Papo de Economia: As dez maiores taxas de juros reais e nominais no mundo, por Paulo Galvão Júnior

 

Por Paulo Galvão Júnior (*)

A política monetária permanece como um dos temas mais complexos e centrais da economia global, especialmente em um contexto marcado pela persistência inflacionária, pela elevada incerteza fiscal e por instabilidades institucionais em economias emergentes.

Nesse ambiente de incerteza econômica, países emergentes, como o Brasil, a Turquia, a Argentina e a Rússia operam com taxas de juros elevadas, como instrumento de contenção inflacionária e preservação da credibilidade monetária.

Dados recentes compilados pela plataforma MoneyYou permitem uma análise comparativa do custo do dinheiro em países desenvolvidos e emergentes, evidenciando não apenas o nível das taxas de juros praticadas, mas também o grau de risco macroeconômico e as estratégias adotadas pelos bancos centrais diante de choques internos e externos.

A seguir, apresentam-se dois quadros analíticos distintos em relação a janeiro de 2026. O primeiro reúne as dez maiores taxas de juros reais do mundo e o segundo apresenta as dez maiores taxas de juros nominais do planeta, seguidos de uma breve análise do cenário econômico internacional:

 

Quadro 1: As maiores taxas de juros reais do mundo (2026)
Ranking País Juros Reais (%)
Rússia 9,88
Brasil 9,23
Argentina 7,63
Turquia 6,45
México 5,39
África do Sul 4,64
Colômbia 4,22
Filipinas 3,41
Indonésia 3,31
10º Índia 3,06
Fonte: MoneyYou.

 

As taxas de juros reais, calculadas pela diferença entre a taxa de juros nominal e a inflação esperada para os próximos 12 meses, constituem um indicador fundamental do grau efetivo de restrição monetária em uma economia. Juros reais elevados sinalizam uma postura fortemente contracionista, geralmente associada ao esforço de conter pressões inflacionárias e ancorar expectativas dos agentes econômicos.

Políticas monetárias

O predomínio de economias emergentes no ranking mundial, com destaque para Rússia e Brasil, evidencia políticas monetárias restritivas. A Rússia enfrenta desafios relevantes no controle da inflação e na manutenção da estabilidade macroeconômica, recorrendo a juros elevados como instrumento de credibilidade e defesa da sua moeda, o rublo russo.

No caso do Brasil, a posição de destaque entre os maiores juros reais do mundo resulta da combinação entre uma inflação em trajetória de desaceleração e uma taxa básica de juros muita elevada. Esse diferencial produz um dos mais altos juros reais, com impactos diretos sobre o investimento produtivo, o crédito e o crescimento econômico, além do aumento do endividamento e da inadimplência entre pessoas físicas e pessoas jurídicas.

Em um ambiente de juros persistentemente elevados, o Brasil atingiu um recorde histórico de inadimplência em todas as cinco regiões do país. Em dezembro de 2025, o contingente de pessoas com dívidas em atraso chegou a 81,2 milhões, segundo dados da Serasa Experian.

Esse quadro alarmante, que transforma o país em uma espécie de “Alemanha de inadimplentes” na América do Sul, em termos absolutos de população, pois decorre do encarecimento do crédito, da redução da renda disponível das famílias e da deterioração generalizada das condições financeiras, produzindo efeitos adversos diretos sobre o consumo, o investimento e o nível de atividade econômica.

Perfil restritivo

Argentina e Turquia, por sua vez, operam com juros reais elevados em um contexto de baixa credibilidade institucional e histórico de fragilidade monetária. Nesses casos, a política de juros altos assume caráter defensivo, buscando conter a fuga de capitais, a dolarização da economia e a desancoragem das expectativas inflacionárias.

Já as economias asiáticas presentes no ranking global, como Índia, Indonésia e Filipinas, exibem juros reais positivos, porém em patamares mais moderados. Isso indica uma condução monetária relativamente mais equilibrada, que procura compatibilizar o controle inflacionário com a preservação do dinamismo econômico.

As taxas de juros reais influenciam diretamente variáveis-chave da economia, como o comportamento da taxa de câmbio, o fluxo de capitais internacionais e as decisões de consumo e investimento dos agentes econômicos privados, desempenhando papel central na dinâmica dos mercados financeiros e produtivos.

Já as taxas de juros nominais altas expressam de forma mais direta o grau de instabilidade macroeconômica de um país, conforme o Quadro 2 abaixo:

 

Quadro 2: As maiores taxas de juros nominais do planeta (2026)
Ranking País Juros Nominais (% ao ano)
Turquia 37,00
Argentina 29,00
Rússia 16,00
Brasil 15,00
Colômbia 9,25
México 7,00
África do Sul 6,75
Hungria 6,50
Índia 5,25
10º Indonésia 4,75
Fonte: MoneyYou.

 

É preciso revelar também que Turquia e Argentina lideram com ampla margem o ranking mundial de juros nominais, refletindo níveis elevados de inflação, expectativas desancoradas e recorrentes episódios de interferência política sobre a condução da política monetária.

Rússia e Brasil aparecem em posições intermediárias, porém por razões distintas. A economia russa enfrenta os impactos prolongados das sanções econômicas internacionais decorrentes da Guerra na Ucrânia, iniciada em 24 de fevereiro de 2022, o que impõe forte pressão sobre preços, câmbio e estabilidade financeira.

O Brasil, por outro lado, mantém juros elevados, 15,00% ao ano pela quinta vez seguida, como uma escolha estratégica voltada ao controle das pressões inflacionárias, mesmo diante de elevados custos sobre a atividade econômica.

É importante destacar que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), mensurado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), encerrou o ano de 2025 em 4,26%, situando-se abaixo do teto de 4,50% da meta de inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

O “vilão” dos gastos públicos

Outra análise de elevada relevância aponta que essas taxas exorbitantes de juros decorrem, em grande medida, da expansão dos gastos públicos, refletindo um persistente descompasso entre receitas e despesas governamentais, isto é, um elevado déficit fiscal. Esse desequilíbrio fiscal pressiona o endividamento público e eleva a percepção de risco econômico, com taxas de juros mais altas para o financiamento da dívida pública. Como evidência desse processo, a dívida pública federal aumentou de R$ 6,0 trilhões em dezembro de 2022 para R$ 8,6 trilhões em dezembro de 2025, conforme dados da Secretaria do Tesouro Nacional (STN).

Países como Colômbia, México e África do Sul apresentam taxas de juros relativamente altas, porém ainda compatíveis com regimes de política monetária contracionista. Nessas economias em desenvolvimento, observa-se maior previsibilidade institucional e compromisso com metas de inflação. Índia e Indonésia, por sua vez, reforçam a posição de economias emergentes com maior estabilidade relativa e menor volatilidade macroeconômica.

A Hungria é uma nação europeia que deixou de adotar o modelo de economia socialista no final de 1989. O Banco Central da Hungria já anunciou que manterá uma política monetária restritiva, com taxas de juros nominais de 6,50% ao ano, com o objetivo de garantir a estabilidade do mercado financeiro húngaro e alcançar a meta de inflação de 3,00% em 2026.

É importante destacar que a Índia já figura como a quarta maior economia do mundo em termos de Produto Interno Bruto (PIB) nominal e abriga a maior população do planeta. Ainda assim, o país asiático poderá promover reduções adicionais em sua taxa básica de juros, atualmente em 5,25% ao ano, ao longo dos próximos meses, com perspectiva de flexibilização monetária até dezembro de 2026, em consonância com sua dinâmica inflacionária e o espaço fiscal disponível.

Taxa de juros elevada não revela economia forte

A comparação entre juros reais e juros nominais revela um ponto central da economia mundial, de que a taxa de juros elevada não é sinônimo de força econômica, mas, na maioria das vezes, reflete a necessidade de defesa frente a desequilíbrios internos. Em muitos países, juros altos representam o custo imposto pela inflação persistente, pela fragilidade fiscal e pela baixa confiança institucional.

O cenário global aponta para um ambiente ainda predominantemente restritivo, no qual os bancos centrais priorizam o controle inflacionário, mesmo ao custo de menor crescimento econômico no curto prazo.

Para economias emergentes como a brasileira, o desafio central permanece o mesmo, promover uma redução sustentável das taxas de juros nominais, sem comprometer a estabilidade macroeconômica, a credibilidade institucional e o equilíbrio das expectativas econômicas.

É fundamental reconhecer que uma política monetária contracionista tende a desestimular o investimento produtivo das empresas, encarecer o crédito e restringir o consumo das famílias, produzindo efeitos adversos sobre o crescimento econômico e a geração de empregos formais.

Diante desse cenário, a expectativa em relação à próxima reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM), do Banco Central do Brasil (BACEN), em Brasília, recai sobre a possibilidade de início de um ciclo de uma política monetária expansionista.

Na futura reunião de março, o COPOM já sinaliza a possibilidade de iniciar um processo de flexibilização monetária, com eventual redução da taxa Selic. Caso esse movimento se confirme, representará uma inflexão gradual na condução da política monetária, com a transição de uma postura predominantemente contracionista para uma orientação de viés expansionista.

Tal expectativa se sustenta na evidência empírica de uma correlação negativa entre a taxa de juros reais e a taxa de crescimento econômico: à medida que os juros reais recuam, cria-se um ambiente mais favorável à expansão do investimento, ao fortalecimento da demanda agregada, o crescimento do consumo de bens e serviços e, consequentemente, à elevação do PIB brasileiro.

(*) Paulo Galvão Júnior é economista paraibano, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor-secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, membro do Instituto de Inteligência Econômica em São Paulo e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência na capital paraibana. É também colunista da Revista Nordeste, escritor e palestrante. WhatsApp para entrevistas e palestras: +55 (83) 98122-7221.
(**) O conteúdo publicado é de inteira responsabilidade do seu autor.
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Redacao RNE

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