Fatos do PLANALTO, por José Natal
Alguma coisa acontece sem muita explicação, mas com alguma frequência, entre a rua Pinheiro Machado, nas Laranjeiras, sede do Palácio Guanabara no Rio de Janeiro, e a Estrada General Emílio Maurell, em Bangu, onde fica o Complexo Penitenciário de Gericinó, o chamado Bangu 1 para os mais chegados.
Há entre essas duas entidades uma estranha e rotineira relação. A primeira fornece hóspedes de variados pedigrees. E a segunda os recebe por tempo indeterminado, quase sempre escudada em argumentos e circunstâncias parecidas.
Quem nasceu, ou mora no Estado do Rio nas últimas décadas, de pronto ligará as extremidades dessa equação. O motivo exato, juramentado em cartório, o que faz do Palácio Guanabara quase que uma sede preparatória para motivar ambições financeiras distantes dos métodos convencionais, ninguém se atreve a dizer, mas é fato que por ali passaram, (há quem diga que ainda passe) , governadores cuja trajetória, pouco republicana, deu a ele mais destaques nas páginas policiais do que em espaços mais nobres.
Embora sem ação policial, e sem prisões nas manchetes de jornais, o recente afastamento do ex-governador Cláudio Castro do cargo não pode ser motivo de nenhuma comemoração por parte de seus aliados.
De lamúrias e lágrimas, talvez sim. Mas as histórias palacianas do Governo do Rio são robustas, ricas em episódios que motivam mais lamentos do que euforias. Em 2019, por exemplo, Moreira Franco, que governou o Rio de 1987 a 1991, passou pelo desconforto de uma cela de prisão por quatro noites, após questões mal resolvidas com a Operação Lava Jato.
O processo envolvendo Franco surgiu após denúncias relacionadas a Engevix e o complexo Angra 3, que deu muito o que falar na época. Moreira Franco é carioca e tem 81 anos. Eleita em 2002, Rosângela Barros Assed Matheus, que adotou o nome de Rosinha Garotinho, e foi a primeira mulher a assumir o cargo no Estado do Rio, teve seu nome envolvido em delações ligadas a JBS, e em 2017 passou 7 dias atrás das grades, sendo liberada em 29 de novembro, após idas e vindas da justiça.
O marido de Rosinha, Anthony Garotinho, talvez seja o ilustre governante recordista em frequentar os presídios cariocas ao longo do tempo, quase sempre por motivos relacionados a crimes eleitorais. Garotinho teve que prestar contas à justiça em variadas ocasiões, e por 5 vezes foi aprisionado, recordista nessa modalidade nada recomendável aos bons costumes.
Se Garotinho se notabiliza, mesmo que pelo número de voz de prisão, o ex-governador Sérgio Cabral lidera com folga o tempo de permanência em regime fechado. Processado por desvio de dinheiro público, foi preso em 2016, e após seis anos de reclusão, por determinação do Ministro Gilmar Mendes (STF), está em liberdade desde dezembro de 2022, mediante restrições.
Atual prefeito da cidade de Piraí, no Estado do Rio, Luiz Fernando Pezão, de 71 anos, da mesma escola de Sérgio Cabral e outros do mesmo gênero, governou o Rio por quase quatro anos, e quando deixou o cargo também conheceu as agruras de uma prisão, de novembro de 2018 a dezembro de 2019, após longo processo instaurado pela justiça carioca. Pelo histórico dos governantes mencionados, é fácil deduzir que a cada eleição o eleitor da região se vê diante de escolhas difíceis, algumas adotadas meramente pela obrigatoriedade do voto.
Com o índice de criminalidade em alta, denúncias de corrupção e os constantes embates entre milicianos, traficantes e as forças policiais, a população carioca a cada ano de eleições acumula mais dúvidas do que certezas na hora do voto. Com base no histórico do passado, é difícil acreditar nas promessas de futuro. Repetitivas e jamais cumpridas. Vida que segue, para muitos o Rio de Janeiro ainda continua lindo.
José Natal
Jornalista

