Por Luciana Leão, coluna Valor Sustentável
Na semana passada, os dados do ranking do saneamento mostraram um retrato conhecido, mas ainda alarmante: milhões de brasileiros seguem sem acesso adequado à coleta e ao tratamento de esgoto, enquanto perdas de água e deficiências na infraestrutura comprometem a qualidade de vida e a competitividade das cidades. O diagnóstico é claro e o impacto vai além da saúde pública. Afeta produtividade, atratividade econômica e sustentabilidade urbana.
Agora, na Semana Mundial da Água, celebrada em 22 de março, o debate avança para um novo estágio: a busca por soluções concretas capazes de garantir segurança hídrica e desenvolvimento sustentável. A mobilização empresarial liderada pelo Pacto Global da ONU – Rede Brasil evidencia que a gestão da água deixou de ser apenas um tema ambiental e passou a ocupar posição estratégica nas agendas econômica e social.
O Brasil já começa a apresentar respostas estruturadas. Iniciativas brasileiras voltadas ao acesso à água, recuperação de nascentes e uso eficiente dos recursos hídricos foram selecionadas para integrar a agenda internacional da UN Water Conference 2026, principal fórum global dedicado à governança dos recursos hídricos.
Os projetos fazem parte do Movimento +Água, criado em 2022 dentro da estratégia Ambição 2030, que reúne empresas com a meta de impactar positivamente mais de 100 milhões de pessoas por meio da ampliação do acesso à água potável, saneamento e segurança hídrica. A iniciativa consolida a participação do setor produtivo como agente relevante na construção de soluções estruturais para o país.
Na prática, essas iniciativas mostram que a agenda da água já saiu do campo das intenções e entrou na fase da implementação. Entre os projetos selecionados estão ações de ampliação do saneamento em áreas vulneráveis, recuperação de nascentes e adoção de tecnologias para abastecimento em regiões isoladas.
Exemplos como a Aegea Saneamento que tem expandido o acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário em comunidades de baixa renda; a Ypê investe na proteção de bacias hidrográficas e na recuperação de áreas de preservação; e a Coca-Cola Brasil apoia soluções de abastecimento em localidades remotas, com uso de tecnologias adaptadas às realidades regionais.
O debate ocorre em um contexto de crescente pressão sobre os recursos naturais. Relatórios recentes do World Economic Forum alertam para o risco de uma possível “falência hídrica” global nas próximas décadas, enquanto estudos do World Wide Fund for Nature indicam que, se os padrões de consumo dos países de alta renda fossem replicados em escala mundial, seriam necessários 4,5 planetas Terra para sustentar a demanda por recursos naturais.
Nesse cenário, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6, que trata do acesso universal à água e ao saneamento, consolidou-se como prioridade estratégica para governos, empresas e instituições multilaterais.
Para especialistas e lideranças do setor, a mobilização empresarial já representa um passo relevante diante da urgência do tema. Segundo Gabriela Otero, gerente de Água, Oceano e Resíduos do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, a resposta à crise hídrica exige articulação permanente entre os diferentes atores da sociedade.
“A crise hídrica é uma realidade que exige ação imediata e coordenada. As empresas brasileiras, por meio do Movimento +Água, estão demonstrando que é possível inovar e contribuir significativamente para um futuro mais seguro hidricamente. Nosso compromisso vai além do simbolismo do Dia Mundial da Água; queremos inspirar um movimento contínuo de conscientização e soluções, levando a voz do setor produtivo à agenda internacional para mostrar o poder da colaboração e o impacto que o Brasil pode ter globalmente.”
Segundo a executiva, as iniciativas lideradas pelas empresas integram um esforço coletivo voltado à construção de um país mais resiliente e com maior segurança hídrica, reforçando a necessidade de transformar a gestão da água em uma agenda permanente de desenvolvimento.
Para o Nordeste, essa discussão assume caráter ainda mais estratégico. A região convive historicamente com eventos extremos, como secas prolongadas e irregularidade no abastecimento, ao mesmo tempo em que busca ampliar sua base produtiva em setores como indústria, turismo, energia e agronegócio. Sem investimentos consistentes em saneamento e gestão eficiente dos recursos hídricos, o potencial de crescimento regional permanece condicionado a limitações estruturais.
O ranking do saneamento trouxe evidências. A agenda da água aponta caminhos. O desafio, agora, é transformar diagnóstico em ação, planejamento em investimento e compromisso em resultado. Porque, no mundo contemporâneo, garantir água de qualidade não é apenas uma questão ambiental. É uma decisão estratégica para o futuro das cidades, da economia e das próximas gerações.

