A crise do Banco Master no país dos coitadinhos, por José Natal

Desconfiada e surpresa, a nossa comunidade, por mais que admita que escândalos mal explicados, denúncias de corrupção e longas investigações nunca devidamente esclarescidas, façam parte do nosso cotidiano, vez por outra um caso mais requintado surpreende e choca com intensidade o cidadão comum.

Principalmente aquele pouco sintonizado com o mundo onde as peripécias financeiras de grosso calibre acontecem regularmente, sem alarde e que envolvam patentes de primeira grandeza.

As tramóias e as mal intencionadas operações comandadas por Daniel Vorcaro (Banco Master) de um lado, e o Banco Regional de Brasília (BRB), de outro, ganharam o nome sofisticado de “Operação Compliance Zero”.

Uma espécie de picaretagem com um DNA sofisticado, onde sem muito esforço, a Polícia Federal encontrou até agora, pegadas de raposas felpudas, integrantes dos três poderes da República, áudios e imagens pertubadoras de personalidades tidas como acima de qualquer suspeita, e que sinaliza também um futuro preocupante, uma vez que por mais que anuncie providências compensatórias (inclusive financeiras), a curto prazo, impossível recuperar danos morais ali identificados.

Analistas experientes, atuando junto a seguimentos políticos, empresariais, grupamentos sociais e, principalmente, a órgãos responsáveis pelo setor econômico, taxam o acontecimento como um dos piores e mais danosos a sociedade civil.

Com o processo investigativo, em várias escalas, ainda em andamento e com sinais evidentes de longa duração, o caso MASTER escancara uma triste e vergonhosa realidade brasileira, que ano após ano parece redobrar o interesse em aprimorar absurdos sem medir consequências. Para o espanto e desassossego da comunidade voltada a outras atividades, e com informações superficiais sobre bastidores de trama tão cheia de encrencas, o episódio é visto como mais um caso tenobroso de escândalo a engrossar a lista de questões mal resolvidas que muitos parecem fazer de tudo para que caia no esquecimento.

A negociata mal cheirosa Master-BRB, como todos sabem, com incrível velocidade arrebanhou em poucos dias (ou poucas horas) um amontoado de nomes ilustres do cenário nacional, premiando vários deles com acusações comprometedoras, que carecem de investigações.

Além de Vorcaro, que chegou ser preso e hoje perambula por Brasília com tornozeleira eletrônica, nomes ilustres da suprema corte, ministros de estado, deputados, senadores e ainda dezenas de personalidades permanecem na mira aguçada da Polícia Federal, que não desgruda.

Também está na luneta do Congresso Nacional, que pede CPIs para o caso. Ibaneis Rocha, Governador de Brasília, até hoje ainda explicando com dificuldades pormenores dessa operação trilionária, com seu nome nas manchetes, negativamente. Um balanço resumido, e objetivo, dessa operação desastrosa, que mexe com os sentidos e leva pessoas equilibradas a questionar até onde tudo isso vai chegar, em nada melhora o Brasil em qualquer “ranking”.

Ao contrário, nos diminui, nos torna pequeno. Em 1966, Emil Farhat, jornalista, escritor e publicitário , com o livro “O país dos coitadinhos”, fez um ensaio visionário de ciência política e economia.

A obra analisa com precisão a cultura brasileira, argumentando que o atraso do país se deve a mentalidade do ” coitadismo”, sinônimo claro da fuga de responsabilidades. Nas páginas escritas por Farhat, 60 anos atrás, análises feitas a época podem ser perfeitamente adaptadas para os dias de hoje. (Farhat nasceu em setembro de 1914, e morreu maio do ano 2000, aos 86 anos).

São mesmo coitadinhos todos aqueles que, com a visão embaçada pelas vantagens e sonhos dolarizados, vagam por aí iludidos por contas bancárias mal administradas, por agentes desprovidos de ética e alterando táticas, buscando lucros e zombando dos desinformados. Há também uma ingênua esperança de que, se um dia algo der errado, tudo será esclarecido, culpados serão punidos e a justiça, mesmo que tardia, se fará presente, e atuante. Coitadinhos.

José Natal
Jornalista

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Walter Santos

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One thought on “A crise do Banco Master no país dos coitadinhos, por José Natal

  1. openlibrary 2 de março, 2026 at 9:21

    O caso MASTER realmente evidencia falhas graves no sistema financeiro e político, chocando especialmente quem acompanha superficialmente esses acontecimentos. Fica a pergunta: quais medidas efetivas podem ser adotadas para responsabilizar os envolvidos e evitar que escândalos desse porte continuem prejudicando a sociedade civil sem punições concretas?

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