Entre a autonomia e a violência: os desafios contemporâneos das mulheres

Por Luciana Leão*

No calendário global, o Dia Internacional das Mulheres costuma ser marcado por homenagens, discursos e celebrações. Mas a data também cumpre um papel essencial: provocar reflexão sobre as condições reais de vida das mulheres e os obstáculos ainda presentes em diferentes dimensões da sociedade.

Dois estudos recentes ajudam a elucidar essa realidade: um sobre mercado de trabalho e outro sobre violência de gênero , revelando avanços importantes, mas também desigualdades persistentes.

Uma pesquisa da Consultoria Maya, realizada com base no cadastro da plataforma de educação corporativa Koru, mostra que a autonomia financeira é hoje a principal prioridade para muitas mulheres. O levantamento, que ouviu 180 participantes de diferentes perfis etários e etnorraciais, aponta que 37,3% delas colocam a independência econômica no topo de suas ambições.

A pesquisa revela uma mudança significativa na percepção sobre projetos de vida. Em segundo lugar aparece a saúde mental e física (31%), seguida da realização profissional. Ter um relacionamento amoroso, tradicionalmente tratado como objetivo central para muitas mulheres em narrativas sociais do passado, surge como prioridade para menos de uma em cada dez entrevistadas.

Para a diretora da consultoria, Paola Carvalho, o conceito de autonomia vai além da renda ou do consumo. Trata-se, sobretudo, de capacidade de decisão. Ter recursos próprios significa poder escolher caminhos, romper relações abusivas e oferecer melhores condições de vida para a família. Em síntese, autonomia financeira representa liberdade de escolha.

Contudo, o próprio ambiente de trabalho, ao qual deveria ser um espaço de emancipação, ainda reproduz desigualdades estruturais. Apesar de frequentemente apresentarem níveis de escolaridade elevados e qualificação profissional sólida, muitas mulheres relatam enfrentar barreiras culturais e institucionais para avançar na carreira.

Entre as entrevistadas, uma parcela relatou ter sido preterida em promoções em razão da maternidade, evidenciando que a conciliação entre trabalho e vida familiar continua sendo um fator de discriminação. A lógica relatada por algumas participantes indica uma hierarquia implícita nas organizações: primeiro homens, depois mulheres sem filhos e, por último, mães.

Outro dado alarmante é a incidência de violência psicológica no ambiente profissional. Mais de sete em cada dez mulheres disseram ter sofrido algum tipo desse comportamento, incluindo comentários sexistas, questionamentos sobre capacidade técnica, interrupções constantes em reuniões e apropriação de ideias.

Essa cultura organizacional também se reflete na distribuição de poder dentro das empresas. A maior parte das mulheres permanece em posições operacionais ou intermediárias, como coordenação e gerência. Apenas 5,6% alcançam cargos de diretoria ou posições executivas de alto nível, os chamados C-levels. O funil hierárquico evidencia que a presença feminina diminui drasticamente à medida que o poder decisório aumenta.

Se o mercado de trabalho ainda apresenta desafios estruturais, o cenário da violência de gênero revela uma dimensão ainda mais dramática da desigualdade.

Relatório divulgado pela Rede de Observatórios da Segurança aponta que 12 mulheres, em média, são vítimas de violência por dia em nove estados monitorados: Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.

Ao longo de 2025, foram 4.558 mulheres vítimas de algum tipo de violência, número que representa crescimento de 9% em relação ao ano anterior. O levantamento também aponta um aumento expressivo da violência sexual: foram 961 casos registrados, alta de 56,6% em comparação a 2024. Mais da metade das vítimas (56,5%) eram meninas e adolescentes entre 0 e 17 anos.

Outro dado que revela a dimensão estrutural do problema é a relação entre vítimas e agressores. Em 78,5% dos casos, a violência foi cometida por companheiros ou ex-companheiros, evidenciando que grande parte dos episódios ocorre dentro de relações afetivas.

O estudo também registrou 546 feminicídios e sete transfeminicídios, compondo um total de 1.004 mortes quando somados homicídios, feminicídios e transfeminicídios.

Além da gravidade dos números, o relatório aponta lacunas importantes na produção de dados. Em 86,7% dos casos analisados, não havia identificação de raça ou cor das vítimas, o que dificulta a formulação de políticas públicas capazes de enfrentar as desigualdades raciais presentes na violência de gênero.

Os pesquisadores defendem que as estratégias atuais de enfrentamento precisam ir além da resposta policial ou judicial após o crime. Entre as recomendações estão investimentos em educação sobre igualdade de gênero nas escolas e iniciativas capazes de transformar padrões culturais que ainda naturalizam a violência contra mulheres.

A análise conjunta dos dois estudos revela um paradoxo contemporâneo. De um lado, mulheres cada vez mais conscientes da importância da autonomia econômica e da construção de trajetórias próprias. De outro, estruturas sociais que ainda limitam essa liberdade, seja por meio da desigualdade no trabalho, seja pela violência que atinge milhões de brasileiras.

Neste contexto, o Dia Internacional das Mulheres deixa de ser apenas uma data simbólica e se reafirma como um convite permanente à transformação. Garantir autonomia, segurança e igualdade de oportunidades não é apenas uma agenda feminina. Trata-se de um desafio social, econômico e civilizatório.

*Com informações da Agência Brasil
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Luciana Leão

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