O Mundo na Encruzilhada: militarização global, Trump e o risco de colapso da ordem internacional, por Gaudêncio Torquato

Por Gaudêncio Torquato*
O mundo atravessa um dos momentos mais críticos de sua história recente. Guerras regionais persistentes, polarização extrema entre países, enfraquecimento das democracias, banalização da violência e a volta explícita da lei do mais forte no cenário internacional compõem um quadro inquietante. A invasão de territórios soberanos por potências militares, sob pretextos estratégicos ou ideológicos, recoloca a humanidade em um ciclo que se imaginava superado após as tragédias do século XX.

Paralelamente a esse ambiente instável, observa-se uma escalada militar acelerada das grandes potências. Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e França vêm aprovando aumentos expressivos em seus orçamentos de defesa, ampliando a produção e a aquisição de armamentos sofisticados. O chamado “PIB militar” cresce em ritmo superior ao dos investimentos sociais, revelando uma prioridade clara: preparar-se para conflitos futuros, mesmo ao custo de maior instabilidade global.

Nos Estados Unidos, maior potência militar do planeta, essa lógica ganha contornos ainda mais complexos com o retorno de Donald Trump ao centro do debate internacional. Trump passou a defender a criação de um chamado “Conselho de Paz”, uma instância paralela, sob liderança norte-americana, destinada — segundo seu discurso — a mediar conflitos globais e “impor a paz” onde a ONU teria fracassado. À primeira vista, a proposta soa como uma alternativa pragmática. Na prática, porém, carrega o risco de esvaziar e atropelar a já fragilizada arquitetura multilateral.

A Organização das Nações Unidas enfrenta, de fato, um processo de desgaste profundo. O Conselho de Segurança encontra-se paralisado por vetos cruzados e rivalidades estratégicas. No entanto, substituir ou contornar a ONU por organismos informais, liderados por uma potência específica, representa um passo perigoso. Um “Conselho de Paz” sem legitimidade universal tende a refletir interesses geopolíticos particulares, não consensos globais. Em vez de pacificação, pode gerar novas tensões e disputas de influência.

Na Europa, a guerra na Ucrânia acelerou a corrida armamentista. A Alemanha rompeu tabus históricos ao anunciar investimentos maciços em defesa. França e Reino Unido seguem trajetória semelhante, reforçando arsenais e ampliando sua presença militar. Esse movimento ocorre em sintonia com uma visão de mundo cada vez mais marcada pela desconfiança, pela lógica da dissuasão e pela crença de que a força é o principal instrumento de estabilidade.

Esse cenário se agrava com o enfraquecimento das democracias. A polarização política extrema, alimentada por desinformação, nacionalismos exacerbados e discursos de ódio, corrói consensos mínimos dentro das sociedades. Lideranças autoritárias ganham espaço ao prometer segurança e ordem, mesmo que isso signifique relativizar direitos, enfraquecer instituições e tensionar relações internacionais.

A banalização da violência completa esse quadro sombrio. Conflitos armados são transmitidos em tempo real, consumidos como espetáculo. A morte vira estatística; a destruição, rotina. A empatia global se dilui, enquanto cresce a tolerância social ao uso da força como solução política.

Diante desse contexto, impõe-se a pergunta central: haverá vontade política para interromper a lógica que pode levar o mundo ao desastre? A história ensina que guerras não começam subitamente. Elas são precedidas por discursos beligerantes, decisões orçamentárias, criação de blocos militares paralelos e, sobretudo, pelo enfraquecimento das instâncias multilaterais.

Conter essa trajetória exige liderança responsável, compromisso real com a ONU — apesar de suas limitações — e resistência à tentação de soluções unilaterais travestidas de pragmatismo. A alternativa à ordem multilateral não é a paz, mas o risco de um mundo regido por conselhos ad hoc, pela força e pelo interesse dos mais poderosos.

A humanidade está, mais uma vez, diante de uma encruzilhada histórica.

 

*Gaudêncio Torquato é Jornalista,  cientista político e professor da USP
**Os artigos publicados são de responsabilidade de seus autores
Curta e compartilhe:

Walter Santos

Leia mais →

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *