Por Luciana Leão, Coluna Valor Sustentável
O mundo fala em transição verde, mas ainda opera sob a lógica do descarte. A economia circular cresce, gera empregos, movimenta cadeias produtivas e, ao mesmo tempo, revela as contradições de um sistema que ainda consome mais do que consegue reintegrar ao ciclo produtivo. A disputa não é apenas ambiental. É econômica.
Segundo relatório recente “Emprego na Economia Circular”, elaborado por Circle Economy, Banco Mundial, Organização Internacional do Trabalho e Parceria das Nações Unidas para Ação em Economia Verde, hoje, cerca de 142 milhões de pessoas trabalham em atividades ligadas à economia circular no planeta, o que representa 5,8% dos empregos globais, excluído o setor agrícola.
Mas há um ponto crucial: dentro desse universo, 74 milhões ainda atuam na informalidade. Ou seja, a economia circular já tem escala, mas não completou sua transição estrutural. Gera renda, mas ainda precisa consolidar estabilidade, proteção social e integração produtiva.
O paradoxo se amplia quando se observa que a taxa global de circularidade caiu de 9% em 2018 para 6,9% em 2025. Empregos avançam; o sistema produtivo, nem tanto. A pergunta que se coloca é direta: estamos mudando o modelo ou apenas ajustando suas bordas?
É nesse ambiente de tensão que o Nordeste brasileiro começa a ocupar posição estratégica. A região, historicamente associada à escassez e à vulnerabilidade climática, encontra na lógica da regeneração uma oportunidade de reposicionamento econômico. Não por discurso, mas por prática territorial.
O Brasil é citado no estudo internacional por iniciativas que integram catadores à formalidade e estruturam políticas nacionais de economia circular. No plano regional, o Fórum Nordeste de Economia Circular(FNEC) tornou-se espaço de articulação entre governos, cooperativas, empreendedores e lideranças sociais, conectando os nove estados à agenda global de emprego verde. Por falar em FNEC, o próximo acontece em Fortaleza, de 25 a 27 de março.
O diferencial nordestino está na base produtiva. Ao incluir cooperativas, juventudes, mulheres, lideranças indígenas e comunidades tradicionais no centro da estratégia, a região amplia o conceito de desenvolvimento. A circularidade deixa de ser apenas técnica e passa a ser social.
Os dados globais reforçam essa necessidade. Mulheres representam apenas 26% da força de trabalho circular. Ampliar essa presença não é retórica, é estratégia de crescimento. Diversidade, aqui, significa ampliar soluções, mercado e inovação.
Lembrando que a economia circular exige mais que reciclagem. Pressupõe redesenho produtivo, investimento em tecnologia, reorganização logística e mudança cultural no consumo. É transformação sistêmica ou não será transformação.
Olhando para os nove estados nordestinos e o nosso semiárido sempre foram territórios de adaptação. Agora pode se consolidar como territórios de regeneração. Se o mundo ainda busca coerência entre discurso e prática, o Nordeste começa a demonstrar que inclusão produtiva, sustentabilidade e geração de emprego podem caminhar juntas.
A virada circular é, no fundo, uma escolha de modelo. E o Nordeste parece disposto a disputar esse novo capítulo da economia com identidade própria e visão estratégica.
Esse é o nosso recado.

