Guerra e segurança energética global: desafios e oportunidades para o Brasil e o Nordeste

Demanda global por eletricidade cresce e abre nova fronteira de desenvolvimento para a região Nordeste na transição energética

Por Ana Júlia Silva e Luciana Leão 

A escalada das tensões no Oriente Médio e a volatilidade do mercado internacional de petróleo recolocaram a segurança energética no centro das decisões estratégicas de governos e empresas.

Em meio à instabilidade geopolítica e interrupções pontuais em rotas estratégicas do comércio de energia, como o Estreito de Ormuz, o mundo volta a priorizar a garantia de abastecimento.

Nesse cenário, o Brasil surge como um dos países que podem ganhar relevância no mercado global de energia. Atualmente entre os dez maiores produtores de petróleo do planeta, o país ampliou sua produção nos últimos anos com o avanço do pré-sal, em projetos liderados pela Petrobras, além da possível exploração de petróleo na Margem Equatorial, uma extensa faixa litorânea que vai do litoral do Rio Grande do Norte até o Amapá, próxima à linha do Equador. A região é considerada uma das principais apostas do país para novas descobertas de petróleo.

     

Além disso, o Brasil reúne uma característica singular: ao mesmo tempo em que amplia a produção de petróleo, possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, baseada majoritariamente em fontes renováveis.

Brasil no novo mapa do petróleo

Em 2025, o país atingiu a marca de produção média nacional de 3,8 milhões de barris de petróleo por dia, resultado impulsionado principalmente pelo desempenho do pré-sal, que já responde por cerca de 80% do volume total.

Apesar do volume expressivo, a produção elevada não significa que o Brasil esteja totalmente protegido das oscilações do mercado internacional de petróleo. Mesmo sendo exportador líquido, o país continua exposto às variações do preço do barril, que seguem a lógica global.

Nesse contexto, a capacidade de refino se torna um fator estratégico para garantir o abastecimento interno, especialmente em períodos de instabilidade do mercado internacional. Quando o barril sobe, o custo da matéria-prima utilizada pelas refinarias também aumenta, elevando o preço final dos combustíveis.

De acordo com o especialista em educação financeira Ricardo Hiraki, em análise exclusiva para a Revista NORDESTE, as refinarias brasileiras, como a de Mataripe (BA) e a RNEST (PE), são ativos estratégicos que ajudam a reduzir o risco de desabastecimento em momentos de crise.

“Em choque global, o canal de preço continua dominante”, afirma o especialista. Ou seja, mesmo com a produção elevada, o país ainda sente rapidamente os efeitos das oscilações do preço internacional.

Pressão em setores da economia

Quando há alta externa do petróleo, o impacto tende a se espalhar por diversos setores da economia, pressionando fretes, alimentos e até custos de energia.

Com o combustível mais caro, toda a cadeia — do transporte de mercadorias ao varejo — acaba sendo afetada. Setores como construção civil, logística e distribuição de alimentos costumam sentir rapidamente os efeitos da alta nos custos.

“A velocidade do repasse depende de estoque, safra, concorrência e margem do varejo, mas em choque persistente geralmente avalio que o repasse possa aparecer em semanas, não em anos”, ressalta Hiraki.

A alta externa do petróleo causa impacto em diversos setores da economia

Biocombustíveis podem atuar como amortecedor

Diante da alta provocada pela valorização do petróleo no mercado internacional, os biocombustíveis podem ganhar espaço como alternativa para o consumidor.

Ricardo Hiraki, especialista em educação financeira

Segundo Ricardo Hiraki, no caso do etanol, a competitividade costuma ser avaliada pela regra prática do mercado: o combustível tende a valer mais a pena quando custa até cerca de 70% do preço da gasolina, embora essa relação varie de acordo com o veículo.

No Nordeste, porém, Hiraki aponta que o etanol funciona mais como um alívio pontual do que como uma solução estrutural, já que a oferta regional é menor em comparação com o Centro-Sul, principal polo da produção sucroenergética do país.

Ainda assim, a presença do biocombustível cria uma alternativa para o consumidor e pode atuar como um amortecedor parcial em momentos de alta da gasolina.

Nordeste ganha protagonismo energético

Mesmo com essas limitações, o Nordeste vem ganhando protagonismo no debate energético brasileiro, especialmente pelo avanço das fontes renováveis.

A região concentra grande parte da geração de energia eólica do país e segue ampliando os investimentos em energia solar.

Esse avanço pode gerar benefícios indiretos em um cenário de petróleo caro. Ricardo Hiraki avalia que o Nordeste já se consolidou como um dos principais polos de geração eólica e solar do país e, em alguns períodos, chega a produzir energia acima da própria demanda. Esse excedente reforça a segurança do sistema elétrico e aumenta a atratividade da região para indústrias eletrointensivas, que dependem de grande volume de energia.

Isso, no entanto, não significa que a região esteja imune aos efeitos da alta do petróleo. Segundo Hiraki, setores como transporte, logística, produção de alimentos e parte da indústria ainda dependem fortemente de diesel e derivados.

Na prática, “há um ganho estrutural no lado elétrico”, mas a economia regional ainda sofre os impactos dos combustíveis fósseis.

Crises também podem gerar oportunidades

Mesmo assim, momentos de instabilidade no mercado global de energia podem abrir novas oportunidades econômicas.

Para o especialista, preços elevados do petróleo tendem a acelerar decisões de investimento em eficiência energética, eletrificação de equipamentos e contratação de energia renovável no mercado livre.

Nesse cenário, o Nordeste surge como um dos ambientes mais competitivos do país para novos projetos industriais ligados à transição energética.

“A oportunidade maior é “industrial”: data centers, H2V, amônia verde, minerais processados e hubs logísticos energizados por renováveis”, afirma Hiraki.

O potencial, no entanto, depende de avanços em infraestrutura de transmissão e de maior agilidade nos processos de licenciamento, fatores considerados decisivos para evitar gargalos no escoamento da energia gerada.

Na avaliação de Ricardo Hiraki, a região também pode ampliar a capacidade de atrair capital externo para projetos de energia limpa.

“O Nordeste concentra grande parte dos novos projetos eólicos/solares e tem histórico de recordes de geração, o que dá escala e previsibilidade para investidores”, pontua.

No entanto, ele alerta para desafios como limitações na rede de transmissão e episódios de restrição na geração — o chamado curtailment — que podem tornar o capital mais seletivo, privilegiando projetos com maior garantia de conexão ao sistema elétrico.

O sol do Nordeste na nova geopolítica da energia

Se, por um lado, a instabilidade geopolítica reforça a importância do petróleo no curto prazo, por outro a transformação estrutural do sistema energético global aponta para uma direção clara: a rápida expansão da eletricidade e das fontes renováveis.

A demanda global por eletricidade deve crescer em média 3,6% ao ano até 2030, impulsionada pela eletrificação da indústria, pela expansão dos veículos elétricos e pela rápida multiplicação de data centers e aplicações de inteligência artificial.

A projeção consta do relatório Electricity 2026, divulgado pela Agência Internacional de Energia (IEA), que aponta a energia solar fotovoltaica como a fonte que mais expandirá a geração elétrica no mundo ao longo desta década.

Nesse cenário de transformação do sistema energético global, países com abundância de recursos renováveis passam a ocupar posição estratégica. O Brasil , especialmente o Nordeste, reúne condições naturais favoráveis para ampliar seu protagonismo na transição energética e atrair novos investimentos em geração limpa.

Energia solar lidera expansão global

Segundo o relatório da IEA, a energia solar será responsável pela maior expansão da geração elétrica mundial até o final da década, adicionando mais de 600 terawatts-hora (TWh) por ano ao sistema global.

Rodrigo Sauaia é co-fundador e presidente executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica

O avanço é tão acelerado que a geração solar deverá ultrapassar as fontes eólica e nuclear já em 2026 e superar a hidrelétrica até 2029, consolidando-se como um dos pilares da matriz elétrica mundial.

Para a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), os dados confirmam que o mundo vive uma nova etapa da transição energética, marcada pela intensificação da eletrificação da economia.

“A eletrificação da economia global está se intensificando e a energia solar se destaca como a principal protagonista desse novo ciclo. Trata-se da fonte mais competitiva, rápida de implantar e alinhada às metas de descarbonização”, afirma Rodrigo Sauaia, CEO da entidade.

Outro elemento fundamental para essa transformação é o avanço das tecnologias de armazenamento.

De acordo com o estudo da IEA, mais de 600 gigawatts de projetos de baterias estão atualmente em estágio avançado nas filas de conexão às redes elétricas ao redor do mundo.

Oportunidade à vista

No Brasil, o crescimento do consumo de eletricidade também segue a trajetória de expansão.

Projeções do Plano Decenal de Expansão de Energia, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), indicam aumento médio anual de cerca de 3,3% na demanda por eletricidade até 2035.

Para o setor de energia solar, esse cenário abre uma janela estratégica para ampliar a participação das fontes renováveis na matriz energética nacional.

“O Brasil, por sua abundância de recursos solares, tem uma oportunidade estratégica de liderar esse movimento”, destaca Ronaldo Koloszuk, presidente do Conselho de Administração da ABSOLAR.

Apesar do potencial, especialistas apontam desafios estruturais que ainda precisam ser enfrentados para garantir a expansão sustentável do setor.

“É preciso superar desafios como os cortes de usinas renováveis sem o devido ressarcimento aos empreendedores prejudicados e os obstáculos de conexão dos pequenos sistemas, muitas vezes atribuídos à capacidade limitada das redes”, afirma Sauaia.

Segundo ele, também é necessário destravar o mercado de armazenamento energético no país, com legislação e regulamentação adequadas, além de acelerar investimentos em infraestrutura de transmissão e modernização das redes elétricas.

Nordeste no centro da transição energética

Dentro desse novo cenário global, o Nordeste brasileiro desponta como uma das regiões mais estratégicas para o avanço das energias renováveis no país.

A região reúne algumas das melhores condições naturais do mundo para a geração de energia limpa, combinando elevados índices de radiação solar com regimes de vento altamente favoráveis à produção de energia eólica.

A liderança em energia eólica é um exemplo dessa transformação. Estados como Rio Grande do Norte, Bahia e Ceará estão entre os maiores produtores dessa fonte no Brasil.

Ao mesmo tempo, a geração solar cresce rapidamente. Grandes complexos fotovoltaicos instalados em estados como Piauí e Bahia vêm consolidando a região como uma das principais fronteiras de expansão da energia solar no país.

Outro vetor emergente dessa nova economia energética é o desenvolvimento de projetos de hidrogênio verde. Portos estratégicos como o Porto do Pecém, no Ceará, e o Porto de Suape, em Pernambuco, estruturam hubs industriais voltados à produção desse combustível de baixo carbono, considerado uma das apostas globais para descarbonizar setores intensivos em energia.

Uma vantagem estratégica

Em um mundo que busca simultaneamente reduzir emissões e garantir segurança energética, a transição para fontes renováveis passa a ocupar posição central nas estratégias de desenvolvimento econômico.

Nesse contexto, a abundância de sol e vento no Nordeste deixa de ser apenas um recurso natural e passa a representar um ativo estratégico.

Se conseguir transformar esse potencial em infraestrutura, inovação e investimentos, a região poderá ampliar sua participação na matriz energética brasileira e consolidar-se como um dos principais polos globais de produção de energia limpa nas próximas décadas.

O avanço da eletricidade no mundo

Dados do relatório da Agência Internacional de Energia

  • Demanda global por eletricidade crescerá 3,6% ao ano até 2030
  • Energia solar adicionará mais de 600 TWh por ano ao sistema global
  • A fonte deve ultrapassar eólica e nuclear até 2026
  • Até 2029, deve superar também a geração hidrelétrica
  • Mais de 600 GW de projetos de armazenamento em baterias estão em desenvolvimento

Nordeste na vanguarda da transição energética

  • Lidera a geração eólica no Brasil
  • Expansão acelerada de parques solares em Piauí e Bahia
  • Projetos de hidrogênio verde em portos estratégicos da região
  • Um dos melhores regimes de vento e radiação solar do mundo
  • Crescente interesse de investidores internacionais

 

*Matéria publicada na edição 230 da Revista NORDESTE. 

 

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Ana Júlia Silva

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