalizada para corrigir problemas visuais. A oftalmologia é uma das ciências médicas bastante beneficiada pelos avanços tecnológicos e que favorece o paciente.
Os avanços podem ser evidenciados através da moderna técnica para extração de catarata, a cirurgia refrativa, o implante do cristalino artificial, os diferentes tipos de Lasers, as terapias para olho seco, a tomografia de coerência óptica, óculos para acrescentar imagens periféricas não vistas nos portadores de glaucoma avançado e em outras doenças que limitam o campo visual, devendo ainda ser registrada a inteligência artificial. As tecnologias têm melhorado significativamente a qualidade dos diagnósticos e tratamentos oftalmológicos oferecendo mais opção e esperança para os pacientes.
NORDESTE – Como o aspecto regional – estar no Sul/Sudeste ou no Norte/Nordeste – identifica vários Brasis num só? Na prática, como o fator econômico afeta de que forma a saúde visual?
OSVALDO TRAVASSOS – Em qualquer parte do Brasil a oftalmologia pode ser praticada utilizando os maiores avanços. O médico oftalmologista pode dispor de aparelhagem idêntica à de qualquer outro país desenvolvido, a aplicabilidade é que precisa sofrer alteração para facilitar o uso dos pacientes com limitação econômica.
NORDESTE – Há registros nacionais de que o Sr. por exemplo, já apresentou projetos no Congresso Nacional para aplicar em todo país um teste comum a todos visando identificar os problemas de visão desde os primeiros dias da criança. Isso procede e o que significa essa proposta fundamental?

OSVALDO TRAVASSOS -Desenvolvi um teste que pode ser aplicado na criança de tenra idade, iletrada, que permite uma avaliação precisa do estado da visão binocular da criança. Foi motivo de tese universitária e o aparelho recebe o nome de OTMStereotest, (OTM de minhas iniciais), inclusive usado em outros países.
A aplicação do teste também nas escolas pode contribuir na prevenção da cegueira. Outro projeto e que espero seja criado, é uma lei federal que estimule a apresentação de um atestado de visão na rede publica e privada por ocasião da primeira matrícula no ensino fundamental. Uma criança que não enxerga bem não acompanha as atividades escolares.
NORDESTE – Se possível, explique em detalhes sua proposta revolucionária também atual?
OSVALDO TRAVASSOS – O desenvolvimento sensorial da visão se dá até os 8 anos de idade. Uma criança que apresente algum transtorno visual e que até esta idade não tenha passado quando possível por alguma forma de tratamento, levará o déficit visual para a idade adulta. 4% da população mundial apresenta um certo grau de diminuição visual num dos olhos e muitas vezes poderia ser evitada se detectada precocemente na idade pré-escolar.
Muitas vezes são simples defeitos ópticos como miopia, hipermetropia astigmatismos que poderiam ter neutralização óptica através de simples óculos. Com a avaliação visual da criança o panorama poderá mudar e termos pessoas capacitadas no exercício da boa visão. Aqui repito: o atestado de visão por ocasião da primeira matricula atendendo a uma lei federal poderá contribuir muito na prevenção da cegueira.
NORDESTE – Cá pra nós, qual o nível de valor humano ao se identificar problemas visuais nos primeiros dias de vida?
OSVALDO TRAVASSOS –Já por ocasião do nascimento, ainda na sala de parto, facilmente pode ser aplicado um teste que descrevi em Congresso de Prevenção da Cegueira no ano de 1980, que ao ter uso rotineiro passou a ser chamado de “Teste do Olhinho” ou teste da pupila vermelha ou teste do clarão pupilar.
À época, apresentei uma transformação que fiz numa câmera de cinema Super 8 e anunciei que não só filmaria o parto como ajudaria a detectar se a criança nasceu com alguma alteração congênita, tipo catarata congênita, glaucoma congênito e até mesmo formação tumoral. As maternidades passaram a adotar o método e atualmente existe lei para a sua prática em alguns Estados. A vida moderna, exigindo aplicação visual, limita muito as pessoas com deficiência visual.
NORDESTE – Como o Sr avalia o nível da Medicina praticado nos 9 estados nordestinos, a partir de centros como Recife, para oferecer medicina de ponta aos habitantes desse universo regional?
OSVALDO TRAVASSOS -Pode ser dito que é praticado uma boa medicina. Há algum tempo era mais frequente ser comentado como um privilégio do Sul, em haver melhor tecnologia. Hoje ela pode estar presente em qualquer parte do Brasil. Não há dificuldade na translação de equipamentos estrangeiros ao Brasil e deve ser dito que já existe participação nacional na fabricação de muitos instrumentos médicos.
NORDESTE – Dr. Osvaldo, alguns problemas sérios da visão, como o Glaucoma, continuam afetando jovens e adultos de forma permanente. O que o Sr define a identificação do problema, o que fazer e tratar tamanha situação?
OSVALDO TRAVASSOS – O glaucoma é uma doença ocular em que o aumento da pressão de um líquido em seu interior comprime o nervo óptico e pode levar à cegueira. A incidência é maior a partir dos 40 anos de idade, embora possa existir desde o nascimento, o chamado glaucoma congênito, ou mesmo em qualquer faixa etária consequente a processo doentio outro no globo ocular.
É muito importante o exame oftalmológico porque uma pessoa pode ser portadora de glaucoma e não ter sintomas. Quando detectado o aumento da pressão intraocular tardiamente, pode mesmo quando tratado permanecer com sequela, a baixa visual. O glaucomatoso perde inicialmente a visão periférica. Em estágio avançado o paciente tem uma visão tubular: como perceberia uma pessoa de visão normal olhando por um tubo. Já está em prática uns óculos que desenvolvi que acrescenta ao campo visual imagens não vistas no glaucoma avançado e em outras doenças que limitam a visão periférica.
NORDESTE – quais os outros problemas frequentes na vida humana no campo oftalmológico, que o Sr aponta no universo da vida real das questões visuais, além do Glaucoma?
OSVALDO TRAVASSOS -Há uma frequência muito grande dos defeitos ópticos: a miopia, hipermetropia e astigmatismos, que podem ser corrigidos através de lentes nos óculos, lentes de contato ou mesmo cirurgia. Quanto a alterações visuais de natureza orgânica há uma grande incidência da catarata, das degenerações retinianas, algumas delas relacionadas à idade, e a retinopatia diabética.
NORDESTE – Os dados comprovam que o Sr tem atuado também fortemente no trato de questões diferenciadas como a tecnologia 3D. O que isso significa na vida social e da oftalmologia contemporânea?
OSVALDO TRAVASSOS – A percepção visual em 3D significa o mais elevado grau da visão binocular. A sua medida é importante para as profissões que exigem visão em profundidade como pilotos, e facilmente medida através de um aparelho chamado estereoteste. O OTMStereotest é um deles. A terceira dimensão, o 3D, quando aplicado em nível de ensino contribui para um melhor entendimento dos fenômenos que apresentam espaço e relevo. No glaucoma é comum haver uma escavação no nervo óptico e a documentação em 3D permite maior precisão no acompanhamento da lesão em profundidade.
NORDESTE – Na sua opinião, como a tecnologia IA está e vai afetar cada vez mais a medicina e, em particular, a Oftalmologia?
OSVALDO TRAVASSOS -A inteligência artificial (IA) pode contribuir para uma melhoria da precisão, automatizar tarefas rotineiras, acesso a cuidados médicos em áreas remotas e liberar mais tempo para o médico nas funções complexas. Alguns aparelhos oftalmológicos já fazem uso da (IA) inteligência artificial e contribuem no acompanhamento comparativo de muitas situações do próprio paciente ou em relação a um grupo populacional de mesma faixa etária. Importante na análise de dados e identificação de padrões para melhorar diagnósticos e tratamentos.
NORDESTE – Para concluir, qual o futuro da medicina diante desses novos fatores e de tecnologia na qualidade da vida das pessoas?
OSVALDO TRAVASSOS – Impacto significativo: diagnósticos mais ágeis, redução de filas, melhoria no perfil individual para tratamento, maior qualidade de vida, evolução da medicina preventiva, aplicativos e plataformas na promoção do autocuidado, a criação de órgãos artificiais, aperfeiçoamento do estudo genético com modificação sequencial de DNA para combater doenças genéticas, entre vários outros cenários animadores.
QUEM É OSVALDO TRAVASSOS DE MEDEIROS
É Médico oftalmologista e Professor Titular de Oftalmologia da UFPB, além de Membro Emérito da Sociedade Brasileira de Oftalmologia e Titular do Conselho Brasileiro de Oftalmologia.

