Valor Sustentável: Quando biodiversidade vira negócio, por Luciana Leão

Por Luciana Leão

Por muito tempo, a biodiversidade foi tratada apenas como patrimônio natural, algo a ser protegido, preservado e admirado. Mas, nos últimos anos, uma nova visão ganha força no Brasil e, de forma especial, no Nordeste: a de que a biodiversidade também pode ser um ativo econômico capaz de gerar renda, inclusão produtiva e desenvolvimento regional. É nesse contexto que a sociobioeconomia surge como uma agenda estratégica para o futuro dos territórios.

Na prática, a sociobioeconomia representa a combinação entre recursos naturais, conhecimento tradicional e inovação. Trata-se de transformar produtos da biodiversidade, como frutos, fibras, sementes e extratos em oportunidades de negócio sustentáveis, valorizando quem vive e produz nesses territórios. Mais do que preservar a natureza, essa abordagem busca criar valor econômico a partir dela, fortalecendo cadeias produtivas locais e ampliando as possibilidades de geração de renda.

É importante fazer uma distinção simples: biodiversidade e sociobioeconomia não são a mesma coisa. A biodiversidade é o recurso natural, ou seja, as plantas, frutos, sementes e espécies que existem nos territórios. Já a sociobioeconomia é a estratégia, o modelo, que transforma esses recursos em trabalho, renda e oportunidade, conectando conhecimento local, tecnologia e acesso ao mercado.

No Nordeste, essa economia já tem escala. Apenas a produção ligada a produtos da sociobiodiversidade movimentou cerca de R$ 4,3 bilhões em 2024, com destaque para cadeias como carnaúba, babaçu e umbu. O dado revela que a biodiversidade deixou de ser apenas um ativo ambiental para se consolidar também como um ativo econômico, capaz de sustentar milhares de famílias e dinamizar economias locais.

Esse potencial é ainda mais evidente no semiárido. A Caatinga ocupa cerca de 844 mil quilômetros quadrados, o equivalente a aproximadamente 70% do território nordestino, e abriga cerca de 28 milhões de pessoas. Trata-se do único bioma exclusivamente brasileiro e de um dos maiores laboratórios naturais de adaptação ao clima semiárido. Nesse território, biodiversidade e sobrevivência sempre caminharam juntas e, cada vez mais, passam a caminhar também com inovação e empreendedorismo.

Cadeias produtivas tradicionais já fazem parte da economia regional, mas ainda enfrentam obstáculos como a informalidade, a baixa agregação de valor e a dificuldade de acesso a mercados. A cadeia do caju, por exemplo, envolve mais de 143 mil estabelecimentos rurais no país, grande parte localizada no Nordeste, evidenciando o peso social e econômico das atividades ligadas à biodiversidade. O desafio, agora, não é apenas produzir, mas agregar valor, diversificar produtos e ampliar mercados.

Nos últimos anos, governos, universidades, centros de pesquisa e organizações sociais têm ampliado iniciativas voltadas a esse modelo de desenvolvimento. A aposta é clara: estimular negócios sustentáveis baseados na biodiversidade pode fortalecer economias locais, gerar empregos e reduzir desigualdades, ao mesmo tempo em que contribui para a conservação dos recursos naturais.

Estudos recentes já identificam pelo menos 26 cadeias produtivas baseadas em espécies da Caatinga com potencial para mercados como alimentos, cosméticos e medicamentos, um indicativo de que a sociobioeconomia ainda tem muito espaço para crescer.

Um exemplo concreto dessa estratégia vem do semiárido cearense. Foi lançada, nesta semana, uma incubadora de negócios voltada à sociobioeconomia, iniciativa financiada pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e desenvolvida em parceria com instituições de pesquisa e organizações da sociedade civil. O projeto tem como foco a capacitação de jovens para a criação de empreendimentos ligados às cadeias produtivas da biodiversidade, integrando conhecimento tradicional, tecnologias sociais e ferramentas digitais.

A proposta responde a desafios históricos da região, como a baixa formalização das atividades produtivas e a dificuldade de agregar valor aos produtos locais. Ao incentivar a criação de negócios sustentáveis e apoiar a inovação nos territórios, iniciativas como essa ajudam a construir um modelo de desenvolvimento mais inclusivo, capaz de gerar renda e ampliar oportunidades para as novas gerações.

Mais do que uma tendência, a sociobioeconomia começa a se consolidar como uma estratégia de desenvolvimento regional, capaz de gerar renda, fortalecer economias locais e posicionar o Nordeste como referência em inovação baseada na biodiversidade. Em um cenário de mudanças climáticas e transformação econômica, investir em soluções que nascem do território pode ser não apenas uma escolha sustentável, mas uma decisão inteligente para o futuro do desenvolvimento regional.

Curta e compartilhe:

Luciana Leão

Leia mais →

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *