Farol Digital na Grande João Pessoa consolida nova força

SEBRAE já registra 4.300 empresas reforçando articulação empresarial como referência, diz presidente Jaldo Pequeno

Por Walter Santos

O ecossistema digital da Grande João Pessoa anda vitaminado por uma orquestração política a envolver muitos atores a produzir novidades e negócios de forma inusitada já a envolver 4.300 empresas, segundo o presidente do Farol Digital, Jaildo Tavares Pequeno. Saiba detalhes na entrevista a seguir:

Revista NORDESTE – Os fatos apontam para um novo momento estratégico do ecossistema científico, digital e mercadológico na Grande João Pessoa. Qual a realidade atual do mercado e qual o significado do projeto Farol Digital?

JAILDO TAVARES PEQUENO: “João Pessoa está vivendo o nascimento de um novo ciclo econômico baseado em conhecimento, inovação e tecnologia.” Estamos diante de uma mudança estrutural na dinâmica econômica da Grande João Pessoa. O setor de tecnologia e inovação passou a ocupar um papel cada vez mais estratégico no desenvolvimento regional, impulsionado por fatores como a presença de universidades fortes, capital humano qualificado, crescimento de empresas digitais e maior integração com mercados nacionais e internacionais. Hoje, João Pessoa possui uma base acadêmica extremamente relevante. Dados do Observatório da Secretaria de Ciência e Tecnologia da Prefeitura mostram que mais de 90 mil pessoas estão vinculadas ao ensino superior na cidade, incluindo 73.615 estudantes de graduação, quase 6 mil estudantes de pós-graduação e mais de 5.600 docentes universitários. Isso representa cerca de 11% da população diretamente conectada ao ambiente universitário, um indicador muito significativo para a formação de um ecossistema de inovação. Nesse contexto, o Farol Digital surge como uma iniciativa de orquestração estratégica do ecossistema. Nosso propósito é organizar, conectar e projetar o potencial tecnológico da região, criando um ambiente mais favorável à inovação, ao empreendedorismo e à geração de riqueza. O que estamos construindo é mais do que um conjunto de empresas de tecnologia. Estamos consolidando um ambiente econômico baseado em conhecimento, capaz de gerar empregos qualificados, atrair investimentos e posicionar a Grande João Pessoa como um novo polo emergente da economia digital no Nordeste. “João Pessoa pode se consolidar como um dos principais polos emergentes de tecnologia do Nordeste”, afirma Jaildo Tavares.

Reuniões frequentes reforçam nova fase de avanços estratégicos

NORDESTE – Recentemente registrou-se um encontro entre representantes do Farol Digital e o Banco do Nordeste. O que ficou consolidado para reforço ao ecossistema?

JAILDO TAVARES PEQUENO: O diálogo com o Banco do Nordeste foi extremamente estratégico porque reforça um ponto fundamental: a inovação precisa estar conectada aos instrumentos de financiamento do desenvolvimento regional. O Banco do Nordeste possui um papel histórico no fortalecimento da economia nordestina e tem capacidade de atuar de forma decisiva no estímulo às empresas de base tecnológica. A aproximação com o Farol Digital sinaliza a construção de pontes entre o sistema financeiro e o ecossistema de inovação. O que se consolida é uma agenda de cooperação que pode ampliar o acesso a crédito, estimular novos investimentos em inovação e acelerar o crescimento das empresas digitais na região. Para que um ecossistema tecnológico avance, é essencial que capital, conhecimento e empreendedorismo caminhem juntos.

NORDESTE – Qual a atual realidade do mercado de TI na Paraíba, considerando João Pessoa e Campina Grande?

JAILDO TAVARES PEQUENO: A economia digital vem se consolidando como um dos principais vetores de desenvolvimento regional no Brasil. No Nordeste, experiências como o Porto Digital, em Recife, e o fortalecimento do hub tecnológico de Fortaleza demonstram como a inovação pode transformar territórios. Nesse contexto, a Paraíba começa a estruturar um ambiente próprio de inovação, apoiado na força de suas universidades, no crescimento de empresas de tecnologia e na articulação entre diferentes atores do ecossistema. Esse movimento aponta para a consolidação do estado como um dos polos emergentes da economia digital no Nordeste. Nesse cenário, Campina Grande construiu, ao longo de décadas, uma reputação sólida na formação de talentos e na produção científica na área de computação, sendo reconhecida nacionalmente por sua tradição acadêmica e pela contribuição histórica de suas instituições de ensino e pesquisa. Por outro lado, João Pessoa vive um momento de forte expansão empresarial no setor de tecnologia. A capital tem se consolidado como um polo crescente de empresas digitais, startups e serviços tecnológicos, beneficiada pela qualidade de vida, pela infraestrutura urbana e também pela pujança científica e acadêmica de suas instituições de ensino e pesquisa, que contribuem diretamente para a formação de talentos e para o desenvolvimento de soluções inovadoras. Não podemos deixar de observar também o avanço de outras macrorregiões paraibanas que vêm estruturando seus potenciais no campo dos negócios tecnológicos, como o Brejo, o Cariri e o Sertão. Nesse último, cidades como Patos, Sousa e Cajazeiras começam a despontar com iniciativas ligadas ao empreendedorismo, à inovação e à formação de talentos, indicando que a economia digital paraibana começa a se interiorizar e a ganhar escala em diferentes territórios do estado.

NORDESTE – Há informações de que João Pessoa reúne maior quantidade de empresas de TI do que Campina Grande. Isso procede?

JAILDO TAVARES PEQUENO: Nos últimos anos João Pessoa tem apresentado um crescimento muito expressivo no número de empresas de tecnologia. Dados da Secretaria da Receita Municipal (SEREM/PMJP) e do mapeamento do ecossistema indicam que o número de empresas do setor de TI sediadas na capital passou de 227 empresas em 2015 para 874 em 2024, representando um crescimento de aproximadamente 385% em menos de uma década (fonte: Observatório de Dados de Ciência, Tecnologia e Inovação, SECITEC/PMJP). Projeções do gráfico da evolução do período 2015-2024 indicam a existência, no final de 2025, de mais de 1.500 empresas ativas do setor. Além do aumento no número de empresas, houve também, no período estudado pelo Observatório, expansão econômica significativa do setor, com crescimento relevante no faturamento das empresas (896%) e na arrecadação de ISS (720%) relacionada às atividades tecnológicas. A Lei Complementar 113/2017 (Capítulo VII), que concede redução da alíquota até o limite de 2% no ISS por serviços prestados por empresas de TI sediadas em João Pessoa, tem se mostrado bastante eficaz para essa expansão. O que temos, na prática, é um ecossistema estadual cada vez mais integrado, no qual diferentes cidades cumprem papéis complementares no fortalecimento da economia do conhecimento.

NORDESTE – Como estimar financeiramente o patamar de negócios das empresas de TI na Grande João Pessoa?

JAILDO TAVARES PEQUENO: Embora ainda existam desafios na consolidação de dados estruturados sobre todo o setor, já é possível afirmar que o mercado de tecnologia da Grande João Pessoa movimenta atualmente centenas de milhões de reais por ano, considerando empresas de software, serviços digitais, startups e negócios baseados em tecnologia. João Pessoa vem consolidando sua posição como um polo emergente de tecnologia e inovação no Nordeste. Estimativas baseadas na expansão das empresas do setor e no dinamismo do ecossistema indicam que a economia local de tecnologia e inovação já alcançou aproximadamente R$ 1 bilhão em movimentação econômica acumulada até dezembro de 2025, refletindo a crescente maturidade do ambiente empreendedor, a ampliação de startups e empresas tecnológicas e o fortalecimento das conexões entre universidades, instituições e mercado. O ritmo de crescimento do ecossistema permite projetar um cenário ainda mais robusto para os próximos anos. Além do volume financeiro, é importante destacar o impacto qualitativo desse setor. A tecnologia gera empregos de alta qualificação, amplia a produtividade econômica e aumenta a capacidade de inserção global das empresas locais, o que torna esse segmento estratégico para o futuro da economia regional.

NORDESTE – De que forma a inteligência artificial tem fortalecido as estratégias das empresas paraibanas?

JAILDO TAVARES PEQUENO: A inteligência artificial não representa apenas uma nova tecnologia, mas uma transformação profunda na forma como empresas produzem valor, tomam decisões e se posicionam no mercado global. Mais do que uma ferramenta tecnológica, ela está redefinindo a maneira como as empresas pensam inovação, produtividade e competitividade.  Empresas que conseguem integrar essas tecnologias aos seus processos passam a ter ganhos significativos de eficiência e capacidade de competir em mercados nacionais e internacionais.

NORDESTE – Embora de iniciativa privada, o Farol Digital tem inspiração ou reforço no Sebrae. Qual a realidade atual?

JAILDO TAVARES PEQUENO: O movimento que deu origem ao Farol Digital começou a partir de uma iniciativa do Sebrae Paraíba, que realizou um levantamento das empresas de base tecnológica em todo o estado. Esse mapeamento acabou aproximando empresários, empreendedores e instituições de diferentes regiões da Paraíba, criando uma sinergia importante entre os diversos atores do ecossistema de inovação. A partir dessa articulação inicial, surgiu a mobilização do setor privado e de lideranças do ambiente tecnológico para fortalecer a integração entre empresas, universidades e instituições de apoio ao desenvolvimento econômico. Nesse contexto, o Farol Digital nasce como um espaço de articulação estratégica do ecossistema. O Sebrae permanece como um parceiro importante nesse processo, especialmente no apoio ao empreendedorismo, às startups e à estruturação de ambientes de inovação. Nosso objetivo é consolidar um modelo de governança colaborativa no qual empresas, universidades, instituições públicas e organizações de apoio atuem de forma integrada para impulsionar a economia da inovação e ampliar o protagonismo tecnológico da Paraíba.

NORDESTE – Quais são os principais desafios do ecossistema digital?

JAILDO TAVARES PEQUENO: Apesar dos avanços, ainda existem desafios importantes que precisam ser enfrentados para consolidar a economia digital na região. Entre eles destacam-se:

  • ampliação do acesso a capital e investimentos para startups e empresas inovadoras
  • formação e retenção de talentos em tecnologia
  • maior integração entre universidades e empresas
  • fortalecimento da internacionalização das empresas digitais
  • transformação de patentes em produtos e negócios
  • regulamentação mais clara e segura para pesquisadores participarem de deep techs
  • consolidação de políticas públicas de inovação de longo prazo.

O ponto positivo é que a Paraíba possui um conjunto de ativos estratégicos muito relevantes: universidades fortes, talentos qualificados, empresas inovadoras e um ambiente institucional cada vez mais favorável. O que estamos construindo na Paraíba não é apenas um conjunto de empresas de tecnologia, mas um novo modelo de desenvolvimento econômico baseado em conhecimento, inovação e colaboração. O ecossistema Farol Digital surge como um ponto de convergência desse novo ciclo econômico, conectando conhecimento, tecnologia e empreendedorismo para posicionar João Pessoa e sua região metropolitana no mapa da nova economia digital brasileira.

*Entrevista publicada na edição 230 da revista NORDESTE.

 

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Ana Júlia Silva

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