Crise recoloca o gás natural no centro da transição energética

Projeto Sergipe Águas Profundas, da Petrobras, ilustra como o gás natural volta a ganhar peso nas estratégias energéticas diante do aumento da demanda global por eletricidade e da necessidade de fontes capazes de complementar a expansão das energias renováveis

Por Luciana Leão

A crescente demanda mundial por eletricidade e as incertezas no mercado internacional de energia têm recolocado o gás natural no centro das estratégias de transição energética. Considerado menos poluente que outros combustíveis fósseis e capaz de complementar fontes renováveis intermitentes, o insumo volta a ganhar protagonismo no planejamento energético de diversos países.

No Brasil, projetos de exploração em águas profundas ganham relevância nesse cenário. Um dos exemplos é o Sergipe Águas Profundas (Seap), conduzido pela Petrobras no litoral de Sergipe.

Em entrevista à revista NORDESTE, o secretário de Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia do estado, Valmor Barbosa, explica como o projeto atravessou diferentes etapas até permanecer no planejamento estratégico da Petrobras, após um período marcado por adiamentos e mudanças no modelo de contratação.

“O projeto passou por diversos adiamentos pela ausência de proponentes nas licitações para construção e operação das plataformas FPSO, até chegar ao atual modelo BOT. Nesse processo, o Governo de Sergipe mobilizou o Ministério de Minas e Energia, a Agência Nacional do Petróleo e o Congresso Nacional para garantir a execução do empreendimento”, afirma.

De acordo com o secretário, essa articulação contribuiu para que a Petrobras mantivesse o projeto em seu plano estratégico, com previsão de início da exploração em 2030.

A estatal anunciou decisão de investimento após a apresentação de propostas no processo licitatório para as unidades flutuantes de produção, que serão operadas pela empresa holandesa SBM Offshore.

As plataformas terão capacidade de produção estimada em 18 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia, além de 240 mil barris de petróleo diários. O projeto inclui ainda um gasoduto com capacidade equivalente para escoamento da produção.

Até o momento, segundo Barbosa, não houve anúncio de alterações no cronograma do empreendimento diante do cenário internacional.

Combustível de transição

No debate sobre a transformação da matriz energética global, o gás natural vem sendo apontado como um combustível de transição capaz de apoiar a expansão das fontes renováveis.

Eneva Hub Sergipe, no município de Barra dos Coqueiros. Foto: clickpetroleoegas

“O gás natural é um aliado no processo de transição energética porque contribui para a redução das emissões de carbono. Em comparação com outras matrizes fósseis, é menos poluente e pode funcionar como um intermediário até a consolidação de fontes mais limpas, como a eólica e a solar”, afirma Barbosa.

Outra vantagem, segundo ele, é a flexibilidade operacional da infraestrutura de gás, que permite ativação rápida da geração energética quando há variações na produção das fontes renováveis.

Valmor Barbosa, secretário de Desenvolvimento, da Ciência e Tecnologia de Sergipe. Foto: Erick O’Hara

Essa característica torna o combustível especialmente relevante em sistemas elétricos cada vez mais dependentes de geração solar e eólica, cuja produção varia de acordo com as condições climáticas.

Sergipe possui cerca de 20% das reservas prováveis de gás natural do Brasil, o que amplia o potencial do estado nesse setor.

“Aproveitar esse potencial significa não apenas um direcionamento econômico, mas também um posicionamento social. Queremos transformar essas riquezas em oportunidades concretas para os sergipanos”, afirma o secretário.

Nesse contexto, o governo estadual estruturou uma Agenda Estratégica de Transição Energética, elaborada em parceria com a FGV Energia, centro de estudos da Fundação Getulio Vargas.

O documento servirá de base para o Plano Estadual de Transição Energética, cuja apresentação está prevista ainda para este semestre.

Cadeia produtiva e novos investimentos

Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados (Fafen)
utiliza gás natural como insumo e tende a estimular atividades industriais associadas. Foto: Igor Matias

Além do papel estratégico na matriz energética, o desenvolvimento do gás natural em Sergipe também pode impulsionar uma cadeia produtiva diversificada no estado.

Segundo Barbosa, o insumo é utilizado tanto como fonte energética quanto como matéria-prima industrial, especialmente em setores como vidro, cerâmica e indústria química.

Um exemplo citado pelo governo estadual é a retomada das operações da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados (Fafen), que utiliza gás natural como insumo e tende a estimular atividades industriais associadas.

“O gás natural serve de combustível para fábricas de grande porte e também como insumo para indústrias químicas. A partir disso surgem diversas atividades secundárias, como logística, transporte, construção civil, engenharia, pesquisa, tecnologia e qualificação profissional”, afirma.

Outro movimento acompanhado pelo governo estadual é o leilão de reserva de capacidade promovido pela Agência Nacional de Energia Elétrica, previsto para contratar novas usinas termelétricas movidas a gás natural, carvão mineral e hidrelétricas.

A expectativa é que o processo possa viabilizar a implantação de uma nova usina termelétrica a gás em Sergipe, ampliando a geração de energia e a atividade econômica no estado.

Mais do que exportar gás

A estratégia do governo sergipano é ampliar o uso do insumo dentro do próprio estado, evitando que a produção local seja destinada apenas ao abastecimento de outras regiões do país.

“O governador Fábio Mitidieri costuma dizer que Sergipe não quer ser o ‘uber do gás’. Não queremos apenas entregar o gás para o resto do país. Estamos trabalhando para que ele seja utilizado também aqui, fortalecendo a indústria e gerando empregos”, afirma o secretário.

Integração com energias renováveis

Embora o gás natural esteja no centro das estratégias de transição energética do estado, Sergipe também busca ampliar o uso de fontes renováveis.

Atualmente, cerca de 98% da matriz energética estadual já é composta por fontes renováveis, segundo dados do governo.

Fafen (Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados). Foto: Igor Matias

O estado apresenta condições favoráveis para expansão da geração solar e eólica, com níveis elevados de irradiação solar e potencial de ventos.

Estudos conduzidos pelo SergipeTec também avaliam projetos relacionados à produção de hidrogênio verde para aplicação em setores industriais e de transporte.

Entre as iniciativas analisadas está a produção do combustível a partir de biomassa aquática na bacia do Rio São Francisco.

Também está em planejamento a criação de um polo de produção de hidrogênio verde nas proximidades do Terminal Marítimo Inácio Barbosa, dentro da Zona de Processamento de Exportação do estado.

Ambiente de negócios

Para transformar o potencial energético em desenvolvimento econômico concreto, o governo estadual também busca fortalecer o ambiente de negócios no setor.

Segundo Barbosa, Sergipe avançou na regulamentação do mercado livre de gás e já possui consumidores livres operando no estado.

Outro movimento em andamento envolve negociações para a aquisição da participação da empresa japonesa Mitsui na distribuidora estadual de gás Sergas.

A operação permitiria ao estado ampliar sua autonomia nas decisões estratégicas sobre o setor e buscar maior competitividade tarifária.

“A atração de investidores passa pela modicidade tarifária. Precisamos garantir um ambiente competitivo e propício à abertura do mercado”, afirma.

Para o secretário, a consolidação do projeto Sergipe Águas Profundas pode ser decisiva para acelerar esse processo. “Quanto mais o projeto demonstra condições reais de execução, maior é o interesse de investidores em se instalar e expandir em Sergipe”, conclui.

*Matéria publicada na edição 230 da Revista NORDESTE. 
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Ana Júlia Silva

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