No dia em que se inicia o CONCLAVE, nesta quarta-feira 7 de maio de 2025, a NORDESTE publica matéria sobre o legado de Papa Francisco, publicada na edição 219. Vamos ler? Abaixo na íntegra ou se preferir acesse pela edição online no app clicando aqui
“Um papa que servia antes de ser servido. Construtor de pontes entre o Evangelho e as dores do mundo. Ensinou-nos que a centralidade da Igreja está nos pobres”, enfatizou em declaração o bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da Conferência Nacional do Bispos do Brasil (CNBB), dom Ricardo Hoepers
Por Luciana Leão

A morte de Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, ocorrida em 21 de abril de 2025, aos 88 anos, encerra um pontificado de 12 anos marcado por renovação, humildade e forte compromisso com os pobres e a paz mundial.
Francisco conduziu a Igreja Católica com compaixão, firmeza e espírito missionário. Foi o primeiro papa latino-americano e o primeiro jesuíta a assumir o cargo. Com gestos simbólicos e ações concretas, buscou reaproximar a Igreja dos mais vulneráveis, colocando os pobres no centro de sua missão.

“Um papa que servia antes de ser servido. Construtor de pontes entre o Evangelho e as dores do mundo. Ensinou-nos que a centralidade da Igreja está nos pobres”, declarou Dom Ricardo Hoepers, bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em declaração após o anúncio da morte de Francisco.
Para Dom Ricardo, Francisco foi um “servo bom e fiel” e “pastor humilde e corajoso”, que conduziu a Igreja com sabedoria evangélica, espírito missionário e compaixão. Ele ressaltou o impacto do primeiro gesto de Francisco, ao pedir a oração do povo antes de abençoá-lo, ainda na sacada da Basílica de São Pedro, em 2013.
Transformação pela sinodalidade

Segundo a CNBB, Francisco transformou a forma de governar e de viver a fé ao fortalecer a sinodalidade – modelo de escuta e participação dentro da Igreja.
Na sua primeira viagem apostólica, ao Brasil, durante a Jornada Mundial da Juventude de 2013, já indicava o caminho de uma Igreja “em saída”, próxima das periferias e dos mais vulneráveis.
“Com o seu magistério, Francisco reavivou o frescor do Concílio Vaticano II. Nos gestos – lavando os pés de presos, acolhendo migrantes, abraçando doentes – o mundo viu a face do Bom Pastor”, afirmou Dom Ricardo. Ele também destacou a angústia do papa diante dos conflitos armados, que Francisco classificou como “uma terceira guerra mundial em pedaços”.
Conheça as encíclicas de Papa Francisco

1. Lumen Fidei (2013)
“A Luz da Fé” foi uma encíclica iniciada por Bento XVI e finalizada por Francisco, ressaltando a importância da fé como guia para a vida cristã. Nela, Francisco sublinha que a fé não é apenas um sentimento, mas um compromisso concreto que transforma a vida do crente e o impele ao testemunho e à caridade.
2. Laudato Si’ (2015)
“Louvado Seja” trouxe uma visão inovadora sobre a ecologia integral, destacando a responsabilidade dos seres humanos na preservação do meio ambiente. Nesta encíclica, Francisco faz uma forte crítica ao consumismo desenfreado e à degradação ambiental, chamando a humanidade a uma conversão ecológica. O Papa denuncia o impacto das mudanças climáticas sobre os mais pobres e incentiva governos e indivíduos a adotarem práticas sustentáveis e justas.
3. Fratelli Tutti (2020)
“Todos Irmãos” enfatizou a fraternidade e a amizade social, promovendo o diálogo e a paz entre os povos. Inspirado no espírito de São Francisco de Assis, o Papa propõe um mundo onde as barreiras da indiferença sejam derrubadas, a solidariedade prevaleça e a política seja guiada pelo bem comum, não por interesses pessoais ou econômicos. A encíclica também condena o racismo, o populismo exacerbado e o individualismo que fragmenta as sociedades.
4. Dilexit Nos (2024)
“Ele nos amou” destacou a centralidade do Coração de Jesus como fonte de amor e missão para a Igreja e o mundo. Francisco convida os fiéis a redescobrirem a ternura da fé e o fervor missionário, enfatizando que o amor divino deve se traduzir em ações concretas de compaixão e justiça social. A encíclica reforça o papel da Igreja como uma instituição que acolhe, escuta e serve.
Contribuições para a Reforma da Igreja Católica
Reforma da Cúria Romana
Tornou a estrutura administrativa do Vaticano mais eficiente e acessível, promovendo uma descentralização e incentivando uma maior participação das conferências episcopais na tomada de decisões.
Transparência financeira
Implementou medidas rigorosas para combater a corrupção no Vaticano, reformando o Banco do Vaticano e estabelecendo novos mecanismos de controle financeiro. Essas ações fortalecem a credibilidade da Igreja diante da sociedade.
Foco na evangelização
Criou um dicastério dedicado à evangelização, reforçando a missão central da Igreja de levar o Evangelho ao mundo. Com isso, impulsionou a atuação missionária e enfatizou a necessidade de uma Igreja que sai ao encontro das periferias existenciais.
Inclusão de mulheres em cargos de liderança
Nomeou mulheres para posições de alta relevância dentro da Cúria, como o caso da irmã Simona Brambilla, tornando-se a primeira mulher a liderar um organismo vaticano de grande importância.
Atualizações no Direito Canônico
Realizou modificações no Código de Direito Canônico para tornar a disciplina da Igreja mais justa e coerente com os desafios contemporâneos. Suas reformas buscaram equilibrar a tradição com a necessidade de respostas mais pastorais e humanas.
Simplificação dos rituais funerários papais
Em 2024, Francisco aprovou um novo protocolo para os funerais papais, eliminando elementos considerados excessivamente pomposos, como o uso de três caixões. Sua intenção era reforçar a ideia de uma Igreja despojada, focada na essência da fé e não em formalismos.
O legado e a esperança de continuidade
Em sua última mensagem aos católicos, lida por um assessor no Domingo de Páscoa, papa Francisco reiterou suas críticas a posições contrárias a imigrantes e pediu que líderes políticos “quebrem barreiras que criam divisões”
Para o arcebispo da Paraíba, Dom Manoel Delson, o legado de Francisco está na simplicidade e na coerência com o exemplo de São Francisco de Assis, seu inspirador.
“Procurou estar mais próximo dos pobres diante da realidade desafiadora dos mais sofredores. Esse legado com certeza vai permanecer na Igreja, inspirando novas ações e, quem sabe, o próximo pontificado”, disse.
Dom Delson afirmou que espera a continuidade dos princípios que marcaram o pontificado de Francisco.
“Pedimos a Deus que o próximo papa siga as pegadas do Papa Francisco. Ele deixa uma marca de alegria, serenidade e compromisso com a renovação da Igreja”, afirmou.
A mais longa eleição desde 1846

Após os ritos do funeral e os nove dias de luto oficial, o Vaticano se prepara para o Conclave. Os 135 cardeais com menos de 80 anos se reúnem na Capela Sistina, após dias de oração e encontros na Casa Santa Marta — a mesma residência simples que Francisco escolheu para viver, recusando o apartamento papal tradicional.
O processo pode levar tempo. A sucessão de Francisco deverá se tornar o Conclave mais longo desde 1846, devido à complexidade de se encontrar um nome capaz de equilibrar tradição e renovação, em uma Igreja cada vez mais global, desafiada por tensões internas e externas.
O mundo católico aguarda a fumaça branca da chaminé da Capela Sistina que sinaliza um novo líder para os mais de 1,3 bilhão de católicos no mundo, com orações e esperança, a escolha de um novo pastor — que herda não apenas o trono de Pedro, mas também os desafios e as inspirações deixadas por Francisco: um papa do povo, da paz e da misericórdia.




