Por José Natal*
É verdade que a nova “residência” oficial do ex-presidente Jair Bolsonaro em Brasília não tem piscina aquecida, carece de uma sauna a vapor e a falta de um sinal da internet não permitirá a ele regalias como acessar as séries da Netflix, ou ainda interagir pelo whatsapp com seguidores mais fiéis. Já há registros enfáticos de integrantes do Gabinete do ódio quanto a essa restrição, para eles, absurda.
Há queixas também pela restrição ao uso do celular, acham exagero sem necessidade do ministro Alexandre de Moraes. Em muitos casos, o ser humano avalia mal as questões relacionadas a perdas e ganhos, e como juízes em causa própria, desconsideram pontos importantes.
Para quem idealizou, planejou e quase colocou em prática um plano mirabolante contra a democracia brasileira, a indicação de uma cela tão confortável e acolhedora mais parece um prêmio, ao invés de punição.
Para os menos informados vale lembrar que a nova casa do ex-presidente ocupa uma área robusta de 65 metros quadrados, equipada com cama de casal, ar condicionado, geladeira, lavanderia e espaço para, se for o caso, utilização de uma esteira e bicicleta ergométrica para exercícios diários. Incluso assistência médica 24 horas por dia.
Todos nós conhecemos uma centena de pessoas que, às duras penas, moram em imóveis bem mais modestos e desapetrechados de tantas benécies. Mesmo de posse de habitação tão aconchegante, Bolsonaro e seus escudeiros ainda reclamam, se queixam da decisão e insistem em apelar para que a prisão domiciliar seria a melhor escolha.
Há um equívoco muito grande que domina a linha de raciocínio dos aliados mais próximos ao ex-presidente. Prisão, por mais cruel e desagradável que seja, será sempre uma prisão. Não há como transformá-la em local de permanência temporária, colônia de férias é outra coisa.
Parte representativa da sociedade brasileira, e de outros mundos, vê com certo incômodo as regalias e benefícios que são oferecidos a autoridades condenadas, ofertando a elas agrados jamais concedidos a presos sem nenhum pedigree de referência, ou coisa parecida. Aliás, o sistema carcerário brasileiro é motivo de críticas há anos.
Especialistas e fontes do Ministério da Justiça apontam que nos dias de hoje, 380 mil detentos disputam espaço em celas abarrotadas em diversas regiões do País, gerando desconforto e ameaças à saúde de uma população que sempre requer cuidados especiais. Espaço ocupado é sinônimo de conforto, ou falta dele, para milhões de famílias Brasil afora, dia e noite.
Cerca de 200 mil pessoas que ocupam hoje as favelas da Rocinha, no Rio de Janeiro, Sol Nascente em Brasília, e Paraisópolis em São Paulo, moram em barracos com apenas um quarto, sala, cozinha e banheiro, ocupando 15 metros quadrados em áreas sem saneamento e esgoto a céu aberto.
Mesma situação em mais de 17 mil outras comunidades nas mesmas circunstâncias, em 656 municípios, abrigam milhões de brasileiros, segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Essas comunidades, em sua grande parte, estão sediadas nas regiões periféricas dos estados do Norte, Nordeste e Centro Oeste. Somente na comunidade da Rocinha (RJ), a maior do Brasil, 72 mil pessoas habitam essas unidades, sem perspectivas razoáveis que sinalizem melhores condições de vida a curto prazo.
Essa dura realidade, que estabelece o visível contraste entre o real e o possível, tende a permanecer ainda por longo tempo. Oferecer e proporcionar conforto a quem responde na justiça por atos contra o País, é mais fácil e viável do que livrar pessoas carentes das mazelas do cotidiano.

