O maior símbolo do Carnaval pernambucano vai além da folia em 2026. O Galo da Madrugada, que ocupará a ponte Duarte Coelho entre os dias 11 e 18 de fevereiro, surge este ano como um manifesto visual em defesa da paz, da fraternidade, da saúde mental e da sustentabilidade. Com 32 metros de altura e oito toneladas, a alegoria presta homenagem a Dom Helder Câmara, referência mundial da cultura da paz e da justiça social, e dialoga com temas contemporâneos que atravessam o cotidiano da sociedade brasileira.
A escultura traz como inspiração uma das frases mais emblemáticas do “Dom da Paz”: “Brinque, meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça, mas ao menos se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!” . Dom Helder Câmara enxergava no Carnaval não apenas uma celebração popular, mas também um gesto de fé, esperança e resistência coletiva.
Quatro vezes indicado ao Prêmio Nobel da Paz, Dom Helder marcou profundamente a história do Recife por sua atuação junto às populações mais vulneráveis e por sua presença simbólica nas prévias carnavalescas da cidade, quando blocos buscavam sua bênção às portas da Igreja das Fronteiras, onde viveu até sua morte, em 1985.
Sustentabilidade que vira espetáculo
Assinada pelo designer, multiartista e arteterapeuta Leopoldo Nóbrega, em parceria com Germana Xavier, produtora, arquiteta e designer, a obra mantém uma marca já consolidada desde 2019: 100% da alegoria será produzida com materiais descartados e recicláveis. CDs, tampas de garrafa, plásticos, redes de pesca, conchas, lonas, restos de cortinas e garrafas PET compõem a “roupa de gala” do Galo, reafirmando o compromisso com a educação ambiental e o reaproveitamento criativo.
As cores verde, amarelo, azul e branco dominam toda a escultura, exaltando o Brasil e dialogando com o momento em que o Recife se prepara para ser uma das cidades-sede da Copa do Mundo Feminina de Futebol, em 2027.
Do Sertão ao litoral: identidade pernambucana em diálogo
O figurino do Galo 2026 percorre simbolicamente o território pernambucano. Elementos dos gibões do cangaço, com referências ao sol e às estrelas, se unem a biojoias feitas de conchas e restos de redes de pesca, numa narrativa que conecta Sertão, litoral e zona costeira. A proposta também lança um alerta ambiental: o descarte inadequado de resíduos ameaça mares, mangues e a biodiversidade da região.
As penas da cauda ganham sombrinhas de frevo, enquanto tecidos reaproveitados ampliam o volume da escultura, reforçando o caráter festivo e de identidade da obra.
Tecnologia, ciência e inovação social
A edição de 2026 traz ainda referências à ciência e à tecnologia. Espirais helicoidais de DNA simbolizam a celebração da vida e percorrem as penas da cauda. Já as 27 estrelas da bandeira brasileira serão produzidas em impressoras 3D pelo núcleo de robótica da comunidade do Xié e Entra Apulso, evidenciando o papel da tecnologia social e da inclusão produtiva.
No peito, o Galo traz um Sagrado Coração iluminado com LEDs e descartes tecnológicos, criando um diálogo simbólico entre fé, inovação e consciência ambiental.
Saúde mental como pauta central do Carnaval
Um dos eixos mais relevantes da alegoria de 2026 é a valorização da arte como ferramenta de cuidado em saúde mental. Inspirada na obra de Nise da Silveira, médica alagoana que revolucionou o tratamento psiquiátrico no Brasil ao integrar arte, cultura e cuidado em liberdade, a construção do Galo envolve práticas de arte terapia desde sua concepção.
Parte da confecção da roupa foi realizada por usuários e usuárias de políticas públicas municipais, em parceria com a Secretaria de Saúde, a Coordenação de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, a Secretaria de Assistência Social e Combate à Fome e a Província Franciscana Santo Antônio do Brasil.
Oficinas de colagem, pontilhismo e termocolagem, com tintas à base de água e materiais reciclados, aconteceram em equipamentos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), como os Centros de Convivência Recomeço, o Centro Integrado de Atenção à População em Situação de Rua (CINPOP) e espaços da Província Franciscana. As atividades foram conduzidas pela Traços Estudos em Arte terapia, instituição com duas décadas de atuação na formação terapêutica por meio da arte.
Para Leopoldo Nóbrega, o Galo de 2026 simboliza um encontro simbólico entre Dom Helder Câmara e Nise da Silveira.
“Vejo essas peças feitas manualmente como se fossem cartas de Nise para Dom Helder. Um diálogo entre duas personalidades que dedicaram suas trajetórias ao cuidado com o outro, à empatia e à construção de uma sociedade mais justa”, afirma o artista.

