Plano Clima: ambição tímida para um problema urgente, por Luciana Leão

Coluna Valor Sustentável

Por Luciana Leão 

 

Passado o Carnaval, o Brasil costuma acordar com a ressaca não só da folia, mas também das decisões que avançaram enquanto o país estava distraído. O Plano Clima, apresentado pelo governo federal no início de fevereiro, corre o risco de entrar nessa lista: importante, necessário e insuficiente.

É justo reconhecer o esforço. Em um cenário internacional marcado por recuos e omissões, o Brasil apresentou um plano abrangente, com participação social e coordenação entre ministérios. Isso importa. Mas não basta.

O principal problema do Plano Clima está na ambiguidade. A chamada NDC, Contribuição Nacionalmente Determinada, o compromisso formal que cada país assume no Acordo de Paris para reduzir suas emissões prevê uma redução entre 59% e 67% até 2035.

São duas metas muito diferentes, com implicações profundas para políticas públicas e investimentos. O plano, porém, não deixa claro qual delas o país pretende perseguir.

O silêncio sobre o fim da exploração de combustíveis fósseis é ainda mais preocupante. O documento fala em substituição por fontes renováveis, mas evita qualquer referência clara ao encerramento da exploração, admitindo inclusive a possibilidade de aumento das emissões do setor de energia na próxima década. Em plena emergência climática, esse silêncio é uma escolha política.

Há também concessões evidentes ao agronegócio. O desmatamento em áreas privadas recebe metas mais frouxas do que em áreas públicas, criando um desequilíbrio difícil de justificar do ponto de vista climático. Emissões continuam sendo emissões, independentemente de onde ocorram.

Outros setores repetem o padrão: falta clareza sobre impactos socioambientais no plano de transportes, não há meta para o fim dos lixões no plano de resíduos, e o plano agrícola apresenta números sem explicar como serão alcançados.

Nosso ponto de vista

O Plano Clima organiza o debate, mas evita decisões difíceis. Em vez de liderar com clareza, prefere acomodar interesses no curto prazo. O Brasil pode  e deve ser protagonista na agenda climática, mas isso exige escolhas explícitas, metas claras e coragem política.

Depois da folia, a realidade sempre cobra seu preço. No caso do clima, quanto mais se adia, maior é a conta.

*As opiniões são de responsabilidade dos autores das colunas
Curta e compartilhe:

Luciana Leão

Leia mais →

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *