Por Luciana Leão
Os números mais recentes do Ranking de Competitividade dos Municípios, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), em 2025, ajudam a organizar um debate que costuma ser tratado com exagero: o endividamento das cidades brasileiras. Quando o recorte é regional, o levantamento mostra que o Nordeste está longe de ocupar o centro do problema.
Segundo o ranking do CLP, em 2025, dos 100 municípios mais endividados do país, apenas seis estão localizados no Nordeste. O contraste é evidente com o Sudeste, que concentra mais da metade dessas cidades, seguido pelo Sul, Centro-Oeste e Norte. O dado, por si só, já relativiza leituras apressadas sobre a situação fiscal da região.
Mais do que listar quem deve mais, o Ranking de Competitividade dos Municípios chama atenção para um ponto essencial: dívida não pode ser analisada isoladamente.
O próprio CLP destaca que o indicador precisa ser lido junto com fatores como crescimento econômico, capacidade de investimento e qualidade da gestão pública.
Fora do endividamento
A liderança do ranking dos municípios mais endividados segue concentrada no Sudeste, com cidades como Seropédica (RJ), Santa Luzia (MG) e Saquarema (RJ) nas primeiras posições. Entre os 20 primeiros colocados, a presença nordestina é pontual.
O principal exemplo é Goiana (PE), que aparece entre os municípios mais endividados do país. No entanto, como observa o levantamento do CLP, trata-se de uma cidade que passou por forte expansão econômica e industrial nos últimos anos, com o polo automotivo da Stellantis, o que ajuda a explicar a pressão sobre as contas públicas.
De acordo com o ranking do CLP, “municípios em fase de crescimento tendem a assumir mais compromissos financeiros para viabilizar investimentos em infraestrutura, serviços urbanos e políticas públicas”, diz trechos do estudo. Nesses casos, a dívida aparece como consequência de um ciclo de expansão e não, necessariamente, como sinal de desequilíbrio estrutural.
O risco surge quando esse movimento não vem acompanhado de planejamento, controle de gastos e aumento consistente das receitas. Nesse aspecto, segundo o CLP, “o Nordeste apresenta um quadro diverso, mas, em geral, menos concentrado em situações críticas do que outras regiões do país”.
Cidades médias ganham espaço
A edição de 2025 do Ranking de Competitividade dos Municípios, do CLP, incorporou 14 novos municípios ao grupo analisado. Entre eles, aparecem cidades nordestinas como Barbalha e Eusébio (CE), Ceará-Mirim (RN), Arcoverde, Belo Jardim e Carpina (PE).
São municípios de porte médio, com papel regional cada vez mais relevante, que começam a sentir os efeitos do crescimento sobre orçamento, infraestrutura e serviços públicos.
Para o CLP, a entrada dessas cidades no ranking é sinal de maior protagonismo, mas também de necessidade de atenção redobrada à gestão fiscal.
Ao todo, o levantamento avaliou 418 municípios com mais de 80 mil habitantes, que concentram cerca de 60% da população brasileira, com base nas estimativas do IBGE.
Um alerta que vai além da dívida
Mesmo com um cenário mais equilibrado no Nordeste, o ranking do CLP dialoga com outros dados que acendem o sinal amarelo nas contas públicas.
Levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) mostra que quase 30% das prefeituras brasileiras atrasam pagamentos a fornecedores, evidenciando dificuldades de fluxo de caixa.
Além disso, cerca de um terço dos municípios empurrou despesas de 2025 para 2026 sem previsão orçamentária, prática que compromete o planejamento e amplia os riscos fiscais nos anos seguintes.
Gestão
Mais do que rotular municípios como endividados ou equilibrados, o levantamento reforça a importância de olhar o conjunto da gestão.
Para o Nordeste, o recado é direto: há espaço para avançar, desde que o crescimento venha acompanhado de planejamento, responsabilidade fiscal e visão de longo prazo.
*Com CLP

