Suape, Pecém, Salvador e Itaqui avaliam novas rotas e parcerias para mitigar possíveis perdas com as tarifas impostas por Washington
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Por Luciana Leão
Com a escalada de tensão comercial provocada pelo chamado “tarifaço” anunciado pelos Estados Unidos, portos estratégicos do Nordeste começam a reagir com ajustes logísticos e abertura de novas rotas marítimas.
Suape (PE), Pecém (CE), Itaqui (MA) e Salvador (BA) traçam rotas alternativas, reforçam parcerias internacionais e apostam na diversificação logística para manter sua relevância no comércio exterior e reduzir a dependência do mercado norte-americano.
Além das medidas internas, como expansão da capacidade e investimentos em eficiência, as autoridades portuárias buscam ampliar a conectividade com mercados alternativos, especialmente na Ásia, consolidando a resiliência da infraestrutura logística da região. A seguir, um panorama sobre as iniciativas em curso nos principais complexos portuários nordestinos.
Suape (PE) monitora cenário e aposta na diversificação de mercados
O Complexo Industrial Portuário de Suape tem intensificado sua estratégia de diversificação e atração de novos fluxos internacionais. Em entrevista à NORDESTE, Rinaldo Lira, diretor de Desenvolvimento e Gestão Portuária, afirmou que a movimentação internacional vem crescendo nos últimos anos e que o porto tem avançado na atração de novos mercados.
“Estamos ampliando a prospecção junto a armadores, operadores e exportadores, com foco no estreitamento de relações comerciais com países da Ásia, Europa e América Latina. A ideia é tornar Suape ainda mais competitivo diante dos novos desafios do comércio exterior”.
Lira ressaltou que Suape está atento às recentes medidas tarifárias impostas pelos Estados Unidos, que incluem uma tarifa de 10% sobre produtos brasileiros. “Embora essas tarifas representem um desafio, o percentual aplicado ao Brasil é relativamente moderado em comparação com tarifas mais elevadas impostas a outros países. Estamos monitorando de perto os desdobramentos e avaliando os impactos potenciais em nossos fluxos comerciais”, afirmou.
Como parte da estratégia de resiliência, o porto vem fortalecendo exportações para a Índia, com alta de 13.240% em 2024, impulsionada pelo coque de petróleo, além de crescimento de 42% nas exportações para a Argentina, com destaque para poliacetais, acumuladores elétricos e veículos.
Importações e exportações

Suape também ampliou as importações da Nigéria e da Turquia. O plano inclui atrair o setor do agronegócio, além de instalar novos terminais e modernizar a infraestrutura de atracação e armazenagem.
“A chegada de novos projetos, incluindo os ligados à economia verde, abre uma janela de oportunidade para consolidar Suape como hub de exportação no Nordeste”, acrescentou o gestor.
Segundo ele, os principais produtos exportados são derivados de petróleo, coque de petróleo, açúcar, veículos e cargas conteinerizadas (como couro e granito), enquanto nas importações se destacam granéis líquidos, como GLP e produtos químicos, além de contêineres com chumbo, polímeros e frutas.
Lira reforça que, embora ainda seja cedo para estimativas sobre o impacto financeiro do tarifaço, os resultados de 2024 demonstram resiliência: as importações em contêineres cresceram 55%, puxadas por polímeros e díodos, enquanto as exportações aumentaram 12%, com destaque para poliacetais e açúcar. “Continuaremos ajustando nossas estratégias para manter o crescimento sustentável do porto”.
Ele acrescenta que o esforço para mitigar impactos tarifários deve ser coletivo: “O Porto de Suape se apresenta ao mercado como facilitador quando se trata de assegurar movimentações. Mesmo num cenário de maior inquietação, podem surgir novas oportunidades”. O porto também mantém diálogo com outros atracadouros da região, reforçando a troca de informações e boas práticas para aumentar a competitividade logística do Nordeste.
Pecém (CE) aposta em nova rota com a Ásia para ganhar competitividade

O Porto do Pecém deu início à nova linha marítima internacional chamada Serviço Santana, que encurta a conexão com a Ásia. A rota passa por China, Coreia do Sul, Panamá, República Dominicana, Pecém, Suape, Salvador, Santos, Índia e Singapura, retornando à China.
Com isso, o tempo de deslocamento entre China e Ceará caiu de 60 para 30 dias, favorecendo a importação de maquinário e insumos, e a exportação de produtos como granito, mármore, castanha de caju, cera de carnaúba, frutas, calçados e têxteis.

Segundo Max Quintino, presidente do Complexo do Pecém, “a nova rota marítima entre a China e Fortaleza reduz significativamente o tempo de transporte de mercadorias e favorece essa logística. Isso torna o Ceará ainda mais competitivo no cenário do comércio exterior”.
O impacto esperado na movimentação portuária é de pelo menos 10%, com a chegada de 1.200 contêineres semanais.
A operação é feita pela MSC em parceria com a APM Terminals, e já amplia as possibilidades para as exportações de algodão e carne do Norte e Nordeste, reduzindo custos em relação aos portos do Sudeste.
Itaqui (MA) investe em eficiência e capacidade operacional

A presidente em exercício do Porto do Itaqui, Isa Mary Mendonça, destacou o compromisso com a eficiência e capacidade operacional do porto como fundamentos para enfrentar o atual cenário global.
“Estamos cada vez mais empenhados em fortalecer a eficiência e a capacidade operacional do Itaqui. Nossas movimentações seguem um cronograma logístico bem alinhado com as operadoras que atuam no porto. Seguimos trabalhando por ainda mais resultados para os próximos meses”, afirmou.
Em março de 2025, o Itaqui movimentou 2,357 milhões de toneladas de granel sólido — 21% acima de março do ano anterior. Só de soja, foram mais de 1,9 milhão de toneladas. Já os granéis líquidos totalizaram 819 mil toneladas. O desempenho positivo reforça o papel do porto como principal corredor de exportação de commodities do Arco Norte.
De acordo com o diretor de Operações do porto, Hibernon Marinho, “este recorde reflete o esforço contínuo do Porto do Itaqui em aprimorar suas operações e superar desafios logísticos, visando sempre resultados ainda melhores”.
Com 34 milhões de toneladas movimentadas em 2024, o Porto do Itaqui é o quarto maior porto público do Brasil, conforme a Antaq. A meta para 2025 é chegar a 35 milhões de toneladas, impulsionado pela supersafra de soja e pela expansão de cargas estratégicas, como fertilizantes e minerais.
Porto de Salvador (BA) valida nova rota com a China para ampliar mercados

A Bahia iniciou uma nova fase de cooperação econômica com a China com o lançamento da Rota Marítima Direta Zhuhai-Brasil, que conecta diretamente o Porto de Gaolan, na China, aos portos brasileiros de Santana (AP) e Salvador (BA). A iniciativa visa reduzir o tempo de viagem em até 30 dias e os custos logísticos em mais de 30%, conforme destacou o secretário de Desenvolvimento Econômico, Angelo Almeida.
“O canal dourado da navegação China-Brasil é fundamental para a nova industrialização da Bahia, com foco na compra de equipamentos e maquinários. A China é nosso principal parceiro comercial”, afirmou o secretário. De janeiro a março de 2025, a Bahia exportou US$ 1,2 bilhão para a China e importou US$ 800 milhões.
A nova rota tem potencial para dinamizar a movimentação de produtos como soja, minério de ferro, carne bovina e celulose, além de acelerar a importação de insumos industriais.

O Porto de Salvador tem capacidade para receber navios de até 150 mil toneladas de porte bruto.
Já o Porto de Gaolan movimenta até 160 milhões de toneladas por ano e possui uma rede logística integrada por modais marítimos, rodoviários, ferroviários e oleodutos.

