O Nordeste já lidera a energia limpa. Falta agora “estocar” o que produz

Por Luciana Leão

O protagonismo do Nordeste na transição energética brasileira já está consolidado.  Não é mais novidade. A região abriga os maiores parques eólicos e solares do país e gera hoje mais de 70% da sua eletricidade a partir dessas fontes, um índice que reforça sua liderança nacional  e, ao mesmo tempo, evidencia um gargalo estrutural ainda não resolvido: a incapacidade de armazenar parte significativa da energia produzida.

Mesmo sendo o terceiro país do mundo em capacidade instalada de energia renovável, com 213 gigawatts, atrás apenas da China e dos Estados Unidos, o Brasil desperdiça cerca de 17% da eletricidade gerada, segundo estimativas do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Esse desperdício é mais intenso no Nordeste, onde a expansão acelerada da geração eólica e solar avançou mais rápido do que a infraestrutura necessária para armazenar e integrar essa energia ao sistema.

O paradoxo

Dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) mostram que, em 2025, 52% da matriz elétrica do Nordeste foi composta por energia eólica e 18,5% por solar fotovoltaica, enquanto as fontes térmicas responderam por apenas 12%.

O perfil amplamente renovável é um ativo estratégico, mas também aumenta a dependência de soluções que garantam estabilidade e previsibilidade ao sistema.

Na prática, isso se traduz em cortes recorrentes de geração nos momentos de vento mais intenso ou alta incidência solar , energia limpa, abundante e competitiva que deixa de ser aproveitada.

“O Nordeste reúne hoje as melhores condições para liderar a expansão do armazenamento de energia no Brasil, justamente por concentrar grandes parques eólicos e fotovoltaicos que já enfrentam restrições de geração”, afirma Fábio Lima, diretor executivo da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae).

Você sabia?

Estocar o vento” virou tema central do setor elétrico. Porém, vale lembrar que, muito antes de o armazenamento de energia entrar no centro do debate técnico, a então presidente Dilma Rousseff (PT) afirmou que seria necessário “estocar o vento” produzido pelos parques eólicos do Nordeste. A frase foi alvo de críticas e ironias na época.

O problema nunca foi “estocar o vento”,
mas armazenar energia intermitente.

Hoje, a expansão dos sistemas de baterias mostra que o desafio apontado era concreto: como armazenar a energia limpa gerada em abundância para usá-la quando o vento e o sol não estão disponíveis.

O primeiro leilão de baterias, previsto para 2026, marca justamente a tentativa de responder, com tecnologia e regulação, a um problema identificado anos atrás.

Armazenar para evitar desperdícios

Os sistemas de baterias permitem armazenar a energia gerada nos períodos de maior produção e utilizá-la quando o vento diminui ou o sol se põe. A tecnologia também reduz o acionamento de usinas termelétricas, mais caras e poluentes, contribuindo para a segurança do sistema e para a modicidade tarifária.

“O armazenamento permite aproveitar uma energia renovável abundante, evitar desperdícios que prejudicam os geradores e utilizá-la nos horários de pico, reduzindo o uso de fontes mais caras”, explica Fábio Lima. Segundo a Absae, esse mercado pode movimentar até R$ 70 bilhões até 2034, com aplicações que vão do agronegócio às indústrias intensivas, centros comerciais e hospitais.

Leilão de baterias sinaliza mudança estrutural

A mudança começa a se desenhar com o primeiro leilão de baterias do setor elétrico, anunciado pelo Ministério de Minas e Energia durante a COP 30, em Belém. Previsto para abril, o certame deve contratar projetos com capacidade total de até 2 gigawatts, voltados a armazenar energia e reforçar o sistema nos horários de maior demanda, com início de operação em 2028 e contratos de dez anos.

Pelas regras, os sistemas deverão oferecer até quatro horas diárias de potência, com recarga completa em até seis horas. Grandes empresas nacionais e multinacionais já demonstram interesse em participar, inclusive estatais como a Petrobras, sinalizando que o armazenamento entrou definitivamente no radar do setor elétrico.

O Nordeste no centro da próxima etapa

Com 91,2% da eletricidade brasileira proveniente de fontes renováveis, o país já ocupa posição de destaque no cenário global.

Para o Nordeste, o avanço do mercado de baterias representa a oportunidade de transformar liderança em geração limpa em eficiência operacional, segurança energética e competitividade econômica, como bem assinalou Fábio Lima, diretor executivo da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae).

Se a região ajudou a colocar o Brasil entre as potências globais da energia renovável, o armazenamento pode ser o elo que faltava para consolidar esse protagonismo, agora, com menos desperdício e mais valor agregado.

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Luciana Leão

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One thought on “O Nordeste já lidera a energia limpa. Falta agora “estocar” o que produz

  1. Energia Solar bate recordes, mas segue travada por cortes de geração e gargalos na rede - Revista Nordeste 13 de janeiro, 2026 at 3:47

    […] tema já foi abordado pela NORDESTE em reportagens anteriores e ganhou relevância com a expansão acelerada da energia solar, […]

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