Por José Natal*
Com a investigação policial ainda em curso, a morte de três pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Anchieta em Taguatinga, uma vez mais atiçada, provoca e traz de volta considerações negativas sobre o sistema de atendimento médico-hospitalar da Capital da República.
Desta vez com requintes macabros, e causando comoção nacional, o episódio que lembra séries de TV, escancara fragilidades quanto a segurança de pessoas submetidas a tratamentos que exijam sedação, colocando em cheque entidades médicas sabidamente responsáveis e atentas.
Com justa razão, e muita dor, às famílias de Miranilde Pereira, de 75 anos, João Clemente de 63 anos, e Marcos Moreira de 33 anos, exigem que a elas sejam explicadas com riqueza de detalhes em que circunstâncias seus entes queridos perderam a vida, dentro de uma UTI.
Ainda vai levar um tempo, para que os mais antigos moradores de Brasília, esqueçam de vez aquela velha e surrada afirmação de que o melhor da saúde da Capital do País ainda está na ponte aérea, que nos liga a Rio ou São Paulo. Argumentação essa, durante anos sempre alegada por aqueles mais abastados, que a qualquer sinal de alguma doença preocupante, de pronto buscavam socorro médico longe daqui.
Os tempos mudaram. Agora, com seus 65 anos de vida, a cidade se apresenta pronta e profissionalmente preparada ao atendimento à comunidade. A má fama adquirida ao longo do tempo tem lá sua razão de ser, os mais antigos na aldeia sabem disso.
Revisitando a história da cidade, é fácil lembrar que desde que foi inaugurado em 12 de setembro de 1960, o Hospital de Base, com 3.500 funcionários, ainda é a unidade hospitalar pública mais procurada pelos habitantes do DF e cidades vizinhas de Minas e Goiás. Hoje administrado pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF acumula problemas de superlotação, filas enormes no pronto socorro e trava grande batalha no acolhimento à população.
Foi nesse mesmo Hospital de Base que um dia antes de sua posse na Presidência da República, Tancredo Neves foi internado às pressas em 15 de março de 1985, lá permanecendo até ser transferido para São Paulo, onde 18 dias depois faleceu. A passagem de Tancredo pelo Hospital até os dias de hoje é lembrada devido uma série de problemas mal administrados, gerando consequências impostas negativamente.
Nos postos de atendimento do Plano Piloto e das cidades satélites há registros diários de falta de profissionais de saúde e filas intermináveis para a confirmação de cirurgias e outras providências. Especialistas atribuem a falta de gestão e verbas mal aplicadas às frequentes crises no setor de saúde do DF, sempre alvo de críticas contundentes e queixas da população.
Em agosto de 2020, outro capítulo marcante na memória de uma comunidade que não esquece as mazelas. Francisco Araújo Filho, Secretário de Saúde do GDF foi preso, após registro por atuação indevida durante a compra de testes para a COVID 19, segundo investigações do Ministério Público Federal.
A prisão foi revogada em novembro do mesmo ano, e ele foi liberado. Qualquer que seja o resultado em definitivo das investigações efetuadas sobre essa tragédia que entrará para a história da cidade, na memória da população sempre haverá uma dose elevada de preocupação.
Mesmo que o lamentável acontecimento tenha sido gerado em uma unidade hospitalar particular, cabe às autoridades de saúde do Governo local aprofundar conhecimentos e se inteirar de tudo que realmente ali aconteceu. Restabelecer a confiança e a tranquilidade da comunidade é uma obrigação também do Governo, e rapidamente.

