A Desindustrialização Brasileira e o crescimento da China: Contrastes de Modelos de Desenvolvimento, por Paulo Roberto Cannizzaro

Paulo Roberto Cannizzaro*

 

A história econômica global do final do século XX e início do XXI apresenta um paradoxo intrigante quando comparamos o Brasil e a China. O Brasil já foi um modelo de industrialização, por substituição de importações e considerado uma das “novas potências industriais” nas décadas de 1960 e 1970, mas assistiu a um processo de profunda desindustrialização. 

A China, nos anos 1980, era um país economicamente fechado e agrário, mas emergiu como a “fábrica do mundo”, transformando-se na segunda maior economia global. Em algum momento, os chineses observaram modelos de industrialização em nações como o Brasil, o que acentua o contraste dramático nas trajetórias subsequentes. Além disso, reconhecer: Não temos um projeto de nova industrialização do Brasil. Nenhum país alcança a fronteira tecnológica sem antes se industrializar. 

O nível de perda de indústrias no Brasil é assustador. Nosso país teve momentos históricos em que fomos vistos como uma potência industrial, no entanto, a partir da revolução neoliberal, com a abertura do livre comércio, dos mercados, com a cartilha de Washington, o Brasil foi ficando para trás e a indústria brasileira desceu no ralo. Adotamos grande parte das medidas dessa cartilha, e diversos críticos argumentam que isso levou à desindustrialização e a dependência de commodities. 

Até o plano Real, exitoso em combater a inflação, também ajudou a nos desindustrializar, mantendo o câmbio sob controle, mas com altas de juros e, evidentemente, as empresas não aguentam essa combinação de efeitos. O governo abandonou nossas empresas, ficaram desprotegidas. O que o Presidente Trump faz nesse momento? Cria mecanismos de protecionismos, muros de tarifas, para proteger a indústria e as empresas americanas. 

Nenhum país estrategicamente pode deixar de proteger seu parque industrial. É básico! Tivemos indústrias competentes e competitivas, com um nível apreciável de industrialização, mas infelizmente foram sendo engolidas. Empresas precisam da proteção do Estado. Qual a grande indústria no Brasil que hoje está na linha de uma elogiável fronteira tecnológica? Embraer. Mas é uma andorinha isolada. Basicamente por ter sido estatal, fortemente protegida. 

Sem acesso a mercados, sem linhas de financiamentos atrativos e em grandes volumes, sem clientes, acesso a grandes mercados e sem proteção do Estado, enroladas em dívidas e com altas taxas de juros, a tendência é que empresas vão sucumbindo, largadas ao Deus dará. Além disso, o Estado brasileiro trata empresários e empresas à mão armada, como se todos fossem bandidos ou depravados. A própria Coreia do Sul, apesar de não ser um país comunista, mas alinhado com os Estados Unidos, não seguiu o Conselho de Washington, e sob a benção americana, que desejavam um contraponto na Ásia para enfrentar a ascensão da China. Lembrem-se, por exemplo, como era um carro da Hyundai. Um veículo horrível, mas bem protegido pelo Estado, se tornou a potência de uma grande marca.  

A China, diferentemente do Brasil, é citada por não ter seguido a cartilha, priorizou o modelo econômico no controle estatal estratégico, de gradualismo e forte investimento em política industrial, o que permitiu que sua economia ultrapassasse vastamente a brasileira nas últimas décadas. A imagem dos produtos chineses, de baixíssima qualidade, que perambulou nosso olhar, agora transformado.

Hoje, aprenderam a fazer bons produtos. Foram copiando, copiando e ganhando espaço no mundo em todos os segmentos. O que não fizeram via transferência de tecnologia, foi por engenharia reversa. Permanentemente, eles criam dinheiro novo para financiar as empresas, seja por subvenções em setor que julgam ser improdutivos, mas necessários, fomentando setores produtivos que eles dominam. O Estado chinês desempenhou um papel central e proativo, não apenas como regulador, mas como indutor e financiador do desenvolvimento industrial. Com planos quinquenais, a China investiu maciçamente em infraestrutura de transporte, energia e comunicações, criando um ambiente propício à produção em larga escala.

A política cambial foi cuidada para manter a competitividade das exportações chinesas, e a força de trabalho abundante e disciplinada, combinada com um foco estratégico na educação em ciências e engenharia, garantiu a disponibilidade de mão de obra excelente e barata. Priorizou o investimento em P&D, transformando-se de mero montador em um inovador global em diversos setores de alta tecnologia. 

Em conclusão, a desindustrialização brasileira é um sintoma de uma série de escolhas políticas e econômicas ruins, caracterizadas pela instabilidade macroeconômica, falta de planejamento estratégico de longo prazo, elevado “Custo Brasil” e abertura comercial sem preparação. 

O sucesso da China, diferentemente, reflete uma abordagem pragmática e planejada, com um Estado atuante na indução do desenvolvimento, foco em exportações, aquisição e desenvolvimento tecnológico, e investimento em capital humano e infraestrutura. A lição fundamental é que o desenvolvimento industrial sustentável requer não apenas a identificação de um modelo, mas a capacidade de implementá-lo com consistência, adaptabilidade e uma visão estratégica de longo prazo, algo que a China demonstrou exemplarmente, e o Brasil, bisonhamente, perdeu-se ao longo do caminho.

 

*Paulo Roberto Cannizzaro é escritor e consultor empresarial
**Os artigos publicados no site da revista NORDESTE são de responsabilidade de seus autores
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Redacao RNE

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