Apesar de um cenário internacional marcado por conflitos e disputas geopolíticas, a cooperação multilateral garantiu avanços ambientais relevantes em 2025. É o que aponta o Relatório Anual do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), divulgado nesta semana.
Segundo a diretora executiva da agência, Inger Andersen, o último ano evidenciou que a ação coletiva segue sendo decisiva diante das crises globais. “Mesmo em um contexto de tensões, o multilateralismo ambiental permanece como o farol que se eleva acima das diferenças geopolíticas e une o mundo em torno de soluções comuns”, afirmou.
Multilateralismo com impacto social e econômico
O relatório destaca que políticas ambientais mais ambiciosas podem gerar benefícios diretos para a saúde pública, a economia e a redução das desigualdades. A 7ª edição das Perspectivas Globais Ambientais conclui que medidas robustas poderiam evitar milhões de mortes e retirar centenas de milhões de pessoas da pobreza e da fome nas próximas décadas.
Outro marco foi a criação do Painel Intergovernamental Ciência-Política sobre Produtos Químicos, Resíduos e Poluição, após três anos de negociações lideradas pelo Pnuma. O novo órgão deverá fornecer evidências científicas independentes para orientar decisões políticas diante do avanço da poluição global.
Avanços na proteção da natureza
Na 7ª sessão da Assembleia da ONU sobre o Meio Ambiente, países aprovaram resoluções sobre minerais críticos para a transição energética, combate a incêndios florestais, resistência antimicrobiana e uso sustentável da inteligência artificial.
Também entrou em vigor, em janeiro de 2026, o acordo internacional para a proteção da biodiversidade em alto-mar, conhecido como BBNJ. Com apoio técnico do Pnuma, mais de 170 mil quilômetros quadrados de áreas naturais passaram a ser protegidos ou geridos de forma sustentável em 2025, beneficiando cerca de 2,3 milhões de pessoas.
Redução de emissões e transparência
No campo climático, o Observatório Internacional de Emissões de Metano identificou vazamentos em instalações de petróleo e gás em 36 países. Após alertas às autoridades, ao menos 19 fugas foram reparadas, interrompendo a liberação estimada de 1,2 mil toneladas de metano por dia.
Além disso, 150 empresas do setor aderiram à Parceria de Metano de Petróleo e Gás 2.0, passando a reportar de forma transparente seus dados de emissões.
Alertas sobre lacunas climáticas
Apesar dos resultados, o Pnuma reforça que os desafios permanecem críticos. O Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2025 indica que, mesmo com os compromissos atuais, o planeta caminha para um aquecimento entre 2,3°C e 2,5°C, ultrapassando o limite de 1,5°C estabelecido como referência científica.
Já o Relatório sobre a Lacuna de Adaptação 2025 estima que os países precisarão mobilizar até US$ 365 bilhões anuais até 2035 para se adaptar aos impactos das mudanças climáticas.
“A ciência é clara: avançamos, mas ainda estamos longe da escala necessária”, afirmou um dos coordenadores técnicos do relatório. “Sem metas mais ambiciosas e financiamento previsível, os ganhos recentes podem não ser suficientes para conter os riscos crescentes.”
Financiamento como condição estratégica
O relatório enfatiza a necessidade de recursos estáveis, previsíveis e flexíveis para sustentar a atuação global da agência. Em 2025, 106 Estados-membros contribuíram para o fundo do Pnuma, com número recorde de países quitando integralmente suas cotas, o que viabilizou ações em 151 países.
Para Andersen, o balanço do ano traz uma mensagem dupla: “Os resultados mostram que a cooperação funciona. Agora, é preciso ampliar compromissos e garantir financiamento consistente para transformar avanços pontuais em mudanças estruturais duradouras.”

