Portugal terá a maior representação de sempre na mais importante feira do setor imobiliário do mundo. Realiza-se em Cannes de 9 a 13 de março.
Por Frederico Gonçalves
O Palais des Festivals, em Cannes (França), volta a ser o anfitrião daquela que é a maior e mais importante feira do setor imobiliário do mundo. O MIPIM reúne durante cinco dias – começa esta segunda-feira e termina dia 13 de março de 2026 – vários ‘players’ do ‘real estate’, desde promotoras, consultoras e investidores imobiliários, passando por câmaras (municípios/regiões) e outras entidades públicas e privadas.
“A participação no MIPIM é uma ferramenta estratégica de promoção dos territórios e de captação de investimento, empresas e talento, bem como para a internacionalização das suas empresas”, diz ao idealista/news Rui Ramos-Pinto Coelho, representante do MIPIM em Portugal em parceria com a Meridiana, revelando que Portugal vai ter a maior participação de sempre.
“Portugal mantém uma imagem sólida e atrativa junto dos investidores internacionais”, adianta o gestor, salientando que estão registadas mais de 160 empresas e entidades públicas nacionais. Segundo Rui Ramos-Pinto Coelho, a edição deste ano do MIPIM, a 36ª, terá como temas centrais a habitação e os data centers, dois segmentos que refletem desafios estruturais e transformações profundas do setor imobiliário global. Em análise estará, antecipa, a crise de acesso à habitação, que “é transversal a grande parte das economias desenvolvidas e está no centro do debate internacional”, nomeadamente a nível nacional.
Confira e entrevista
O que esperar da edição deste ano do MIPIM, a nível geral? Que temas/assuntos estarão em foco e em debate?
A edição de 2026 do MIPIM terá como temas centrais a habitação e os data centers, dois segmentos que refletem desafios estruturais e transformações profundas do setor imobiliário global.
À semelhança dos últimos anos, a habitação terá uma conferência dedicada – ‘Housing Matters’ – que se realizará na tarde de 9 de março. Este fórum reunirá investidores, promotores, autoridades locais, associações e especialistas em urbanismo para debater o desfasamento entre oferta e procura, as tendências do mercado, soluções colaborativas para habitação acessível e novos modelos habitacionais adaptados às necessidades atuais.
Já os data centers afirmam-se como um dos segmentos mais dinâmicos do imobiliário, impulsionados pelo crescimento exponencial da digitalização e da Inteligência Artificial (IA).
Naturalmente, outros segmentos estruturantes do imobiliário – escritórios, turismo, retalho, logística e projetos de uso misto – também estarão amplamente representados.
Será a maior participação de sempre de Portugal no evento? Que stands, empresas e regiões vão estar presentes?
Sim. A participação portuguesa tem vindo a crescer de forma consistente e, em 2026, registaremos a maior representação de sempre. Estarão presentes com stand próprio:
Além disso, multinacionais como a CBRE, Savills, Cushman & Wakefield, JLL e a EY contarão com equipas portuguesas integradas nos seus stands internacionais.
“Segundo os últimos números a que tive acesso estão registadas cerca de 166 empresas e entidades públicas portuguesas”
Há empresas e/ou regiões que irão participar pela primeira vez?
Sim. As Comunidades Intermunicipais do Oeste, da Lezíria do Tejo e da Região de Coimbra. Recorde-se que, em 2025, a Câmara Municipal de Santarém participou pela primeira vez e isoladamente e conseguiu captar um relevante projeto logístico. Em 2026, optou por integrar a Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo, reforçando a estratégia coletiva. É um sinal claro de que os territórios reconhecem a importância da promoção internacional estruturada.
Lamentamos, contudo, a ausência do Algarve – uma marca com grande notoriedade internacional – bem como da Madeira, Açores, Braga, Guimarães, Setúbal, Évora ou Aveiro, regiões que, como outras, poderiam beneficiar significativamente em ser mais conhecidas pelos investidores e promotores internacionais.
No ano passado, o projeto EntreCampos foi distinguido com o prémio “Best New Mega Development” nos MIPIM Awards. Um projeto que volta agora a estar presente no evento. Poderá Portugal conquistar algum prémio este ano? Há projetos candidatos, além do Verdelago Resort?
Em 2025, o projeto EntreCampos venceu o “Best New Mega Development” nos MIPIM Awards – um feito extraordinário, que se fica a dever à qualidade do projeto e da equipa que o está a implementar – numa categoria altamente competitiva e dominada por projetos de grande escala mundial. Em 2026, o Verdelago Resort é finalista na categoria “Best Hospitality, Tourism and Leisure Project”, sendo o único projeto português em competição.
O turismo é um dos segmentos mais dinâmicos do imobiliário português, e o reconhecimento internacional deste novo projeto reforça a perceção de qualidade do nosso mercado. Independentemente do resultado, ser finalista já constitui um importante selo de credibilidade.
O que têm a ganhar as entidades públicas e as empresas portuguesas com a presença no MIPIM? Quais as vantagens de estarem presentes no evento?
O MIPIM é a principal feira internacional de investimento imobiliário e promoção de cidades e regiões (já na sua 36ª edição). Em poucos dias e num único local, permite:
Gerar leads e oportunidades de negócio; Contactar investidores, promotores e operadores internacionais;Promover territórios, projetos e marcas; Estabelecer parcerias estratégicas; Conhecer as tendências globais; Obter informação de mercado e benchmarking;
“Para Portugal (…), a internacionalização é absolutamente crítica. A participação no MIPIM é uma ferramenta estratégica de promoção dos territórios e de captação de investimento, empresas e talento, bem como para a internacionalização das suas empresas. Acreditamos que os profissionais dos setores imobiliário e das cidades têm muito a ganhar com a participação no MIPIM”
Para Portugal, enquanto economia de dimensão média/pequena, a internacionalização é absolutamente crítica. A participação no MIPIM é uma ferramenta estratégica de promoção dos territórios e de captação de investimento, empresas e talento, bem como para a internacionalização das suas empresas. Acreditamos que os profissionais dos setores imobiliário e das cidades têm muito a ganhar com a participação no MIPIM.
São esperadas novidades em termos de projetos a apresentar no evento, nomeadamente em Portugal?
Sim, é expectável que surjam novos projetos relevantes. Contudo, muitas entidades optam por revelar detalhes apenas durante o evento, maximizando impacto mediático e comercial.
Que sentimento existe, por parte dos investidores imobiliários, relativamente ao setor em Portugal? Algo mudou nos últimos tempos, ou o país continua a ser visto como sendo atrativo e um bom refúgio de investimento?
Portugal mantém uma imagem sólida e atrativa junto dos investidores internacionais. Os indicadores macroeconómicos positivos – superávit orçamental, redução da dívida pública, crescimento acima da média europeia, pleno emprego e inflação controlada – reforçam a confiança dos investidores. A própria revista The Economist destacou Portugal como “Economia do Ano de 2025”, reconhecendo o desempenho do país no contexto internacional.
“Portugal mantém uma imagem sólida e atrativa junto dos investidores internacionais. (…) Para 2026, as perspetivas mantêm-se positivas, com Portugal bem posicionado como destino preferencial de investimento”
Naturalmente, a contínua subida dos preços imobiliários tem efeitos ambivalentes: por um lado, valida quem já investiu e reforça a perceção de valorização; por outro, afasta investidores mais oportunistas que procuram ativos subavaliados.
Como avalia o ano de 2025 em termos de investimento imobiliário em Portugal? E o que esperar do ano de 2026?
Segundo o relatório Market 360º 2025-2026 da JLL, 2025 foi um ano robusto para o investimento imobiliário em Portugal, com volumes acima da média de longo prazo. O retalho liderou o investimento, seguido por uma recuperação significativa dos escritórios. O residencial registou o maior volume dos últimos cinco anos, impulsionado sobretudo por residências de estudantes.
Para 2026, as perspectivas mantêm-se positivas, com Portugal bem posicionado como destino preferencial de investimento.
Muito se tem falado na crise na habitação ou de acesso à habitação em Portugal, sendo um problema que afeta também outros países. É um tema que passa ao lado do MIPIM ou é-lhe dada a devida atenção?
Sem dúvida. A habitação é um dos temas centrais do evento. A conferência ‘Housing Matters’, no dia 9 de março, é inteiramente dedicada a este desafio global e entre 10 e 13 de março o tema continuará presente em múltiplas sessões e reuniões bilaterais. A crise de acesso à habitação é transversal a grande parte das economias desenvolvidas e está no centro do debate internacional.
Uma pergunta, quiçá, à margem do evento: as medidas anunciadas pelo Governo para aumentar a oferta de casas no país, como a redução do IVA na construção, terão impacto? Quais destacaria? Será este um tema que, de certa forma, estará no centro das atenções no MIPIM, ou nem por isso, por ser muito localizado (relativo a Portugal)?
A redução do IVA na construção de habitações até determinado valor foi uma reivindicação antiga do setor (APPII, APEMIP, etc.) e faz sentido do ponto de vista económico e social. Se a habitação é um bem essencial, não pode ser tratada fiscalmente como um produto de luxo.
A fiscalidade é um dos fatores mais relevantes na formação de preços. Em muitos casos, a carga fiscal total (IVA, IMT, IMI, Imposto do Selo e taxas diversas) representa uma fatia muito significativa do preço final. Contudo, medidas fiscais isoladas não resolvem o problema estrutural. São também necessários:
Disponibilização de terrenos a preços acessíveis;Regulamentação mais racional;Licenciamento mais célere e previsível;Planejamento urbano eficaz;Colaboração público-privada;Maior segurança jurídica no arrendamento.
Por outro lado, se os incentivos fiscais forem temporários (por exemplo, apenas três anos), o seu impacto pode ser limitado, dada a duração dos ciclos de licenciamento e construção.
“Certamente no MIPIM serão apresentadas muitas medidas e projetos desenvolvidos por países, regiões e cidades para fazer face à falta de habitação acessível. Infelizmente, como o Governo português não estará presente as suas medidas não serão apresentadas (…)”
Certamente no MIPIM serão apresentadas muitas medidas e projetos desenvolvidos por países, regiões e cidades para fazer face à falta de habitação acessível. Infelizmente, como o Governo português não estará presente as suas medidas não serão apresentadas, mas o presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Carlos Moedas, e outros líderes políticos locais portugueses irão certamente apresentar os projetos e as medidas que estão a desenvolver nesse sentido, designadamente na Conferência de Portugal, que será no dia 11 de março.
Sinta-se à vontade para acrescentar qualquer declaração que considere pertinente.
A pergunta sobre o projeto EntreCampos fez-nos lembrar que esse projeto só foi possível devido à decisão estratégica da CML de alienar um terreno público devoluto [antiga Feira Popular de Lisboa], permitindo que a Fidelidade desenvolvesse um projeto estruturante para a cidade. A operação gerou receita significativa para o município, possibilitando o investimento noutros projetos, atraiu investimento externo, criou emprego e riqueza e está a revitalizar uma área urbana relevante.
Em contraste, continuam a existir milhões de metros quadrados de património público (imóveis e terrenos) devoluto em Portugal, muitos em localizações urbanas estratégicas, que permanecem abandonados durante décadas. Esta situação contribui para a escassez de oferta, para o aumento de preços e para a perda de oportunidades de investimento.
Uma política mais ativa de valorização e mobilização desses ativos imobiliários públicos deveria ser uma prioridade, pois poderia ter um impacto muito relevante na economia e no mercado habitacional nacional. Contribuindo, em simultâneo, para atrair investimento externo, criar riqueza e emprego, melhorar significativamente a qualidade de vida nas áreas urbanas, mitigar riscos e aumentar a oferta de habitação, escritórios e equipamentos.

