Walter Santos e as perdas da cultura paraibana, por José Octávio Arruda Mello

Artigo publicado na edição 220, Maio 2025, da revista NORDESTE. Leia abaixo ou se preferir acesse direto pelo app da NORDESTE clicando aqui

 

Por José Octávio de Arruda Mello*

 

Ao contrário do pseudo acadêmico que celebrou, pelos jornais, a eleição do inexpressivo João Trindade, para uma das cadeiras da APL, telefonei para Walter Santos a fim de desagravá-lo pelos resultados do pleito de 09 de maio último na mesma Academia Paraibana de Letras. Como é sabido, a maioria pertenceu ao soi-disant cientista político Renato Carneiro.

Para mim, Walter não tem porque lamentar o presumido insucesso daquela consulta. Jornalista de escola e homem público de reconhecidas qualidades, o antigo editor de O Momento não teve contra se os que nele não votaram no segundo turno – o primeiro foi galhardamente vencido por WS – mas uma máquina que transformou o escrutínio da Academia, em solerte competição de política partidária:

De um lado, os seguidores do ex-capitão Jair Bolsonaro que estão procurando controlar a cultura paraibana. E de outro, os que, em sua maioria, refratários à hegemonia do ex-presidente, alinham-se entre os que resistiram à ditadura militar de 64. A partir de antológica manchete do semanário da avenida Princesa Isabel – “Hoje é dia de esquecer 64” – Walter Santos foi sacrificado por conta disso.

Lamentavelmente, a Academia Paraibana de Letras está se transformando em reduto do Bolsonarismo. Bem antes de se internar, o saudoso Carlos Aranha me chamava atenção em conversa na própria APL: “Aqui, poucos como eu e você não afinam com Bolsonaro. A maioria é toda dele”.

Os fatos ofereceram razão a essas colocações. Se a derrota do democrata Francelino Soares, há dois anos, já apontava nessa direção, ex-presidenta da APL não hesitou em, envolta na bandeira nacional, incorporar-se aos que, na porta do Grupamento de Engenharia, pleiteavam o golpe de estado de 08 de janeiro. Outrossim, na eleição de 25 de abril, bolsonarista raiz sugeria, em plena mesa diretora dos trabalhos, a anistia do ex-capitão, cuja censura ao processo eleitoral do país foi publicamente endossada pelo candidato do segundo lugar, a seguir majoritário.

É claro que, como democrata, e por isso mesmo anistiado de 64, pelo Ministério da Justiça, não nego a ninguém o direito de seguir Bolsonaro ou quem quer que seja. Como se disse do fascismo na década de 30, “é uma questão de gosto”. O que não admito é trazer-se o estigma partidário para dentro de instituições estatutariamente proibidas de assim se posicionar.

Dir-se-á que a APL ainda não chegou a esse ponto. É fato, até porque, não bolsonarista, o presidente Ramalho Leite tem-se comportado com isenção e equilíbrio. Ocorre, porém, que, como espécie de Rainha da Inglaterra, Leite tem permitido o crescimento da autoridade da secretária Tania que, de simples funcionária, arvora-se em mentora da instituição. Basta dizer-se que Walter Santos teve a candidatura por ela barrada, sob a alegação de não dispor de livro. Assim, essa inscrição somente se consumou, por interferência do próprio Ramalho.

A questão da autoria de obras pelos postulantes à APL também nos ocorre discutir: Porventura, revista não constitui publicação ajustada às disposições estatutárias da APL?  De mais a mais, tanto quanto o entendemos, o fundamental não reside na publicação de livros, dos quais o poeta Caixa D’água dispunha de quinze! –, mas a militância cultural.

Essa sobra a Walter desde a passagem pela editoria de inúmeros órgãos de imprensa e assessoria do então governador Antônio Mariz. Em O Momento de Leta e Lurdinha Moura, Walter Santos deixou sua marca: Na Paraíba nenhum jornal abriu-se tanto à cultura quanto esse.

Para neutralização dessas evidências, o bolsonarismo propagou que, como jornalista, Walter Santos não era escritor. Trata-se de outra falácia até porque dos dez fundadores da Academia – Matias Freire, Celso Mariz, Horácio de Almeida, Veiga Junior, Durval Albuquerque, Hortêncio Ribeiro, Luiz Pinto, Álvaro de Carvalho, Rocha Barreto e Coriolano de Medeiros – apenas Freire, Horácio e Álvaro não eram jornalistas de profissão.

Desta maneira, o jornalismo constitui antecâmara da literatura: Foram poucos os escritores que não principiaram pelo periodismo. Alguns ainda hoje nele se fixam.

Walter Santos:ex-presidente da API por dois anos mandatos, fundador do 1º site de webjornalismo do Nordeste, criador e mantenedor da Revista NORDESTE tem participado de missões internacionais

A rejeição da candidatura Walter Santos pela APL constituiu equívoco felizmente não partilhado pelos que, verdadeiros jornalistas, se opuseram à ditadura de 1964 – Abelardo Jurema Filho, José Octávio, Roberto Cavalcanti, Ruy Leitão, Ramalho Leite.

A Academia Paraibana de Letras tem cometido deslizes, como na preterição de intérprete da realidade brasileira como Marcos Formiga, por simples compilador de regras gramaticais. Nesse caso, tal e qual ocorrido com Walter Santos, não foi só a APL quem perdeu, mas a cultura paraibana, privando-se desses valores.

Em tempo: o histórico real e contemporâneo de Walter Santos, ex-editor de todos os principais jornais da Paraíba, duas vezes presidente da API – Associação Paraibana de Imprensa tem registro especial por ter sido lançado por Carlos Aranha – o acadêmico da Cadeira em disputa – logo o WS sempre produzindo gestão marcante em favor das letras e das artes.

Ele conduz consigo o pioneirismo e vanguarda de ter implantado o primeiro website do jornalismo no Nordeste a partir da Paraíba com o WSCOM e sua ousadia de lançar e manter há 19 anos a Revista NORDESTE circulando nacionalmente fazendo a leitura do Brasil e do Mundo pela ótica e defesa dos 9 estados são feitos intelectuais relevantes a merecer reconhecimento, além de grande contribuição dado às letras e artes nordestinas, portanto, tudo isso lhe inserem na lista dos grandes contribuidores da nossa Cultura.

A Revista com alto padrão editorial tem despertado mercados internacionais levando-o a debates no Fórum das Américas, em NY, a Portugal onde a publicação dispõe de duas colunas fixas há mais de 5 anos e, ano passado, em novembro, foi com a Folha de São Paulo os dois únicos veículos de comunicação convidados para 6ª Cúpula Global de Mídia na China.

 

 

 

*José Octávio de Arruda Mello é Historiador de ofício, com doutorado pela USP e pós-doutorado pelo IEB/USP. Professor aposentado das UFPB, UNIPÊ e UEPB, como integrante dos IHGP, APL, API e Centro Internacional Celso Furtado; Autor de Nova História da Paraíba – Das Origens aos Tempos Atuais e Faculdade de Direito PB63 – A Última Turma do Populismo, ambos de 2019.
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Redacao RNE

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