Nosso cinema e o Agente Secreto, por José Natal

No campo da arte a luta apaixonada e a dedicação extrema pela conquista de um Oscar é contagiante. Não raro atinge os extremos da sensibilidade, aguça os sentimentos de tal ordem que aos mais afetos qualquer desatenção pode ser a gota d’água. Literalmente, trocadilhos à parte, trata-se de “uma batalha após a outra”, e justos e “pecadores”, seja de qualquer “valor sentimental”, se acham habilitados e árbitros de questões que apenas aqueles mais tocados pela arte podem definir resultados.

Pela ótica do italiano Ricciotto Canudo, pesquisador e crítico de cinema, que em 1911 escreveu o “O manifesto da sétima arte”, o cinema é uma síntese objetiva e real de seis outras, igualmente tocantes a sensibilidade humana, com teor cultural e informações relevantes; a música, dança, pintura, escultura, arquitetura e literatura (poesia).

A fotografia vem em oitavo lugar. Canudo nasceu em janeiro de 1877 e morreu na França em 1923, aos 46 anos, deixando o legado candidamente aceito, sem polêmicas. A premiação do Oscar, consagração máxima a uma obra cinematográfica, no imaginário popular do Brasil, se equivale a uma conquista de uma copa do mundo de futebol.

No meio cultural, artístico, e também em segmentos políticos, a conquista é multifacetada e eleva o ufanismo nacional, como tem que ser. Governantes se vangloriam quando isso acontece, e muitos reivindicam méritos como se deles fossem. Demagogia barata, uma vez que muitos deles de cinema gostam mesmo é da pipoca, mal diferenciado a uma obra de Glauber Rocha e uma outra qualquer de uma série de ”Os Trapalhões”.

De qualidade artística, intelectual, roteiro e direção inquestionável, a obra de Kleber Mendonça “O Agente Secreto”, indicado a quatro categorias concorrendo ao prêmio, não foi agraciada. Como várias outras obras, de igual competência, também não foram.

Nenhum demérito ao filme “O Agente Secreto”, um documento valioso reconstruindo cenários e personagens históricos com riqueza de detalhes. Como sempre acontece, a frustração e o desamparo invadem espaços e levam fãs e admiradores a um lamento chorado, imensa decepção. Como se fosse uma derrota pessoal.

Não deveria ser assim. O simples fato do cinema brasileiro chegar no alto da prateleira internacional, competindo de igual para igual com relevantes instituições do setor, já nos tira do ostracismo cultural, e revela perspectivas bem mais positivas.

Alvo de críticos de cinema, que debatem em mesas de bar, a Academia de Artes e Ciência Cinematográfica, fundada em 11 de maio de 1927 (99 anos), tem um passado a zelar, e dele ela parece cuidar. Para que oficialize a escolha de um filme vencedor a Academia envolve cerca de 10 mil especialistas, entre atores, produtores, editores, roteiristas e diretores que respiram cinema 24 horas por dia, em 18 filiais diferentes mundo afora.

O primeiro filme premiado com o Oscar pela Academia – Wings, dirigido por William Wellman em 1929 (97 anos) – aconteceu no Hotel Roosevelt em Hollywood, com a presença de 270 convidados. Logicamente sem as insinuações maliciosas e irônicas ao mundo político da época, e também distante do que hoje se aborda em cerimônia tão luxuosa e imponente. Ao contrário do futebol, o fator campo não influencia em nada.

Manifestação da torcida também é ignorada, mesmo que para alguns a chamada corrente positiva tenha lá sua força. Questão da crença de cada um, livre arbítrio. Disputa do Oscar difere do Reality Big Brother, onde figurantes se desnudam de caráter e princípios, e se submetem ao julgamento público, sem filtros e sem rodeios.

A competição pelo Oscar é saudável, ilustra, ensina e muitas vezes acalenta e desperta sonhos adormecidos, “sonhos de trem.” O talento brasileiro se fez presente, competiu e mostrou sua arte, com dignidade e registro da realidade de uma época. O Oscar não veio, ficou a mensagem.

José Natal
Jornalista
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