Entre acrobacias e códigos secretos: o que os golfinhos-rotadores de Noronha revelam

Com até 2,4 metros de comprimento e 80 quilos, rotadores encantam turistas com seus saltos giratórios no arquipélago, mas também exercem papel importante no ecossistema e enfrentam ameaças com o avanço do turismo

 

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Por Pedro Cunha

 

Fernando de Noronha abriga um dos espetáculos mais fascinantes da vida marinha: o balé aéreo dos golfinhos-rotadores. Com seus saltos acrobáticos e rotações no próprio eixo, esses cetáceos encantam turistas e intrigam cientistas. Por trás dessa dança sincronizada, porém, existe um complexo sistema de comunicação, estratégias sociais e uma importância ecológica que ultrapassa o encantamento visual.

Esses golfinhos são conhecidos justamente pela capacidade de girar sobre o próprio eixo enquanto saltam fora d’água, característica que lhes rendeu o nome popular de “rotadores”. Podem medir até 2,4 metros de comprimento e pesar quase 80 quilos, exibindo uma agilidade impressionante para animais de grande porte.

Estudo recente do Projeto Golfinho Rotador, patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, revela que os movimentos desses animais estão longe de ser apenas brincadeiras aquáticas.

Golfinhos em movimento de comunicação

 

As acrobacias fazem parte de um elaborado sistema de sinais, uma espécie de linguagem não verbal entre os membros do grupo. Saltos horizontais, por exemplo, indicam deslocamento e direção, enquanto os verticais reforçam a coesão do grupo, especialmente durante momentos de alimentação ou reprodução.

Registros

Com mais de 30 anos de observação na Baía dos Golfinhos, a equipe do projeto registrou 8.566 atividades aéreas. A maioria (97,54%) foi realizada por adultos, sendo que os machos são responsáveis por 88% dos saltos, o que mostra uma forte evidência de que lideram o grupo e desempenham papel de proteção, especialmente nos momentos de maior movimentação. Filhotes participam em menor número, mas já demonstram domínio de manobras como as rotações, que representam 67,77% de suas acrobacias.

Outro dado curioso: em 78,26% das vezes em que os golfinhos acompanharam embarcações turísticas, realizaram saltos horizontais, um comportamento que pode indicar resposta direta à movimentação dos barcos. “Eles interagem com o ambiente e respondem a estímulos externos com ações coordenadas. A observação desses padrões é uma das chaves para entender como vivem, se organizam e se adaptam”, explica o oceanógrafo José Martins da Silva Júnior, coordenador do projeto.

Estratégias e rotina social

Algumas manobras parecem ter função prática de defesa e sobrevivência para os golfinhos rotadores

Os pesquisadores identificaram seis momentos comportamentais distintos ao longo do dia na baía: entrada, organização, primeiro turno de descanso, reorganização, segundo turno de descanso e saída. As acrobacias predominam nos períodos de reorganização, quando o grupo realinha posições e funções. Algumas dessas manobras também parecem ter função prática, como a retirada ou realocação das rêmoras, pequenos peixes que se fixam ao corpo dos golfinhos e às vezes causam incômodo.

Em situações de ameaça, como a presença de tubarões, os rotadores adotam a estratégia de porpoising — uma sequência de saltos de alta velocidade para fugir rapidamente da área. Há ainda comportamentos que sugerem observação deliberada do ambiente:Já registramos golfinhos saindo parcialmente da água e olhando diretamente para barcos, com movimentos que parecem ter tanto um alcance panorâmico quanto um ‘close-up’ de curiosidade”, completa o oceanógrafo.

Para além do carisma e das piruetas, os golfinhos-rotadores são peças-chave no equilíbrio ecológico marinho de Noronha. Eles se alimentam de pequenos peixes, camarões e lulas, controlando populações e mantendo o ciclo alimentar. Também servem de presas para tubarões e ajudam a alimentar outras espécies ao descartarem restos de suas presas, especialmente em áreas de recifes.

A presença dos rotadores também tem impacto positivo direto sobre a reprodução das rêmoras, que dependem deles para locomoção e alimentação, e sobre a economia local, por meio do ecoturismo e de atividades sustentáveis de observação marinha.

Turismo e conservação

Apesar de todo esse valor ecológico, os golfinhos-rotadores enfrentam hoje desafios significativos com o avanço do turismo. Em 2024, o arquipélago de Fernando de Noronha bateu recorde de visitação, com 131.503 turistas, segundo o Núcleo de Gestão Integrada (NGI) do ICMBio. O número já se aproxima do limite anual de 132 mil visitantes estipulado pelo Instituto em conjunto com o STF e o Governo de Pernambuco.

O aumento no fluxo de embarcações e de turistas próximos às áreas de descanso e alimentação dos golfinhos pode causar estresse, afetar padrões migratórios e alterar o comportamento natural dos animais. “Projetos de monitoramento e regulamentação são essenciais para garantir que a convivência entre humanos e golfinhos aconteça de forma sustentável, preservando tanto o espetáculo natural quanto o equilíbrio ecológico do arquipélago. Afinal, entender a linguagem desses incríveis animais é o primeiro passo para protegê-los”, destaca José Martins.

Além disso, as ações de educação ambiental desenvolvidas ao longo do ano na ilha têm se mostrado fundamentais para cultivar uma relação de cuidado e pertencimento entre os moradores locais e o ecossistema. O Projeto Golfinho Rotador, por exemplo, realiza programas educativos voltados para crianças, adolescentes e jovens, estimulando uma vivência profunda com a natureza local.

Um dos pilares dessas ações é o programa Férias Ecológicas, que envolve atividades como trilhas interpretativas, oficinas de arte, rodas de conversa, saídas de campo, pintura, leitura e observação de golfinhos e tartarugas. Ao longo de mais de três décadas, mais de 5 mil jovens passaram pelas atividades. Mas mais do que números, o que se percebe é o impacto emocional e formativo que cada experiência proporciona.

Eu nunca tinha participado e eu acho muito legal. A gente aprende sobre os golfinhos e as tartarugas, e porque é importante proteger a ilha. Senão, os golfinhos podem morrer e as tartarugas também”, explica Victória Milena Pereira Paiva, de 6 anos, enquanto coloria um desenho de golfinho durante uma das oficinas.

Para muitos, esse contato com a natureza é também uma oportunidade de desenvolver autonomia e responsabilidade. “É muito legal, porque a gente pode ir para a praia, aprender sobre golfinhos e tubarões. Aqui moram as plantas, as frutas, os animais e as pessoas. Então temos que cuidar da nossa casa”, reforça Alessandro Freire Santiago, também de 6 anos, apontando com simplicidade a complexa teia ecológica que sustenta o arquipélago.

O programa também oferece oportunidades de protagonismo juvenil. A partir dos 14 anos, os jovens podem atuar como monitores, acompanhando as atividades e auxiliando as equipes técnicas. “Cuidar de crianças de 5 a 6 anos é uma experiência enriquecedora. Desenvolvi paciência, criatividade e responsabilidade. Me sinto parte de algo maior, e a equipe do projeto acolhe a gente de verdade”, relata Maria Paula, 16 anos, em sua primeira participação como monitora.

Essas ações acontecem em meio ao desafio de equilibrar o turismo com a conservação. Segundo dados da Administração do Distrito Estadual, a produção de resíduos sólidos aumentou 23% entre 2020 e 2024. O descarte incorreto, especialmente em áreas costeiras, afeta diretamente a fauna marinha e exige medidas de mitigação e educação constantes.

Cynthia Gerling, coordenadora de educação ambiental do Projeto Golfinho Rotador, lembra que essas iniciativas ganham ainda mais importância durante os períodos de alta temporada: “São ações que ajudam a integrar as crianças em um ambiente educativo e seguro. Ao mesmo tempo em que elas se divertem, desenvolvem um olhar mais atento para o que precisa ser preservado.”

A estratégia do projeto é formar multiplicadores. Crianças que aprendem o valor da conservação em campo se tornam porta-vozes dessa causa dentro de casa, influenciando irmãos, pais, vizinhos e amigos. Juliana Silva, mãe de Enzo Silva, de 7 anos, confirma: “Meu pequeno chega todos os dias contando o que aprendeu. Ele nunca tinha esse entusiasmo ao falar da rotina. Isso me toca, porque sei que ele está se transformando e trazendo isso pra dentro da nossa família.”

Em um planeta cada vez mais pressionado pelas ações humanas, Cynthia acredita que exemplos como o de Noronha mostram que a educação ambiental é mais do que uma ferramenta: é um legado. Um investimento que reverbera por gerações e que, ao plantar conhecimento, colhe cuidado. E é isso que mantém viva a esperança de que os golfinhos continuem a saltar e girar nas águas da Baía, não apenas como espetáculo para os olhos, mas como símbolo de um equilíbrio que merece ser protegido.

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Redacao RNE

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