Entrevista exclusiva publicada na edição 219 da revista NORDESTE. Leia abaixo ou se preferir acesse o conteúdo pelo APP aqui
Renomado endocrinologista indica meios para encarar obesidade e diz que “febre” Mounjaro precisa de indicação médica
Por Walter Santos
O mundo, o Brasil na sequência e a Paraíba no particular continuam convivendo com dramas sociais produzidos pela diabetes – uma das maiores doenças do século. Ultimamente com toda as camadas precisando conviver com um medicamento de alto custo e efeitos, o Mounjaro. O endocrinologista paraibano e um dos mais reconhecidos no País, médico João Modesto, explica tudo. Vamos ler:
Educação alimentar como base
Revista NORDESTE – A sociedade global, nela a brasileira, convive com dura realidade em que a má qualidade na ingestão de alimentos, sobretudo gordurosos, produz efeitos danosos aos organismos humanos. Como especialista reconhecido, qual a leitura que o Sr faz dos danos causados na saúde das pessoas por falta de instrução sobre como se alimentar de melhor forma?
JOÃO MODESTO – É fato bem estabelecido que a má alimentação é o principal fator de risco de morre prematura em todo o mundo. Como decorrência, entre outras adversidades, temos a obesidade que tem se tornado um dos maiores problemas de saúde pública em todo o mundo, atingindo todas as faixas etárias. Um cuidadoso artigo da revista médica “The Lancet” publicado a poucas semanas, mostrou que em pouco mais de 30 anos a taxa de obesidade mais do que duplicou em adultos e quadruplicou entre crianças e adolescentes.
É certo que temos múltiplos fatores envolvidos no aumento da obesidade, e por ser a alimentação uma das maiores responsáveis, existe preocupação de como alimentar de forma saudável as prováveis 10 bilhões de pessoas que deveremos ter em 2050. O cenário atual mostra que quase dois bilhões de pessoas estão “superalimentadas” enquanto um bilhão sofre de desnutrição. Falta de frutas, verduras e cereais é uma constante, da mesma forma que bebidas açucaradas, carnes processadas e excesso de sal também são. Esses itens, somados a um estilo de vida sedentário, realçam a importância de mudanças sanitárias.
Os maus hábitos

NORDESTE – O problema da má ingestão ao que parece não se registra apenas em camadas populares pobres, pois pessoas de classe melhor também se alimentam mal. A educação nas fases preparatórias nas escolas não poderia ser instrumento de resultados positivos na vida dos jovens, por exemplo?
JOÃO MODESTO – Os maus hábitos alimentares realmente atingem todas as camadas das sociedades em geral. No entanto, as classes menos privilegiadas social e economicamente, pagam um preço maior por não conseguir acesso a alimentos nutritivos mais saudáveis. Gostaria de realçar que foi publicado recentemente um artigo na prestigiosa revista médica “The Lancet”, e que teve como base de dados a “Global Burden Disease”, programa financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates.
O estudo traz um plano de ação em 5 anos (2025-2030) onde encontramos medidas emblemáticas como regulamentar a publicidade de alimentos ultraprocessados, integrar infraestruturas esportivas e playgrounds nas escolas, incentivar a amamentação e dietas equilibradas desde a gestação e desenvolver políticas nutricionais adaptadas a cada país. Para tanto, faz-se necessário um compromisso político muito mais forte desse que estamos vivenciando, com estratégias globais que melhorem a nutrição, a atividade física e o meio ambiente.
Diabetes no Nordeste
NORDESTE – Do ponto de vista estatístico, qual a realidade da Diabetes no Nordeste brasileiro e quais as causas para esses índices?
JOÃO MODESTO – A incidência de diabetes tem aumentado acentuadamente em todo o mundo, particularmente pela grande associação com a obesidade. O Diabetes Tipo 2, o mais comum, é mais encontrado a partir dos 40 anos de idade e possui fator genético muito importante. Avalia-se que no Brasil, existam cerca de 20 milhões de diabéticos. Um estudo realizado pelo Ministério da Saúde e CNPq no final do século passado, mostrou uma prevalecia de 7.6% de diabéticos Tipo 2 no Brasil.
Esse estudo foi feito em 12 capitais brasileiras, sendo João Pessoa uma delas e, coordenando os trabalhos, encontramos uma prevalência de 7.9%. Possivelmente, hoje esse percentual está mais elevado por conta do envelhecimento da população, do aumento da obesidade, dos maus hábitos alimentares e do sedentarismo.
Orientação sobre a medicação
NORDESTE – Programas televisivos têm reproduzido matérias sobre o uso do medicamento Mounjaro em escala expressiva para a parcela da sociedade que pode ter acesso. Qual o efeito prático em quem é orientado por médicos à essa receita?
JOÃO MODESTO – Quanto ao medicamento para diabetes – Monjuaro -, ele tem como princípio ativo a substância chamada tirzepatida, que é aplicada semanalmente por via subcutânea. Ela atua imitando dois hormônios classificados como incretinas – GLP-1 e GIP – e que suprime o apetite, aumenta a produção e a sensibilidade à insulina e retarda o esvaziamento gástrico, entre outros inúmeros efeitos.
Assim, além do controle da glicose sanguínea, tem efeito significativo sobre a perda de peso. Nesse sentido, a tirzepatida está se consolidando como uma opção terapêutica poderosa e duradoura na obesidade, com boa tolerabilidade e alto impacto. No entanto, deve ser acompanhamento médico contínuo e políticas públicas que evitem o uso indiscriminado ou movido por pressão estética e marketing.
A ANVISA acaba de publicar que esse medicamento só será vendido com retenção de receita, algo realmente positivo, pois o uso discriminado e sem orientação médica pode levar a problemas outros de saúde já bem documentados. O alto custo limitará o acesso à população e seu uso precisa ser racional e combinado com acompanhamento nutricional, psicológico e de atividade física, daí a necessidade de critérios clínicos bem definidos para prescrição. O diabético obeso teria duas grandes possibilidades: controle da glicemia e redução ponderal.
Acesso ao medicamento
NORDESTE – Quando as camadas populares um dia podem ter acesso ao medicamento?
JOÃO MODESTO – O acesso de medicamentos de alto custo é um dos grandes problemas em todo o mundo e, nesse caso particular, a maior parte da nossa população não terá condições de obtê-lo. Políticas públicas tornam-se necessárias até no sentido de prevenção. Dessa forma, e mais uma vez, a atividade física regular e a mudança de comportamento alimentar são fundamentais na prevenção da obesidade.
Sabe-se, ainda, que em países de renda média e alta, os alimentos ultraprocessados contribuem com 25-60% da ingestão diária de energia e existem evidências crescentes de que os alimentos ultraprocessados estão associados à obesidade, doenças cardiovasculares, depressão e mortalidade por todas as causas. Por tudo isso, a prevenção deve ser algo primordial e uma preocupação de todos nós.
NORDESTE – Por fim, qual a recomendação que o senhor aponta para quem está obeso ou em condições de pré-diabetes?
JOÃO MODESTO – Existem inúmeras pesquisas sinalizando que indivíduos no estágio de pré-diabetes podem normalizar seu metabolismo da glicose com as conhecidas modificações do estilo de vida. Isso inclui aumento da atividade física e adição de uma dieta saudável. Sabe-se que mesmo uma perda de peso modesta (5%_20%) e atividade física moderada (30 minutos/dia) são as metas recomendadas e trazem benefícios para a saúde e reduzem o risco de que a pessoa venha a se tornar diabética.
A utilização de medicamentos deve ser individualizada, acompanhada pelo médico, e priorizando- se aqueles pacientes com maior risco para o Diabetes Tipo 2 (forte história familiar desse tipo de diabetes, obesidade em graus mais elevados, diabetes gestacional prévio ou a chamada síndrome metabólica). Outras possibilidades e em casos bem escolhidos, pode ser indicada a cirurgia metabólica.

