Como a carnaúba virou biomassa e renda no Vale do Jaguaribe, no Ceará

No semiárido cearense, um resíduo historicamente subaproveitado da safra da carnaúba começa a ganhar novo significado econômico. Talos e palhas da planta, símbolo do Nordeste, passaram a ser transformados em biomassa energética, criando uma alternativa de renda no período mais seco do ano e ampliando o debate sobre os caminhos da transição energética na região.

Apesar de a iniciativa ser desenvolvida desde 2018 no eixo Jaguaruana–Quixeré, no Vale do Jaguaribe, foi a partir de um modelo estruturado pela Cimento Apodi que a inovação ganhou força. O modelo combina adaptação climática e eficiência produtiva, em outras palavras, aproveitar o período de estiagem, entre agosto e novembro, quando ocorre a safra da carnaúba, para triturar os resíduos e convertê-los em fonte de energia renovável.

O projeto se ancora em uma realidade bem conhecida do Nordeste. Enquanto grande parte da atividade rural depende do calendário das chuvas, a biomassa da carnaúba opera em sentido inverso, gerando trabalho e renda justamente nos meses mais secos.

Para pequenos produtores, isso representa receita complementar e melhor aproveitamento de uma cadeia produtiva tradicional, presente sobretudo no Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte.

Nesse contexto, a Cimento Apodi atua como agente estruturador do modelo. A empresa é uma joint venture formada pelo grupo cearense Dias Branco e pelo Grupo Titan, com atuação estratégica no Norte e Nordeste. No Ceará, mantém unidades industriais que incluem o parque fabril de Quixeré, no Vale do Jaguaribe, e a moagem no Complexo Industrial e Portuário do Pecém.

Além da compra dos resíduos, o projeto envolve assistência técnica e capacitação dos produtores e das equipes locais, com foco na organização do processo produtivo e na gestão do negócio rural.

“A biomassa surge como uma alternativa que gera valor econômico, promove o aproveitamento integral da carnaúba e fortalece uma cadeia já enraizada no território”, afirma Cybelle Borges, coordenadora de Sustentabilidade e ESG da empresa.

Em um Nordeste que já lidera a geração de energia eólica e solar no país, a biomassa passa a ganhar espaço como um terceiro eixo da transição energética regional. Diferentemente dos grandes projetos de infraestrutura, iniciativas baseadas no reaproveitamento de resíduos operam em outra escala: conectam energia, renda rural e adaptação ao semiárido. “O resultado não é apenas ambiental, mas econômico, ao criar alternativas produtivas em períodos historicamente marcados pela estiagem”, complementa Cybelle Borges.

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Luciana Leão

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