Artista plástica da Paraíba lança exposição na Europa e atrai crítica positiva pela essência de sua obra primitiva de muita interferência humana
Por Walter Santos
Novidade com repercussão internacional nas artes plásticas produzidas a partir do Nordeste brasileiro, da Paraíba em particular. É que a renomada artista Marlene Almeida apresenta sua última fase de produção artística em Londres e Bruxelas. Eis a entrevista exclusiva, a seguir, para a Revista NORDESTE.

Revista NORDESTE – Como tipificar / conceituar essa exposição em Londres nesta atual fase da conjuntura global bem distante de sua terra natal?
MARLENE ALMEIDA – Esta é uma expedição diferente. Não saí para minhas terras pesquisando roteiros familiares em busca de cores. Não trouxe cadernetas de campo, saquinhos e etiquetas. Mas, onde vou carrego o Nordeste comigo. Nesta viagem ao velho mundo, devo apresentar um conjunto de obras inéditas em duas exposições individuais: ” Acute Earth/ Terra Aguda”, na galeria CARLOS/ISHIKAWA, em Londres, na Inglaterra; e “Terre Agonique/Terra Agônica”, na Walter & Nicole Leblanc Foundation, em Bruxelas, na Bélgica.
NORDESTE – Como definir a base inspiradora e conceitual desta exposição?
MARLENE ALMEIDA – Com abertura no dia 22/05, “Terra Aguda” tem seu nome inspirado na Serra Aguda, um inselberg, localizado no Seridó paraibano. Esta serra é aguda na forma e na matéria, ergue-se no meio de um terreno plano, na região semiárida e veste-se com uma capa de pedras,completamente seca, misturando tristeza e beleza. A terra do local e as possibilidades poéticas que a paisagem evoca constituíram o mote inicial para a criação das obras que formam as duas mostras.
O olhar para o mundo
NORDESTE – Além de artista plástica sensível, ao que parece sua obra tem relação com a percepção das coisas do mundo. É isto o que acontece?
MARLENE ALMEIDA – Numa época em que convivemos com os efeitos dos eventos extremos, sejam decorrentes de áreas devastadas por ações predatórias, ocupações irregulares de partes do solo, ou por queimadas, como artista e como ecologista, penso não somente na serra, mas numa terra ardente, em agonia.
NORDESTE – O que distinguir na exposição com valor diferenciado?
MARLENE ALMEIDA – Entre o conjunto de obras da exposição, já montada na galeria londrina, duas grandes instalações ocupam os espaços centrais sob a bela iluminação das salas que é reforçada pela luz natural propiciada por duas claraboias que se abrem para o céu.

A instalação que chamo Colúvio, é composta por faixas de tecido pintadas com cores que vão do vermelho da hematita aos tons escuros da pirolusita, com pigmentos produzidos com terras de municípios nordestinos. As faixas que remetem aos caminhos trilhados, sejam os novos ou os rastros ancestrais, terminam acolhendo rochas de laterita que por vezes tensionam o tecido, e noutras, descansam suavemente.
NORDESTE – De onde se origina, por exemplo, a matéria prima na exposição?
MARLENE ALMEIDA – A laterita, que aparece ao natural na instalação, é também matéria prima de algumas tintas de Colúvio e é um material que foi muito utilizado em estradas de barro, ou estradas não pavimentadas. Mais uma ligação do material com a poética.
A obra
NORDESTE – O que mais identificar como elemento diferenciado no conjunto da sua obra?
MARLENE ALMEIDA – A outra instalação tem o nome da exposição, Terra Aguda, e a paleta escolhida passeia entre tons de cinza, desde o branco acinzentado à cor profunda da turmalina negra. As formas pontiagudas de quarenta objetos que pendem do teto, são de tecido de algodão cru, pintadas com os pigmentos minerais das regiões do Cariri e Seridó, e preenchidas com terras variadas. Além das duas instalações, pinturas e objetos compõem o conjunto da exposição que permanecerá de 22 de maio a 19 de julho aberta ao público, na Galeria Carlos/Ishikawa.
NORDESTE – Como interpretar aspectos distintos da exposição com base em elementos inovadores?
MARLENE ALMEIDA – As tensões da Terra Aguda são continuadas nas obras da exposição que lhe segue, “Terre Agonique/Terra Agônica”, com preview no dia 26/05, e abertura no dia 26/5, na Walter & Nicole Leblanc Foundation, em Bruxelas,Bélgica, com curadoria de Maria Ines Rodriguez. Com as cores das terras de municípios das regiões nordestinas as pinturas, esculturas e instalações são atravessadas pelas fronteiras invisíveis entre o Seridó e o Cariri. A exposição de Bruxelas apresenta também uma espécie de resumo da minha pesquisa de pigmentos naturais, com mostruário de cores, mapas de viagens, amostras brutas, pigmentos e materiais organizados em vitrines.
Projeto
NORDESTE – Como surgiu a iniciativa para esta sua nova fase com natureza internacional?
MARLENE ALMEIDA – O projeto das exposições internacionais conta com o apoio das galerias brasileiras Marco Zero, de Pernambuco, Almeida e Dale, de São Paulo e da galeria Carlos/Ishikawa que agora passa a me representar na Inglaterra. Destaco ainda o apoio da Fundação Nicole e Walter Leblac, de Bruxelas. Ainda neste ano tenho o compromisso de participar de algumas feiras de arte internacionais e no Brasil, de uma coletiva na nova galeria Claraboia.

NORDESTE – Que sentimento você absorve como fundamental no encantamento?
MARLENE ALMEIDA -Estou muito feliz em apresentar nessas exposições(acompanhada da minha amorosa e fiel equipe, Antonio Augusto e José Rufino) as cores do Brasil, especialmente do Nordeste, para outros países. A terra, seja a mais próxima ou a que chamo de terra profunda, continua minha parceira na Arte e minha grande paixão de vida.

