Artigo publicado na edição 219, da revista NORDESTE, por ocasião dos 65 anos de Brasília, completados em Abril. Leia abaixo ou acesse pelo APP da NORDESTE clicando aqui
Por Marcos Formiga*

O ano de 1965 representa o ano seguinte da interrupção do frágil processo democrático brasileiro, iniciado após a queda da ditadura getuliana em 1945. A jovem democracia não ultrapassou sua adolescência. Sucumbiu aos 18 anos como resultado de tentativas de golpes e contragolpes em conspirações durante a década de 1950.
Aquele ano de 1965 era referenciado desde 1960, quando prestes a encerrar, o dinâmico mandato de Juscelino Kubitscheck; antecedido da construção e inauguração festiva de Brasília como nova capital federal. Pelo sucesso e aprovação do seu governo esperava- se seu retorno na eleição seguinte em 1965, pois ainda não havia a famigerada reeleição.
O slogan “cinquenta anos em cinco” animava a maioria dos brasileiros a replicar a experiência, sintetizada na sigla com as iniciais de seu nome: JK65.
O golpe militar de 1964, finalmente, como pesadelo se efetivou. Juscelino, então senador pelo Estado de Goiás, teve seu mandato e suspenso seus direitos políticos, em junho do mesmo ano, pelo então presidente- general em quem votou na caricata eleição indireta. Prática que perduraria nos 21 anos seguintes.
Neste ano de 2025, Brasília completou 65 anos, “aos trancos e barrancos” de uma metrópole em crise, pelo planejamento urbano em declínio e pelas desigualdades sócio- econômicas que precavessem e se aprofundam. Pouco a comemorar em sua experiência de terceira capital federal do Brasil, sucedeu a Salvador (1549 a 1763) e ao Rio de Janeiro (1763 a 1960).
JK (1902- 1976) como candidato à presidência em 1955, assumiu o compromisso constitucional em Jatai, ao desafio público do cidadão goiano Antônio Soares Neto – Toniquinho (1927- 2021). Se eleito, efetivaria a transferência da Capital para o Planalto Central, prevista desde o século 19. Motivada pelo argumento de segurança, quando as ameaças externas prevaleciam por ataques marítimos. Outra razão, a ocupação humana do Centro do Pais, ainda pouquíssimo habitado.
Brasília, sua grande contribuição, representa a entrada definitiva do Brasil na era moderna. O movimento artístico inicial da primeira metade do século 20, somente com o monumental empreendimento atinge seu ápice.
A determinação de um gestor público eficiente e comprovado tino empreendedor foram capazes de enfrentar imensa oposição, ora de economistas monetaristas que criticavam o perfil keynesiano de JK, em suas exitosas gestões como prefeito de BH e governador de Minas.
Ademais, contava com a antipatia de parte da imprensa, em especial, da mídia carioca que não perdoaria a futura perda da capital federal.
A então acanhada civilização brasileira se restringia a estreita faixa litorânea que abrigava mais de dois terços da população. Repetia- se na quarto século, a tendência dos exploradores europeus de um processo incompleto de conhecimento e presença no vasto território. Mantinha- se o abandono do imenso interior, sobretudo das suas duas maiores macrorregiões: A Amazônia e o Centro- Oeste. O trabalho pioneiro do exemplar Marechal Rondon exigia continuidade de visionário como Juscelino.
A Concepção urbanística
A partir da concepção urbanística e arquitetônica de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, o plano toma forma. Em tempo recorde, durante o quinquênio do mandato presidencial de JK, Brasília de verbo se fez carne; a promessa se realiza!
Além de sua plástica modernista, Brasília emana futuro para todo o Brasil, e surpreende o Mundo. Afirmação de um Pais, ainda subdesenvolvido sim, mas determinado a encontrar seu protagonismo.
Senão, vejamos algumas mudanças lideradas por Brasília, como nova capital do País:
> Meta Síntese do bem executado Plano de Metas de JK.
>Fortalecimento da industrialização iniciada por Vargas na década de 1930. Instalação da indústria automobilística e de motores. Opção (comprovadamente equivocada) pelo rodoviarismo com grandes investimentos em estradas para integração nacional de um pais-continente. Ainda hoje, custa caro a todos os brasileiros o desprezo dos modais ferroviário, marítimo e fluvial
>Inversão dos movimentos migratórios nacionais. Antes, dominados pelo sentido Norte- Nordeste- Centro Sul, sobretudo de nordestinos em direção a S Paulo- capital.
> Brasília com seu canteiro de obra oferece pleno- emprego e salários altos, em média 10 salários mínimos para operários da construção civil, mesmo iletrados.
>Nova fronteira agrícola.
> O cerrado então improdutivo desponta como nova opção e motiva levas de sulistas a inverter o fluxo, deixando suas pequenas propriedades e produção familiar pela aquisição e fixação em ampla propriedades que irão com pesquisas da Embrapa a mais do que duplicar a área agrícola brasileira. De onde se firmara em breve o agro- negócio.
Explosão demográfica

A nova capital planejada previu uma dimensão populacional limitada da cidade grega ideal. Para Brasília estimada em 500 mil habitantes. Complementada por uma constelação de cidades médias denominadas cidades satélites. Tal qual solução posta em prática em Londres, na década de 1950, para evitar um crescimento desordenado da então maior cidade do mundo.
O Entorno de Brasília vem crescendo de maneira desordenada. São quase 40 aglomerações urbanas que se projetam pelos territórios dos estados de Goiás e Minas Gerais. Ultrapassando o Quadrilátero de Cruls (definido em 14.400 km2 em l892). Brasília-DF e seu entorno em seus 65 anos concentram 4, 2 milhões de pessoas. Ou seja, é a terceira maior concentração urbana do Brasil, depois de S Paulo e Rio de Janeiro.
Desafios do crescimento em tempos atuais

Brasília-DF deveria pensar, seriamente, não em proibir seu crescimento, mas delimitar algumas medidas de contenção a sua explosão demográfica. Algo como ” lotação esgotada”.
Com nítidos sinais de favelização e sub-habitações. Abriga, a favela Sol Nascente, já considerada a maior do Brasil.
Dois mega projetos fora do Brasil
O sonho de uma nova capital ou cidade futurista continua a seduzir governantes mundiais. No momento, dois grandes países estão empenhados na construção de mega cidades como símbolos de afirmação, de capacidade realizadora e antecipação do futuro. São eles: o Reino da Arábia Saudita (maiores reservas e produção de petróleo mundiais) e a República da China (já primeira nação em poder de compra, e prestes a superar os USA como maior economia mundial).
Neom – Megametrópole no deserto arábico. Algo de ficção científica objetiva se tornar líder em inovação e em estilo de vida com base em Inteligência Artificial. Neom será uma das cidades – sede da Copa do Mundo de Futebol de 2034. E projeta uma população de nove milhões de habitantes em 2045.
Chongqing – A partir de uma cidade milenar foi acoplado um projeto futurista de mega cidade. Será a maior cidade não litorânea chinesa com 20 milhões de habitantes, situada a mil e setecentos quilômetros ao sul de Pequim.
Uma das atrações é seu monotrilho que perpassa um edifício de 19 andares, entre o quinto e o sexto pavimentos, e no interior da edifício sua estação de Liziba, construção com total controle acústico para não incomodar seus residentes.
Cidade ecológica, modelada em perfeito sistema de transporte publico inteligente. Sua grande via pública Shancheng Alley com dois quilômetros de caminhos e escadarias arborizadas. Além do seu Parque Nacional Wulang, famoso pelo ser relevo e imenso lago.
Neom e Chongqing são influências do “efeito Brasília”

Enquanto, a cidade inspiradora ao que parece , perdeu sua preocupação com o futuro e se descola de sua concepção utópica e revolucionária de “Capital da Esperança”!
Embora consolidada como capital federal, Brasília tem um débito em sua missão precípua com o Brasil. A belíssima cidade- patrimônio da Humanidade por decisão da UNESCO, dela se espera que volte a inspirar e conduza o Brasil no trajetória de um país desenvolvido e sustentável.
Nestes 65 anos de capital federal presenciou a promoção de uma economia predominante agrícola e extrativista com população majoritária no campo. Ou seja, se industrializou se urbanizou e chegou a integrar as 10 maiores economias da atualidade. Sem duvida, um grande feito.
Mas, tal feito reconhecido não foi suficiente para o Brasil se tornar um País justo, inclusivo e educado. O “gigante econômico” não conseguiu superar o “pigmeu social”, que nos acorrenta.
Corrigir as imensas desigualdades socioeconômicas e fazer do Conhecimento pela Educação, Ciência e Tecnologia em pilares fundamentais de um processo diferenciado de prioridades, ainda não implantado pelo Brasil.
Em ritmo de pressa e com sentimento de urgência, inadiáveis.
A desperdiçada oportunidade do bônus demográfico exige se antecipar aos fatos previstos pelo processo de envelhecimento de sua população.
O Brasil precisa alcançar o nível de país rico para superar seu atraso histórico, necessariamente, antes de envelhecer.
Rico aqui, mais do riqueza material, significa pleno Bem-Estar e Qualidade de Vida para todo o seu Povo.
Temos todos os recursos básicos necessários: humanos, financeiros e técnicos.

