Ainda há tempo para renovação do Frevo: ritmo que simboliza Pernambuco

O frevo, ritmo que é sinônimo da identidade cultural de Pernambuco, enfrenta um desafio em meio à sua secular história: sua renovação

Matéria publicada na edição 216, da revista NORDESTE, leia abaixo ou se preferir acesse pelo APP clicando aqui.

 

 

Por Luciana Leão

 

Mesmo com sua força sendo reconhecida pela UNESCO como patrimônio imaterial da humanidade e pelo Iphan, como patrimônio cultural do Brasil, o Frevo parece estar preso às memórias de glórias passadas, sem um planejamento robusto para conectar-se aos novos tempos. Esse problema vai além da música, da dança e de seus passos únicos e envolve políticas culturais, o mercado fonográfico, a educação e a própria percepção do gênero pela sociedade brasileira.

 

O frevo no passado: ícones e sucesso nacional

 

 

Entre os grandes nomes que eternizaram o frevo, destacam-se Nelson Ferreira, Capiba, Jota Michiles, Aldemar Paiva, Maestro José Menezes, Carlos Fernando, Lula Queiroga. Artistas como Claudionor Germano, Alceu Valença, Elba Ramalho, entre outros, interpretaram suas composições, levando o gênero a um público amplo, tanto nacional quanto internacional.

Carlos Fernando, por exemplo, inovou com uma linguagem harmônica e temática diferente, sendo o autor de um grande sucesso nos anos 80, Banho de Cheiro, que explodiu no Rock in Rio de 1985, interpretado pela paraibana Elba Ramalho.

 

Maestro Spok é um dos ícones da renovação musical do frevo. Foto: Arquivo RNE

 

Esses compositores e intérpretes representam uma geração consolidada que levou o frevo ao auge da visibilidade nas décadas passadas. No entanto, é difícil apontar novos nomes que consigam levar o gênero a um patamar semelhante no cenário atual, tanto no Brasil quanto fora dele. Apesar de esforços isolados, como os da Orquestra Contemporânea de Olinda e do Maestro Spok, a ausência de uma nova safra de compositores e intérpretes destaca a desconexão entre o frevo e as dinâmicas culturais contemporâneas.

Há uma geração nos anos 90, como Nena Queiroga, André Rio, Nonô Germano, Marrom Brasileiro, que promoveram uma renovação no frevo canção.

 

O auge do frevo e o impacto da Rozenblit

 

José Teles é jornalista, escritor e pesquisador de música popular. Foto: Arquivo Pessoal

Nos anos 60, o frevo teve seu auge, com a gravadora Rozenblit desempenhando um papel central na popularização do gênero. José Teles, jornalista, escritor e pesquisador da música popular, destaca que a Rozenblit foi essencial ao lançar discos e investir na produção musical local, promovendo compositores e artistas como nunca antes.

“Antes da Rozenblit, o frevo era gravado no Rio apenas de forma limitada e principalmente para o Carnaval, com poucos discos circulando fora de Pernambuco. Quando a Rozenblit entrou em cena, o frevo ganhou uma visibilidade inédita”, afirma Teles.

O primeiro frevo a estourar no Brasil foi a “Evocação” de Nelson Ferreira, um frevo de bloco, que foi a música mais tocada no Carnaval brasileiro de 1957, até hoje tocada nos carnavais. “Se vendeu muito disco, muito disco de frevo, fazendo, inclusive, com que as gravadoras do Sudeste fizessem LP de frevo para o Carnaval de Pernambuco e do Nordeste, que era todo frevo, até a Bahia era frevo também”. As duas únicas cidades que tinham música para o Carnaval eram o Recife e o Rio de Janeiro.

Porém, a falência da Rozenblit, agravada por problemas financeiros e a grande cheia de 1975, marcou o fim dessa fase próspera para o gênero. A partir daí, o frevo passou a ser tratado de forma mais artesanal, sem o apoio da indústria fonográfica, o que dificultou sua continuidade em grande escala.

 

Hiato de gerações e a falta de apoio

 

A falta de apoio da indústria fonográfica, de empresários e de políticas públicas têm impactado negativamente o fortalecimento e a expansão do ritmo. Teles observa que, embora o frevo seja um patrimônio riquíssimo, ele precisa de uma rede de apoio contemporânea para garantir sua perpetuação.

 

O frevo desaparece do “radar cultural” após o período do Carnaval

 

O gênero está intimamente ligado ao Carnaval, especialmente aos desfiles de Olinda e ao Galo da Madrugada, no Recife, considerado o maior bloco de rua do mundo pelo Guinness Book. No entanto, fora deste período, o frevo desaparece do radar cultural, tornando-se invisível para o mercado e o público. Além disso, o esforço para manter sua “pureza” histórica pode sufocar iniciativas de inovação que tentem torná-lo atraente para as novas gerações.

A partir de 2014, o frevo recebeu um importante impulso com a criação do Paço do Frevo, uma iniciativa da Prefeitura da Cidade do Recife e realização da Fundação Roberto Marinho, com gestão do Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG) é um centro de formação e um museu dedicado à história e à preservação das tradições do frevo.

 

Frevo e axé: contrastes no cenário musical

 

José Teles destaca a diferença entre o frevo e o axé. Enquanto o frevo foi sempre um fenômeno regional, que não foi além do Nordeste limitado às fronteiras de Pernambuco, o axé se beneficiou da estrutura de mercado que permitiu a projeção nacional de seus artistas.

“O frevo nunca foi nacional. Talvez, porque fosse autossuficiente. Recife tinha uma rádio grande, uma gravadora grande, televisão. Os artistas ficavam aqui. Claudionor Germano passou toda a carreira aqui. Capiba nunca saiu daqui”, afirma.

Teles destaca que, em contraste, o axé music se beneficiou de uma estrutura de mercado que projetou seus artistas nacionalmente. Ele avalia que o axé não é um gênero específico, mas uma fusão de ritmos como samba-reggae, frevo e música caribenha.

As gravadoras estavam no auge e investiram pesado em artistas como Luiz Caldas, Daniela Mercury e Ivete Sangalo, colocando-os nos principais programas de TV e promovendo suas músicas em todo o Brasil”, observa. Essa estratégia comercial fez do axé um fenômeno de massa, especialmente nas décadas de 1990 e 2000, enquanto o frevo manteve-se limitado à sua base cultural.

Porém, Teles observa que, apesar de seu sucesso, o axé enfrenta atualmente uma estagnação. “Quanto tempo faz que o axé não faz sucesso nacional, nas mesmas dimensões de décadas atrás? Há muitos anos”, observa.

 

A complexidade do frevo e seus desafios

 

A dificuldade de composição e a exigência de habilidades orquestrais tornam o frevo de rua, especialmente, um ritmo de difícil execução.

 

 

O frevo possui uma complexidade técnica, musical, que o torna distinto de outros gêneros. A dificuldade de composição e a exigência de habilidades orquestrais tornam o frevo de rua, especialmente, um ritmo de difícil execução. Para Teles, o frevo é quase erudito, o que dificulta sua compreensão e popularização fora de Pernambuco.

Não é como outros ritmos”. O frevo, segundo o pesquisador, exige que o músico saiba ler partituras e essa dificuldade técnica está intimamente ligada à tradição musical de Pernambuco, que remonta à época do domínio holandês, quando Maurício de Nassau trouxe as primeiras bandas de música para o estado.

“Pernambuco foi o primeiro estado que teve banda de música. É uma tradição pernambucana”, explica Teles. Essa herança histórica consolidou uma riqueza instrumental única, especialmente na formação de músicos especializados em metais e palhetas.

 

Frevo e o Diálogo com outros Ritmos

 

Para José Teles, a ideia de fusão do frevo com outros ritmos não é nova, mas permanece um desafio. Ele cita como exemplo pioneiro o compositor Nelson Ferreira, que em 1952 criou “Esquenta Muié”, uma mistura de frevo com baião. “Dialogar com o frevo é difícil… até fizeram isso. Nelson Ferreira foi o primeiro que dialogou.”

Essa dificuldade contrasta com a versatilidade do axé music, que, segundo Teles, não é um estilo definido, mas um “balaio de gato” que absorve diferentes influências. “O axé não é um ritmo musical, é um movimento, uma cena que surgiu em Salvador e bombou porque as gravadoras estavam em cima. Já o frevo é um ritmo inconfundível, quase uma música erudita.”

 

Caminhos para a renovação do frevo

 

Apesar do cenário desafiador, há caminhos possíveis para revitalizar o frevo e garantir sua relevância no futuro. A educação musical nas escolas e em comunidades periféricas é uma estratégia importante para formar uma nova geração de músicos e compositores.

Além disso, experimentações que conectem o frevo com estilos contemporâneos, como pop, música eletrônica ou rap, podem renovar o gênero sem perder sua essência.

Assim como o forró e o brega passaram por transformações, o frevo também pode se beneficiar da fusão com outros estilos, tornando-se atrativo para um público mais amplo, especialmente os jovens.

No entanto, um dos maiores desafios, segundo Teles, é a ausência de canais de comunicação para divulgar o frevo. “As gravadoras não existem mais como antigamente, e as rádios, que eram o principal meio de divulgação, hoje tocam quase exclusivamente brega ou MPB clássica. O frevo já não é mais tocado espontaneamente, como deveria”, lamenta.

 

Legado

 

Capiba, considerado um dos maiores compositores do frevo. Foto: Arquivo RNE

 

Diante dos desafios, o Paço do Frevo, no Recife, tem desempenhado um papel crucial na preservação do gênero musical reconhecido pela UNESCO como patrimônio imaterial da humanidade e pelo Iphan como patrimônio cultural do Brasil.

Teles reforça o trabalho do Paço do Frevo em manter o legado de compositores como Capiba, cuja vasta obra está sendo preservada e disponibilizada online.

“Capiba deixou um legado monumental. Seu acervo contém mais de 11 mil partituras, e já disponibilizamos 930 delas no site, além de fotos e outros materiais”, destaca Teles e acrescenta que as composições de Capiba são atemporais e continuam a ser tocadas e cantadas, mostrando a força do legado deixado pelo compositor.

Teles acredita que o frevo mantém sua força histórica e cultural. Para ele, assim como o samba no Rio de Janeiro, o frevo faz parte do cotidiano de Pernambuco e continuará sendo um símbolo essencial da cultura pernambucana, independente de sua popularidade fora do estado.

O frevo é parte da cultura de Pernambuco, assim como o samba é para o carioca. Mesmo que o frevo não toque tanto fora de Pernambuco, ele permanece sendo fundamental para a identidade do estado”, conclui.

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Luciana Leão

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One thought on “Ainda há tempo para renovação do Frevo: ritmo que simboliza Pernambuco

  1. Frevobook: Livro Inédito Inova na Linguagem Musical - Revista Nordeste 2 de fevereiro, 2025 at 4:32

    […] Leia mais sobre a renovação do frevo e seus desafios no século XXI […]

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