Por Luciana Leão, coluna Valor Sustentável
Na semana passada, esta coluna abordou o avanço da sociobioeconomia como um novo vetor de desenvolvimento sustentável no país. Agora, o tema ganha forma concreta ao observar uma cadeia produtiva que une tradição, inovação e conservação ambiental: a cultura do cacau. Presente em territórios estratégicos da Amazônia e do Nordeste — especialmente no sul da Bahia —, o cultivo do fruto se consolida como exemplo de como a economia da floresta pode gerar renda, fortalecer comunidades e preservar ecossistemas.
O crescimento do consumo de chocolate no Brasil ajuda a evidenciar essa transformação, principalmente em datas comemorativas, como a Páscoa. Por trás do produto final, existe uma rede produtiva formada por agricultores familiares, cooperativas e empreendimentos comunitários que vêm reposicionando o cacau como um ativo econômico e social relevante. Nesse contexto, o sul da Bahia mantém papel histórico e estratégico, reunindo conhecimento produtivo, tradição agrícola e iniciativas que conciliam geração de renda com conservação da Mata Atlântica.
Dados recentes do Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) ajudam a dimensionar a força econômica da sociobioeconomia nos territórios. Negócios comunitários apoiados pela organização comercializaram, em 2025, mais de 6,6 mil toneladas de produtos, gerando cerca de R$ 130 milhões em faturamento. O cacau está entre os principais itens dessa cadeia e figura no grupo de maior volume de comercialização, ao lado de produtos tradicionais da floresta, como açaí e castanha-do-Brasil, destacando-se pelo elevado valor econômico e pela capacidade de acessar mercados que valorizam práticas produtivas sustentáveis.
Ainda assim, o cenário recente acende um sinal de atenção. O mercado do cacau é historicamente marcado por oscilações, e a queda nos preços observada ao longo do último ano tem gerado preocupação entre produtores e cooperativas, com impacto direto na renda das comunidades e na estabilidade das atividades produtivas.
Nesse contexto, a atuação de organizações de apoio produtivo ganha relevância estratégica. A cultura do cacau vem se consolidando como um dos pilares da sociobioeconomia justamente por sua capacidade de gerar renda e, ao mesmo tempo, contribuir para a conservação das florestas.
Em regiões como a Amazônia, o cultivo ocorre em sistemas agroflorestais, que permitem a integração com outras espécies e a adaptação às diferentes realidades dos produtores, fortalecendo a produção local e valorizando o conhecimento das comunidades.
Segundo João Victor, mentor de crédito rural, o fortalecimento dessa cadeia depende diretamente da ampliação do acesso a políticas públicas e instrumentos financeiros adequados. Ele destaca que muitos produtores ainda enfrentam dificuldades para acessar financiamento, o que limita o crescimento das atividades. Nesse cenário, iniciativas que combinam crédito orientado e assistência técnica têm papel fundamental para superar esses desafios e manter o cacau como vetor de desenvolvimento para comunidades em diferentes regiões do país.
No Nordeste, o sul da Bahia representa um dos polos mais emblemáticos dessa atividade. O sistema cabruca — método tradicional em que o cacau é cultivado sob a sombra da Mata Atlântica — tornou-se referência internacional por conciliar produção agrícola e conservação florestal. Além de preservar a vegetação nativa, esse modelo produtivo mantém a atividade econômica em áreas historicamente dependentes da cultura cacaueira, contribuindo para a geração de renda e a permanência das famílias no campo.
Outro movimento relevante na cadeia do cacau é o crescimento da participação feminina em atividades produtivas e de gestão. Mulheres vêm assumindo papéis cada vez mais estratégicos em cooperativas e associações, contribuindo para a melhoria da qualidade das amêndoas e para o fortalecimento da governança dos empreendimentos comunitários. Esse protagonismo tem se refletido no reconhecimento internacional do cacau produzido em regiões amazônicas, evidenciando a relação entre organização produtiva, qualificação e geração de valor.
A experiência do cacau demonstra que a sociobioeconomia não é apenas um conceito em construção, mas uma estratégia concreta de desenvolvimento territorial. Ao integrar produção, conservação e organização social, essa cadeia revela que é possível transformar recursos naturais em oportunidades econômicas, fortalecendo comunidades e promovendo maior resiliência econômica em diferentes regiões do país.
No caso do Nordeste, especialmente no sul da Bahia, a trajetória da cultura cacaueira mostra que tradição e inovação podem caminhar juntas. O fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis nesse território sinaliza caminhos para uma economia mais inclusiva, capaz de gerar renda, preservar biomas e ampliar as oportunidades de desenvolvimento regional.

