A evolução do crescimento das exportações no Nordeste entre 2018 e 2025, por Paulo Galvão Júnior

Por Paulo Galvão Júnior (*)

Entre 2018 e 2025, os nove estados do Nordeste apresentaram trajetórias heterogêneas no desempenho de suas exportações para o resto do mundo. O período analisado foi caracterizado por elevada volatilidade cambial, pelos impactos econômicos da pandemia da COVID-19 (2020-2021), pela reconfiguração das cadeias globais de valor e pelos desdobramentos da Guerra na Ucrânia, conflito armado que, após quase quatro anos, continua a produzir efeitos sobre os preços internacionais de commodities agrícolas, minerais e energéticas.

Além desses fatores conjunturais, observou-se também a consolidação de novos vetores estruturais de crescimento regional, tais como a expansão da produção de petróleo onshore e offshore, o fortalecimento da fruticultura irrigada voltada à exportação, o avanço da soja na região do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), a ampliação das atividades mineradoras e a diversificação da base industrial exportadora da região.

Destaca-se, ainda, o recrudescimento das tensões comerciais, especialmente no âmbito da guerra comercial liderada pelos Estados Unidos da América (EUA), em 2025, que contribuiu para maior instabilidade nos fluxos de comércio global, afetando termos de troca, cadeias produtivas e estratégias de inserção externa dos estados nordestinos.

Nesse contexto, o desempenho exportador do Nordeste refletiu tanto a capacidade de adaptação estrutural de suas economias quanto o grau de exposição setorial às oscilações do cenário internacional, evidenciando diferenças relevantes na composição da pauta exportadora e na resiliência econômica entre as nove unidades federativas da terceira maior região do Brasil.

Evolução do Crescimento das Exportações no Nordeste entre 2018 e 2025

A região Nordeste apresenta condições estratégicas altamente favoráveis para a exportação de produtos agropecuários, industrializados e de base tecnológica para mercados nos cinco continentes. Destacam-se fatores como a localização geográfica privilegiada, com menor distância em relação à África, Europa e América do Norte, reduzindo tempo e custos logísticos; infraestrutura portuária consolidada e em expansão, com terminais modernos e capacidade para diferentes tipos de carga; integração multimodal (rodovias, ferrovias, portos e aeroportos), favorecendo o escoamento eficiente da produção; e incentivos fiscais e políticas de atração de investimentos estrangeiros diretos (IEDs), que fortalecem a competitividade das empresas exportadoras.

Nesse contexto, o Nordeste consolida-se como um importante hub logístico e produtivo no cenário do comércio exterior brasileiro, ampliando sua inserção nas cadeias globais de valor e diversificando sua pauta exportadora. Com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), este artigo examina o crescimento acumulado das exportações nordestinas entre 2018 e 2025, destacando o ranking regional, o posicionamento no ranking nacional e os principais determinantes estruturais e conjunturais do desempenho de cada estado:

Tabela 1: Taxa de Crescimento das Exportações Nordestinas (2018-2025)

Ranking

Nordestino

Ranking

Brasileiro

Estado Taxa de Crescimento
Sergipe +503%
Rio Grande do Norte +307%
11º Piauí +70%
12º Alagoas +64%
14º Paraíba +55%
19º Maranhão +31%
20º Bahia +31%
22º Pernambuco +27%
26º Ceará –2%
Fonte: MDIC.

Estados com Crescimento Excepcional

Sergipe (+503%) apresentou o maior crescimento percentual do Nordeste e o segundo maior do Brasil no período analisado. O desempenho reflete, em parte, o efeito-base, decorrente do reduzido volume exportado em 2018, mas também indica mudança estrutural relevante na pauta exportadora nos últimos oito anos.

Os principais vetores de expansão do estado de Sergipe foram o óleo bruto de petróleo; o gás natural liquefeito (GNL); e o suco de laranja concentrado e congelado. A consolidação da cadeia de petróleo e gás pode redefinir de forma duradoura o papel de Sergipe na balança comercial regional. Entretanto, a elevada concentração em commodities energéticas aumenta a exposição às oscilações do mercado internacional.

O Rio Grande do Norte (+307%) registrou o segundo maior crescimento do Nordeste e o terceiro do Brasil. O desempenho resulta da combinação entre a produção de petróleo; a fruticultura irrigada (melão, melancia, manga e mamão); e a expansão das energias renováveis, especialmente eólica. O estado nordestino apresenta estrutura exportadora relativamente mais diversificada, equilibrando agronegócio e energia limpa. A ampliação da inserção em mercados europeus, asiáticos e norte-americanos reforça sua competitividade externa e consolida o RN como polo energético regional.

Estados com Crescimento Consistente

O crescimento do Piauí (+70%) está diretamente associado à expansão da soja na região do MATOPIBA. O estado vem ampliando área plantada, produtividade e escala de produção, consolidando-se como exportador relevante de grãos. A integração logística com portos maranhenses fortaleceu sua competitividade. Trata-se de crescimento estrutural, embora fortemente dependente do ciclo internacional das commodities agrícolas e de condições climáticas favoráveis.

Alagoas (+64%) apresentou recuperação consistente, impulsionada principalmente pelo complexo sucroenergético (açúcar e etanol) e por produtos químicos derivados. O estado demonstra reorganização produtiva após períodos de instabilidade no setor sucroalcooleiro, ampliando sua inserção internacional. Ainda assim, a elevada concentração setorial impõe o desafio da diversificação da pauta exportadora.

A Paraíba (+55%) registrou crescimento relevante, com pauta relativamente diversificada, incluindo produtos minerais (argila, calcário e ilmenita); calçados; açúcar; etanol; sucos de frutas e produtos têxteis. Embora o estado figure como o último exportador nordestino em valor absoluto no ano de 2025, observa-se avanço gradual na competitividade externa, com potencial para expansão em segmentos de maior valor agregado.

Estados com Crescimento Moderado

O Maranhão (+31%) mantém papel estratégico na balança comercial nordestina, destacando-se nas exportações de minério de ferro; soja; e alumínio. Por já possuir base exportadora elevada, o crescimento percentual tende a ser mais moderado. O estado permanece entre os três maiores exportadores da região em termos absolutos. Sustentado por infraestrutura logística relevante, possui vários portos marítimos, como o Porto de Itaqui, o Porto de São Luís e o Porto da Alumar.

A Bahia (+31%) apresenta a pauta exportadora mais diversificada do Nordeste, envolvendo complexo petroquímico, mineração, papel e celulose, soja e frutas (cacau, manga, uva, limão, mamão, melancia). O crescimento moderado reflete maturidade e escala já consolidadas. Como maior exportador regional, suas variações percentuais tendem a ser menores, embora o estado continue estratégico na estrutura produtiva nordestina.

Pernambuco (+27%) registrou expansão moderada, apoiada em produtos químicos, açúcar, etanol e frutas, como manga, melão, melancia, limão e uva. A presença do Complexo Industrial Portuário de Suape mantém relevância logística e industrial. O desafio reside em ampliar competitividade em segmentos de maior intensidade tecnológica e fortalecer a agregação de valor.

Estado com Desempenho Negativo

O Ceará (-2%) foi o único estado nordestino a apresentar retração acumulada no período. O resultado pode estar associado a oscilações na indústria siderúrgica, perda de competitividade em segmentos específicos e ajustes conjunturais no comércio exterior. Apesar da variação negativa, o Ceará preserva base industrial relevante, sendo fundamental a adoção de estratégias voltadas à diversificação produtiva e ao fortalecimento de setores emergentes, como energias renováveis e indústria de transformação.

É preciso destacar que o Ceará foi um dos estados brasileiros mais prejudicados pelas tarifas protecionistas impostas pelo presidente norte-americano Donald Trump no ano de 2025, as quais impactaram de forma significativa a pauta exportadora cearense e comprometeram a competitividade de diversos setores estratégicos no mercado dos EUA.

As medidas tarifárias afetaram diretamente as exportações de aço e produtos siderúrgicos, calçados, castanha de caju processada e pescados (especialmente lagosta e camarão), segmentos econômicos que historicamente mantêm forte inserção no mercado norte-americano e representam parcela relevante da geração de emprego, renda e divisas para o estado.

Vetores Estruturais Identificados na Região Nordeste entre 2018 e 2025

A China é o maior parceiro comercial da região Nordeste, com US$ 6,2 bilhões, seguida pelos EUA (US$ 2,8 bilhões) e pelo Canadá (US$ 2,7 bilhões). Outros grandes parceiros comerciais do Nordeste são a Argentina, com US$ 1,6 bilhão, e os Países Baixos, com US$ 1,1 bilhão, de acordo com os dados de 2025 do MDIC.

Os líderes da região Nordeste precisam promover seminários, palestras e reuniões tanto presenciais quanto virtuais para analisar de forma aprofundada os acordos de livre comércio firmados pelo Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) com a União Europeia (UE), com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) e com a Singapura, bem como discutir eventuais negociações futuras com o Canadá, considerado um dos três principais parceiros comerciais da região, além do Vietnã e da Indonésia, ambas localizadas no Sudeste Asiático.

Esses encontros serão fundamentais para avaliar impactos econômicos, oportunidades de exportação, competitividade regional e estratégias de inserção internacional, garantindo que os interesses do Nordeste sejam devidamente contemplados nas negociações comerciais.

É preciso realizar também uma breve análise do período 2018-2025 e identificar cinco vetores estruturais que condicionaram a dinâmica das exportações nordestinas e ajudam a explicar o desempenho agregado da região, como efeito-base, predominância de commodities, reconfiguração da geografia exportadora, manutenção da centralidade dos grandes exportadores e vulnerabilidade externa estrutural.

Efeito-base

Estados com menor volume exportado no início da série apresentaram taxas percentuais de crescimento mais elevadas ao longo do período. Esse comportamento decorre do chamado efeito-base, pelo qual variações absolutas relativamente modestas produzem expansões percentuais expressivas, sem necessariamente alterar, na mesma proporção, a hierarquia regional em termos absolutos.

Predominância de Commodities

A expansão exportadora esteve fortemente concentrada em commodities energéticas (especialmente petróleo), agrícolas (soja e frutas) e minerais (cobre, níquel, ferro, grafite e quartzo). O Nordeste engloba nove estados, representa cerca de 18% do território do Brasil e tem uma especialização produtiva regional em bens primários, cuja dinâmica depende fortemente do ciclo internacional de preços e da demanda global

Reconfiguração da Geografia Exportadora

Observou-se ampliação da participação relativa de estados historicamente menos representativos na pauta regional, impulsionados por novos investimentos em petróleo, agropecuária de larga escala e mineração. Esse movimento indica maior dispersão espacial da atividade exportadora, ainda que com diferentes níveis de intensidade.

Manutenção da Centralidade dos Grandes Exportadores

Apesar da desconcentração relativa, estados como Bahia (US$ 11,5 bilhões) e Maranhão (US$ 5,4 bilhões) mantiveram papel estratégico em termos absolutos, sustentados por cadeias produtivas consolidadas, como petróleo, complexo soja, celulose, mineração e indústria de transformação, preservando elevada participação no valor total exportado da região.

Vulnerabilidade Externa Estrutural

A elevada dependência de commodities amplia a sensibilidade da região a choques externos de preços, oscilações cambiais, tensões geopolíticas e desaceleração da economia mundial. Essa característica impõe desafios à estabilidade da receita cambial e à previsibilidade do crescimento exportador.

Em conjunto, esses cinco vetores contribuíram direta e indiretamente para que as exportações nordestinas alcançassem US$ 24,8 bilhões em 2025. O resultado nordestino reflete não apenas condições conjunturais favoráveis em determinados momentos do ciclo internacional, mas também transformações estruturais na base produtiva regional, com ampliação da escala, diversificação geográfica interna e maior integração às cadeias globais de valor.

Considerações Finais

Finalizando, entre 2018 e 2025, o Nordeste apresentou dinamismo exportador relevante, embora marcado por forte heterogeneidade. Sergipe e Rio Grande do Norte lideraram o crescimento percentual; Piauí, Alagoas e Paraíba consolidaram trajetória ascendente; Maranhão, Bahia e Pernambuco mantiveram expansão moderada; e o Ceará registrou retração.

Observa-se transformação gradual da estrutura exportadora regional, contudo, o padrão recente reforça a concentração em commodities, evidenciando a necessidade de políticas voltadas à diversificação produtiva, agregação de valor e maior inserção em cadeias globais de maior densidade tecnológica.

Portanto, o desafio estratégico do Nordeste não se limita ao aumento do volume exportado, mas envolve a elevação do conteúdo tecnológico, da complexidade produtiva e da sustentabilidade de sua inserção no comércio exterior.

 

(*) Paulo Galvão Júnior é economista paraibano, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor-secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, membro do Instituto de Inteligência Econômica em São Paulo e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência na capital paraibana. É também colunista da Revista Nordeste, escritor e palestrante. WhatsApp para entrevistas e palestras: +55 (83) 98122-7221.
(**) O conteúdo publicado é de inteira responsabilidade do seu autor.
Curta e compartilhe:

Redacao RNE

Leia mais →

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *