Gil, Caetano, Bad Bunny e o ufanismo latino americano, por José Natal

Por José Natal 

No ano de 1968, com seus vinte e poucos anos, Caetano Veloso, sem lenço e sem documentos, caminhando contra o vento, esboçando uma felicidade ingênua, fez uma colagem de imagens urbanas e exibiu mundo afora seu manifesto sadio contra a repressão, bombas e guerrilhas que assustavam o Brasil e os brasileiros. Não tinha nada nos bolsos e nas mãos, mas, sutil e com alegria, retratou com habilidade suprema a época caótica dos anos 60.

Foi da repressão militar ao consumo de drogas, criticou o conservadorismo musical e até a influência estrangeira em nosso País. A coca cola, bebida americana, talvez a maior marca comercial do mundo, também não escapou da chancela do simbolismo da alienação cultural.

Ainda com os acordes de “alegria, alegria”, pipocando nas emissoras de rádio e na TV, os baianos Gilberto Gil e José Carlos Capinam levaram a Caetano a letra de “Soy loco por ti America”, canção que celebra a identidade latino-americana, desejo de integração cultural e da resistência política.

Feita em portunhol, poetiza a paixão pelo continente com o pano de fundo que reúne liberdade, luta e o dinamismo de seu povo. Na música, a citação “El nombre del hombre es pueblo”, o nome do homem é povo, é uma homenagem metafórica disfarçada a Ernesto Che Guevara, revolucionário marxista, médico, escritor, guerrilheiro e teórico militar, um dos principais líderes da histórica revolução cubana, liderada por Fidel Castro em janeiro de 1959, que tirou do poder o ditador Fulgencio Batista.

Che, como era conhecido mundialmente, nasceu na Argentina em outubro de 1928, e morreu aos 39 anos em 9 de outubro de 1967, em terras bolivianas.

A melodia reúne o povo, a luta e a identidade da língua espanhola, em um período de forte repressão, buscando a liberdade e identidade cultural. O sentimento nativista dos três baianos, abraçando musicalmente com letras e ritmos, hábitos, costumes, tradições, ideologias e toda a versatilidade da Sul América como um marco histórico continental, lembrando com louvor e regalias o amor à terra.

Esbanjando criatividade e com a sensibilidade aflorada em todos os sentidos, os artistas poetas, cada um a seu modo e seu jeito de fazer, acenderam luzes de alerta, com a bandeira da liberdade sempre em primeiro lugar. Nos dias de hoje esses atores navegam na faixa dos 80 anos.

Na época, desfrutavam das benécies, asas do doce pássaro da juventude, com seus vinte poucos, ou quase trinta. O relógio do tempo não para, e nas atitudes recentes do artista de Porto Rico, Benito Antonio Martinez Ocásio, BAD BUNNY para os íntimos, a América Latina está, e sempre esteve aqui, presente, imponente e atuante.

Bunny, ainda meio que um pouco distante do público brasileiro, aos 31 anos (10 de março de 1994) arrebatou multidões no intervalo do SUPER BOWL americano e por algumas horas invadiu milhões de redes sociais mundo afora, liderando audiência de todas as redes de TV do planeta.

Na apresentação do artista, com elevado nível de profissionalismo, Bad Bunny, sem perder o charme, deu de leve um tapa na cara de opressores, radicais e a de todos aqueles que esnobando tecnologias, preconceitos e discriminação ainda fazem cara feia e desdem aos paises da America Latina.

Como era de se esperar, o presidente americano Donald Trump foi o primeiro a vestir a carapuça, e com cara de limão disparou vespas e marimbondos, criticando o show de patriotismo e sutileza do artista que ganhou aplausos do universo consciente e atento às manifestações pra lá de bem direcionadas.

No show, tecnicamente perfeito e coreografado com raro talento, Bad Bunny de alguma forma chamou a atenção pelo descaso das autoridades do primeiro mundo em relação aos países menos abastados financeiramente.

Com um cast de intérpretes sintonizados e interpretações perfeitas, o espetáculo desnudou mazelas que o poder econômico insiste em fechar os olhos quando a pauta inclui países latinos.

Guardadas as devidas proporções, não há como não buscar referências e coincidências as atitudes do artista porto riquenho a aquelas esboçadas tempos atrás pelos brasileiros, igualmente preocupados com questões similares. Um recado bem dado por Bunny, sem reparos.

*José Natal é Jornalista

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