Livros podem encurtar tempo de cárcere de Bolsonaro, por José Natal

Por José Natal*

 

Pouco provável que aliados de Jair Bolsonaro, encarcerado na Polícia Militar de Brasília, recomendem a ele que dê a largada a sua fase literária com a leitura de épicos como “Meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos, publicado em 1968, com estrondoso sucesso.

Traduzida para 52 idiomas em 19 países, a obra contempla o universo infantil com  mensagens de rico teor, premiando também a adolescentes e adultos, espalhando e petrificando mensagens de sabedoria e bem viver. Indicarão a ele a leitura mais densa, voltadas talvez a biografias, pensadores, algo assim.

Advogados, parentes e amigos apelam à justiça, para que seja aplicada a ele a lei que reduza o número de dias no cárcere, mediante a comprovação da leitura de um determinado número de livros, devidamente autorizados pelo Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal. Para quem o bom da vida foi sempre se atracar a baionetas, cartucheiras e afins, visitar o mundo dos escribas deve gerar dificuldades. Livros iluminam a mente, irrigam organismos e abastecem fontes do nosso corpo que mal sabíamos existir.

Caso se dedique mesmo a essa prática, mesmo que até agora tenha sido um universo pouco visitado, o ex-presidente pode se deparar com algumas novidades, e ficar surpreso.

Se tiver a sorte de ler “Estação Carandiru”, por exemplo, escrito por Drauzio Varella e publicado em 1999, talvez goste dos relatos do autor na abordagem e na atuação dele em relação a superlotação e das condições precárias e de trabalho na Casa de Detenção de São Paulo, onde se deu o trágico massacre em 1922, com 111 presos executados pela polícia militar paulista.

Varella relata também a atuação que teve junto aos presos contaminados com a AIDS, e a eles doutrinou formas de evitar a doença e salvar muitas vidas. Fez com dedicação tudo aquilo que o ex-presidente deveria ter feito quando do flagelo da COVID 19, e se omitiu.

Mesmo com a pandemia matando centenas de pessoas por dia, famílias enlutadas a cada semana e a tragédia invadindo os lares do País, o então presidente jamais visitou um hospital, nunca abraçou um médico ou enfermeiro, nenhum ato solidário pelos males da doença. Talvez com a leitura de um livro que aborde o assunto a luz se faça no pensamento.

Os responsáveis pela ilustração literária do líder deposto, se de fato acreditam na investida, podem indicar a ele a leitura do clássico “Como as democracias morrem”, dos professores Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, ambos com cadeiras assumidas na Universidade de Harvard. Os dois fazem, com rara objetividade, uma análise realista das ameaças à democracia em todo o mundo.

No livro há uma competente explicação sobre a eleição de Donald Trump e um passeio com ricas considerações com o foco em outras formas de governo. A obra é sucesso de público e de crítica nos Estados Unidos e em toda a Europa, com citações abrangentes a todas as democracias, com ênfase ao Brasil.

Em vários trechos do livro uma carapuça bem desenhada e costurada se encaixa como uma luva nas peripécias mal arrumadas de Bolsonaro, e sua turma. Caso leia o livro talvez o capitão se aposse de alguma dose de humildade, e admita que a fantasia de seguidores que o elegeram um dia como mito talvez tenha exagerado na escolha.

Há uma série infinita de boas sugestões para leituras, prateleira rica de opções. Se os que estão encarregados pela escolha do que será destinado a ele conseguirem evitar a influência negativa dos radicais e dos ocupantes do gabinete do ódio, teremos no horizonte boas chances de sucesso.

Vale lembrar que um dos primeiros atos de Bolsonaro ao tomar posse no Governo, com ufanismo e orgulho, foi liberar e incentivar a população a fazer uso de armas de fogo, legalizando uma prática que o mundo civilizado luta para exterminar.

Quis o destino, quase dez anos depois, com ironia sugerir que venha daqueles que um dia apoiaram decisão tão absurda a idéia da troca de armas por livros, sementes de cultura que ele sempre se negou a aceitar. O silêncio do cárcere é barulhento, tira o sono e faz chorar.

*José Natal é Jornalista
** Os artigos publicados no site da revista NORDESTE são de responsabilidade de seus autores
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