Cláudio Marinho, ex Secretário de Ciência e Tecnologia, explica como Jarbas Vasconcelos gerou as condições de estrutura e inovação histórica na direção do futuro
Por Walter Santos
A capital de Pernambuco convive com os efeitos surpreendentes de avanços estruturais e inovação tecnológica sustentável com a expansão do Porto Digital, no Recife Antigo, muito além da instalação em Aveiros, em Portugal. A Revista NORDESTE entrevista o consultor responsável pela implantação deste revolucionário equipamento de ciência e tecnológica. Acompanhe:
Revista NORDESTE – Os dados provam que historicamente, há 26 anos atrás, no governo Jarbas Vasconcelos, o Sr como Secretário de Ciência e Tecnologia consolidou a implantação do PORTODIGITAL no Recife Antigo. Que memórias e dados diferenciados o Sr traz à baila? Quanto o governo investiu na época e o que significou entregar 16 andares do BANDEPE ao segmento de TI pernambucano?
CLÁUDIO MARINHO – Memórias da ousadia de um grupo de empreendedores cívicos, que viam muito além dos seus CNPJs e CPFs, sejam eles públicos ou privados. Que enfrentavam a questão do desenvolvimento em uma cidade de uma região periférica do Brasil — o Nordeste. Nunca foi fácil conviver com o preconceito e a descrença, entre os nossos conterrâneos mesmos, sobre a possibilidade de “vida inteligente” fora do Centro-Sul do Brasil. Principalmente quando se trata de vida inteligente na academia, capaz de produzir ciência, tecnologia e inovação. Mais ainda: capaz de trazer os problemas da sociedade para dentro das universidades, especialmente os mais complexos, e procurar soluções. E ainda mais: soluções capazes de gerar empresas, empregos e renda. Sem preconceito de envolver a universidade com esse objetivo. Fizemos isso com a criação do Porto Digital.
NORDESTE – E os investimentos financeiros à época?
CLÁUDIO MARINHO – O governador Jarbas Vasconcelos destinou 33 milhões de reais dos recursos da privatização da CELPE em 2000 (hoje equivaleria a 140 milhões) para o Porto Digital. E ainda cedeu o prédio do BANDEPE para atrairmos grandes empresas, criar empregos e receber aluguéis para manter a nossa entidade de governança do distrito de inovação, o NGPD. Hoje administramos 32 mil m2 de prédios retrofitados, dos 230 mil m2 já retrofitados, direta ou indiretamente, pelas empresas do Porto Digital, criando o maior programa de regeneração de centros históricos do Brasil.
NORDESTE – Vivíamos no século passado diante da vanguarda de um tempo que, comparada aos dias atuais, era tudo muito sem evolução do tamanho da atualidade. O que vcs discutiam e olhando à frente quais as bases dos avanços de época?
CLÁUDIO MARINHO – O Porto Digital não surge “do nada”. Surge de um caldo cultural (uma “sopa primordial”, na metáfora biológica do surgimento da vida) que já unia a capacidade empreendedora dos professores do Centro de Informática da UFPE, a articulação de políticas públicas no governo do estado e o empreendedorismo cívico de lideranças empresariais de informática. Como coordenador de políticas públicas,tanto na prefeitura (fui diretor na Emprel, empresa de informática da prefeitura) como no governo do estado (fui secretário de C&T), sempre me associei aos professores empreendedores do Centro de Informática (Silvio Meira na liderança). Professores que se antecipavam na internalização para o Brasil das principais tendências globais (foi o caso da linguagem Java, por exemplo).
NORDESTE – O que identificar muito além da ânsia de realizar políticas inovadoras?
CLÁUDIO MARINHO – A rigor, por outro lado, esse pioneirismo criou problemas. O Estado sofria com uma severa fuga de cérebros para megacidades como São Paulo. A crença ortodoxa da época ditava que apenas metrópoles poderiam ancorar a inovação. O Recife estava prestes a provar na prática que não precisava ser assim. O gatilho de reposicionamento ocorreu em 1996, com a criação do CESAR, desenhado como uma ponte entre a academia e o mercado pelos professores do Centro de Informática. A sopa primordial estava fervendo e pronta para transbordar, mas precisava de uma âncora territorial. Aí surgiu o Porto Digital.
NORDESTE – Cá pra nós, o que significa o CESAR liderado pelo genial Silvio Meira para a conjuntura de TI global, e não só nordestina?
CLÁUDIO MARINHO – Sílvio é meu amigo-irmão de Taperoá. Como sou de Patos, gosto de dizer que Taperoá é da “região metropolitana de Patos”. Ele discorda. Talvez baseado na força poética de Ariano Suassuna. Migrantes para o Recife, nos apaixonamos pela cidade. O que fazemos juntos tem muito a ver com essa paixão. O CESAR, sociedade civil sem fins lucrativos, criado por Silvio e outros professores do Centro de Informática da UFPE para resolver problemas complexos da sociedade, é a presença em primeira hora da universidade no Porto Digital. É um dos melhores centros de inovação do Brasil.
Com a diferença de que tem uma universidade dentro – a CESAR School – com mais de 3 mil alunos em curso de engenharia de computação e design de negócios. O CESAR chegou ao Porto Digital com 100 pessoas. Hoje tem 1.400, tem conexões internacionais com a Europa e Estados Unidos e contribui para a regeneração sustentável (paga aluguéis com receita corrente) de prédios históricos no bairro do Recife, ocupando 15 mil m2.
NORDESTE – Como a desinformação e o desenfreado método de uso financeiro nas redes manipulam dados e sociedades na base atual? De que forma a IA e o acervo da cultura digital estão construindo uma sociedade global distorcida distante de valores cidadãos?

CLÁUDIO MARINHO – Tudo que acontece com as rupturas estruturais no mundo real da economia e sociedade tem sempre a possibilidade da interpretação do copo meio-cheio, meio-vazio. Esse é também o caso do impacto da IA sobre o que fazemos, como aprendemos, como vivemos em sociedade. Foi assim com a criação da internet. Eu gostava de dizer, lá no começo dos anos 90, quando conectamos a prefeitura do Recife à internet nascente (Jarbas foi o primeiro prefeito do Brasil a ter correio eletrônico), que a internet era o correspondente ao “big bang” da criação da vida multicelular, 500 milhões da anos atrás. Era uma imagem forte para atrair atenção dos nossos empreendedores para as oportunidades de negócios que se apresentavam.
Com a IA, a minha imagem preferida é a de Silvio Meira, o cisne vermelho ‘descreve eventos de ruptura sistêmica, ultra-imprevisíveis em sua manifestação e escala, cujas sementes, paradoxalmente, são cultivadas pela própria comunidade que virá a ser maciçamente impactada.” Silvio se refere à comunidade dos produtores de soluções digitais, que está mais uma vez em ebulição. Mas vamos agora ao copo meio cheio. Diante do cisne vermelho, ainda bem que contamos com o Porto Digital, mais uma vez confirmando o acerto da nossa escolha estratégica de 2000.
Acompanho a contribuição do chileno César Hidalgo, pesquisador do MIT que desenvolve a teoria da complexidade econômica. Para ele e seus colaboradores, a riqueza de uma região não se baseia no volume bruto do que ela produz, mas na diversidade e sofisticação do conhecimento que ela consegue combinar. Esse conhecimento produtivo — especialmente o “conhecimento tácito” (aquele que não está nos manuais, mas reside na mente das pessoas) — é altamente “viscoso” e geograficamente restrito. Nesse processo de recombinação de ideias, a serendipidade — a capacidade de fazer descobertas felizes e inusitadas ao acaso — atua como um acelerador fundamental.
NORDESTE – Comparativamente…
CLÁUDIO MARINHO – No Porto Digital, essa dinâmica foi intencionalmente projetada através da malha urbana histórica do centro do Recife. Quando visitantes e trabalhadores do ecossistema de inovação se esbarram nos cafés, nas calçadas ou em eventos locais (como no nosso festival Rec‘n’Play de tecnologia e cultura), o acaso favorece as mentes preparadas. É o encontro fortuito que funde blocos de conhecimento distintos, elevando a complexidade do software e serviços produzido pelo ecossistema do Porto Digital. Isso é, em última análise, o que nos permite estar preparados para os desafios e impactos da IA. E vamos contribuir efetivamente para as estratégias nacionais nesta nova etapa evolutiva (eu diria até revolucionária) das tecnologias digitais.
NORDESTE – Vivemos a exposição de uma guerra entre EUA/Israel x Irã que pode levar-nos a uma terceira guerra mundial? Ou não? Qual o perigo armamentista ronda a realidade do Brasil e os 9 estados nordestinos? O que o futuro nos reserva?
CLÁUDIO MARINHO – Estamos efetivamente num momento de vigorosa revisão geopolítica e geoeconômica da ordem mundial. O Nordeste brasileiro incluído. A disputa pelo nosso sol e vento, fundamentais para a geração de energia limpa necessária para alimentar o “cisne vermelho” da IA com data centers, está nos levando, os estados nordestinos, a uma disputa maluca pela exportação de energia com efeitos irrisórios na criação de empregos e brutalmente extrativista do nosso recurso mais escasso – a água. Triste ironia. O nosso conterrâneo Celso Furtado deve estar dando voltas no túmulo.
*Entrevista publicada na edição 230 da revista NORDESTE.

