A escrita como estrada: a vida em livros de Geórgia Alves

Escritora fala da escrita como cura, das mulheres que a inspiram e de suas raízes. Em destaque, a biografia da educadora Elizabete Pedrosa

 

Entrevista exclusiva publicada na edição 219 da revista NORDESTE. Leia abaixo ou se preferir acesse pelo APP clicando aqui.

 

Por Luciana Leão

 

Com cinco livros publicados e novos projetos em andamento, a pernambucana Geórgia Alves vive um momento de expansão criativa. Entre romances, novelas e biografias, constrói uma obra marcada pelo sentimento, pela busca de sentido e pelo olhar atento sobre a vida das mulheres. Em entrevista exclusiva à NORDESTE ela nos conta sua trajetória de descobertas e de sucesso.

 

 

REVISTA NORDESTE: O início, suas motivações. Quando começou?

 

GEÓRGIA ALVES: Impossível falar da minha trajetória sem mencionar a presença da literatura desde a infância. Sempre fui muito tomada por ela. Na adolescência, eu já contava histórias — as que ouvia dos meus avós, do meu bisavô, do meu avô Modesto — e criava as minhas. Lembro bem de uma cena no jardim da casa da Vila Jacaúna, na Iputinga, no Recife, com crianças sentadas em semicírculo, esperando que eu terminasse a história do homem que ressuscitou mil vezes ou da maçã peluda.

O ato de escrever começou nos diários. Depois de ler o de Anne Frank, escrevia com seriedade sobre vida ou morte. Minhas amigas trocavam cartas comigo, refletíamos sobre o que viria depois. Tenho até hoje um caderno com a foto de uma mulher esvoaçante na capa — símbolo de nossos 15 anos, dessa transição que nos marcava. No início dos anos 1990, decidi abandonar o curso de Direito e seguir o Jornalismo, mesmo com minha família tocando um negócio consolidado.

Decidi ser repórter full time e mudar de cidade. A literatura como sacerdócio viria depois, formalmente, com contos publicados em Pernambuco e Portugal — Abril solar; atire, estado de sítio, liberdade; alguém me ensine a não amar Bob Dylan… até surgir o primeiro blog que virou marco: Dacordafelicidade.

Esse blog marca o início da escrita como ofício e sustento. A publicação do meu primeiro livro, Reflexo dos Górgias (2012), aconteceu durante a especialização em Literatura Brasileira, e coincidiu com o pré e o pós-mestrado. Foi um período de trabalho intenso, de leitura e diálogo com autores e autoras — principalmente mulheres — que escrevem com uma força que assombra muitos escritores homens (risos).Hoje, colaboro regularmente com editores de espaços como Espaço da Cultura e Mundo Desejante, no Facebook, e por anos com o Tesão Literário.

 

Literatura que atravessa fronteiras

 

NORDESTE: Sua trajetória se expandiu pelo Brasil. Como vê esse crescimento?

GEÓRGIA ALVES: No começo, enviei textos para jornais literários do Ceará, de Porto Alegre. Havia concursos em Pernambuco, mas achava que meu passado na TV poderia pesar. Pernambuco — como disse um biógrafo americano — é para fortes. Uma igreja para cada cultura, todas com críticas contundentes. Mas, para minha surpresa, houve abertura em 2012, com o lançamento dos primeiros 500 exemplares de Reflexo dos Górgias.

A recepção foi extraordinária — de professores do sertão ao público de Paris. No dia seguinte ao lançamento, os livros acabaram nas livrarias. Amigos no Canadá, nos EUA, cobraram: “Geo, tem que fazer chegar o livro!”. Uma delas, Luciana, amiga de adolescência, me escreveu depois de ver uma matéria no jornal. Reencontramo-nos agora no lançamento de A cidade invisível. Um sinal dos tempos. Um bom sinal. Esse impulso também me desafiou: queria ser lida e respeitada fora de Pernambuco. O curta “O Triunfo”, que roteirizei, foi um divisor de águas em minha trajetória literária. Com ele, e com textos críticos, fui percebida por leitores e editoras do Rio, São Paulo e Curitiba. Fora do eixo local. Sim, o peso aqui é um — e fora daqui, é outro.

 

A saudade como matéria-prima

 

NORDESTE: Como a saudade influencia sua escrita e quais memórias alimentam sua criação?

GEÓRGIA ALVES: A saudade é difícil de traduzir. Vivo dilacerada por ela — da cidade natal, das pessoas queridas, dos alunos com quem aprendi tanto. A literatura me exige muito. Ela me toma por inteira e, para isso, abdico, muitas vezes, da convivência com a família, com os filhos, amigas e a estabilidade de um lar. Mas é também desse lugar de saudade que nasce a criação. O afeto move meus livros.

O amor e suas formas sempre estiveram nas minhas narrativas. Em A qualquer hora da noite enquanto piso em Pedras Ternas, o amor de Cora e Jaú é um exemplo. São cinco livros já publicados. Isso é uma vida inteira em trabalho e escrita. Costumo escrever nas madrugadas, durante as viagens — enquanto o ônibus sacoleja.

É trabalho braçal, cotidiano, comprometido. Nunca abandonei a literatura, nem quando a vida apertou. Levanto cedo, viajo, cumpro o que precisa ser feito e sigo com minhas personagens, com os capítulos. Essa literatura andou muito. Chegou ao Rio Grande do Norte no escuro da noite, com um motorista que parecia Machado de Assis em gestos e silêncio. Fui acolhida no Paraná, em plena pandemia. Hoje, cativo leitores em Minas Gerais. Tudo na força do trabalho, na luta diária, entre ferro e fogo.

 

O ano das publicações

 

NORDESTE: Você publicou dois livros no mesmo ano, algo novo em sua trajetória. O que mudou?

GEÓRGIA ALVES: Durante a pandemia, entreguei a caixa-preta à editora Viseu, no Paraná. Nele, Évora enfrenta seus múltiplos. Viver várias vidas não é simples, mas é o que faço. Me multiplico. Às vezes, essa fusão acontece e é linda. Na vida real, é duro. Dói não viver com quem se ama. Se houvesse outra escolha, eu teria feito. Sou mole por dentro.

Talvez haja em mim uma Selena — a de múltiplas formas — que chora uma cidade inteira, basta um toque. É um êxtase de dor. Mas também tenho trabalhado como nunca. E isso mantém o fio aceso. É um casamento, e nesse caso, celebrando bodas com a literatura que escolhi e que me escolheu.

 

Elizabete Pedrosa: a vida de uma educadora no sertão

 

NORDESTE: Neste momento, você está trabalhando na biografia de uma professora paraibana com uma trajetória marcante. O que mais te atraiu na história de Elizabete Pedrosa e como está sendo o desafio de contar a vida de alguém tão influente?

GEÓRGIA ALVES: A simplicidade. Acredite. Elizabete Pedrosa tem nome de rainha. Nasceu no sertão da Paraíba, nesse Nordeste de coronéis, padres, bispos, disputas políticas e santos da Igreja Católica. E é simplesmente uma pessoa — tudo o que um ser humano pode ser de melhor. A gente especula sobre o bem e o mal, e mais de 30 anos de literatura alemã sobre o estilo biedermeier, com todo o seu conservadorismo, ainda não trouxeram respostas suficientes sobre o que realmente é bom para as pessoas. Elizabete escolheu educar os filhos do mundo: em viagens, intercâmbios, partilhas. Isso se tornou sua vida — e também a de muitas outras pessoas. Sofreu preconceitos, enfrentou disputas desleais, como tantas mulheres de sua geração. Conheceu as barreiras impostas ao gênero, mas deu um jeito de manter o foco.

Num mundo de redes sociais, ela permanece sendo uma figura essencial na história de Serra Redonda e de Campina Grande. Aos 13 anos, chegou a Campina trazida pelo pai com os irmãos — eram 13 filhos — em cima de um caminhão. Depois, mudou-se para Recife, por causa do trabalho do marido.

“A vida coube num fusca”, ela diz. Trabalhou em três escolas ao mesmo tempo para garantir aos filhos a continuidade dos valores herdados. Tinha um “Tio Padre”, figura politicamente influente na Paraíba, e essa presença familiar repercutiu em sua própria trajetória. Professora admirada, recebeu centenas de mensagens de ex-alunos que se tornaram pessoas de influência positiva e nunca esqueceram sua firmeza e apoio em sala de aula.

 

A arte como campo de experimentos

 

 

NORDESTE: Você fala da arte como uma busca por sentido e sentimento. Como essa visão se traduz no seu trabalho e de que forma a arte tem desafiado seus próprios limites?

GEÓRGIA ALVES: Ah, a arte. A arte exige de nós experimentos diários. Quem se propõe a isso está sempre tentando ir além do que entende, buscando tocar o que ainda não tem nome. Não é ciência, não é apenas vida. Talvez seja como Deus — natureza — de outro modo. É um esforço para dar sentido às coisas, para mostrar o mundo por outra chave: a do afeto, do sentir.

O verbo que guia o escritor é expor o sentimento. Mostrar o humano por dentro, despertar no outro um jeito novo de agir. Na prática, é árduo. É o equilíbrio entre forças para atingir um lugar inexplicável: fazer sentir até que faça sentido. O sucesso da pré-venda de A Cidade Invisível me anima. Torço para que Um Grito Azul e o convite para um novo projeto em Minas mostrem uma nova fase na minha carreira.

 

NORDESTE: O que esses momentos representam para você e quais os desafios de viver essa expansão literária?

 

“Como a vida, a escrita não se repete. E ninguém é o mesmo. Vivo intensamente como se fosse a última vez”

GEÓRGIA ALVES: Tenho publicado em média um livro a cada dois anos. Sigo o conselho do editor: “Tenha sempre sete na gaveta”. Cumpro à risca. Quando o horizonte pareceu se estreitar, eu já era um monstro com sete janelas abertas. Agora, colho os frutos. É loucura lançar dois livros no mesmo ano? O leitor é quem decide. O que posso garantir é que são livros sem pareia — diferentes entre si. É só por isso que continuo publicando.

Não repetiria um experimento literário. Como a vida, a escrita não se repete. E ninguém é o mesmo. Vivo intensamente como se fosse a última vez. Sou dramática, mas evito exageros para não perder o fio. Tenho coragem de me arriscar. Incluir a arte na rotina exige escolhas duras. Mas chega uma hora em que não dá mais para esconder: a vida muda, o endereço muda, a escrita muda. E o projeto literário também.

 

Livros publicados e novos projetos

 

NORDESTE: Fale um pouco sobre seus cinco livros publicados.

GEÓRGIA ALVES: Reflexo dos Górgias é uma novela. Em breve terá companhia nesse gênero. Foca em Górgia, mulher incompleta — até o nome parece incompleto. Se os pais pensaram no filósofo Górgias, faltou o “s”. Ela busca a própria verdade, como no pós-discurso: a palavra como construção do pensamento. É uma narrativa densa, com fluxo de consciência. Uma fase em que me senti próxima de Virginia Woolf e Clarice Lispector. Fui pelo meu próprio caminho. A crítica reagiu melhor do que eu esperava.

Filosofia da Sede — É um experimento bem diferente. Um romance quebrado, por assim dizer. Pilar, uma mulher sul-americana, viaja de Córdoba a São Luís do Maranhão numa bicicleta. Ao seu redor, três homens — Athos, Mercúrio e Sade — representam forças que alimentam sua psique. A Sociedade de Psicanálise do Recife fez um lançamento afetuoso, mas o livro circulou pouco. Está disponível por uma editora portuguesa, vendido por 35 euros.

A Caixa-Preta — É um romance, sem dúvida. Nasceu do diálogo em sala de aula. Évora, a protagonista, tem múltiplas facetas. Lê Dostoievski na parada de ônibus. Cria os filhos com liberdade. Seu pensamento sobe como os cabelos — para o alto. Uma mulher de coragem, com uma professora russa no passado. É uma saga individual. Uma “invídua”, como prefiro dizer.

A qualquer hora da noite enquanto piso em Pedras Ternas —Lançado na Bienal de Pernambuco. Começa com alfenins no mármore e ossos na praia. Sobre o amor na rotina.

A Cidade Invisível — É uma homenagem à minha geração, que acampou nas ruas por um pôr do sol. Selena é a protagonista — uma força da natureza. Escrevi pensando nos meus filhos, nos alunos. Para o jovem leitor. Para descomprimir minha literatura.

 

NORDESTE: E sobre Um Grito Azul?

Novo livro “Um Grito Azul” é quase um romance policial, mas com linguagem literária. Foto: Arquivo pessoal

GEÓRGIA ALVES: Um Grito Azul guarda um mistério. É quase um romance policial, mas com linguagem literária. Se passa na vila de Cabula. Alguém envenenou o único poço artesiano. E, se os responsáveis não forem descobertos, ele será implodido.

Aproveito para divulgar: a pré-venda está no site www.editoraminimalismos.com. Um livro curto, como um café expresso. A realidade é multifacetada e nos obriga a agir. Eu e os editores — que detêm boa parte dos direitos — aguardamos também a chegada de Um Gole de Leite Cambraia, pela mineira Editora Caravana. O nome já sugere estrada. E é isso: seguimos.

 

Escrever é atender ao chamado

“Escrever é atender ao chamado das personagens, das tramas. Isso pode migrar para roteiro, filme – e migra. A obra escolhe seu campo de batalha, suas ferramentas”

 

NORDESTE: Você também tem experiência com moda, publicidade e cinema. Como esses universos se conectam com a escritora Geórgia Alves?

GEÓRGIA ALVES: Tomam tempo, claro. Mas sigo no exercício diário da escrita. Leio muito. E, depois de muito estudar, a gente não desaprende. Escrever é atender ao chamado das personagens, das tramas. Isso pode migrar para roteiro, filme — e migra.

A obra escolhe seu campo de batalha, suas ferramentas. Então, cedo: levanto o corpo cansado e vou criar. Filmando, escrevendo, com o que tiver. Lápis, papel, câmera de celular. Tecidos! Durante seis anos também me desafiei a pintar.

Ainda bem que o espírito parou com isso (risos). Era de deixar vexada? Ou não. Sei que só sei que nada sei. Mas quando a gente se dedica como um bicho, tanta coisa é possível no campo das habilidades. Acho que é isso: a busca pela verdade. E a verdade é que… nunca tenho certeza de nada.

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Luciana Leão

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