Em tempo: economista Marcos Formiga revela detalhes de análise de Brian Winter para explicar caso Venezuela

O economista Marcos Formiga, residindo em Brasília, faz da conjuntura a oportunidade de Revelar “Recortes da entrevista de Brian Winter, cientista político e jornalista, ex-correspondente no Brasil, em entrevista publicada nesta segunda-feira (05) na Folha de São Paulo tratando da geopolítica a partir da grave crise na Venezuela.

Ele explica reproduzindo parte do texto de Brian Winter como a atual realidade na América do Sul atende a preceitos e/ou estratégias americanas dentro da doutrina Monroe, que ele explica:

Eis o texto na íntegra a seguir:

A negociação com Delcy Rodríguez e o retorno da Doutrina Monroe: Venezuela, poder hemisférico e transições forçadas

A decisão dos Estados Unidos de negociar com Delcy Rodríguez não pode ser compreendida apenas como uma manobra tática diante do colapso venezuelano. Ela faz parte de um movimento mais profundo, identificado com clareza por Brian Winter em entrevista à Folha de S.Paulo (5 jan. 2026): o retorno explícito dos Estados Unidos à lógica hemisférica clássica, sintetizada historicamente pela Doutrina Monroe.

O que está em curso não é uma “nova política”, mas o fim de uma exceção histórica.

O que é a Doutrina Monroe — e por que ela importa agora

A Doutrina Monroe foi formulada em 1823, durante o governo de James Monroe, e pode ser resumida na fórmula:

“A América para os americanos.”

Na prática, isso significava três princípios centrais:

  1. Nenhuma potência externa (europeia) deveria interferir nas Américas;
  2. Os EUA se reservavam o direito de intervir no hemisfério para garantir essa exclusividade;
  3. A América Latina era definida como zona de interesse estratégico direto dos Estados Unidos.

Ao longo do século XX, essa doutrina foi reinterpretada e operacionalizada de várias formas:

  • Intervenções militares diretas;
  • Apoio a golpes e regimes aliados;
  • Pressões econômicas, diplomáticas e políticas.Durante a Guerra Fria, a Doutrina Monroe foi subsumida à lógica anticomunista. Após 1991, com o fim da URSS, ela não desapareceu, mas entrou em modo latente.

O ponto central de Brian Winter é que os últimos 35 anos foram a exceção, não a regra.

O “retorno” hemisférico segundo Brian Winter

Winter sustenta que a percepção latino-americana de que os EUA haviam abandonado o continente é ilusória. O que ocorreu foi:

  • Redução de intervenções diretas;
  • Prioridade a outras regiões (Oriente Médio, Ásia);
  • Delegação parcial de conflitos locais.

A implosão venezuelana muda esse cálculo. Não por razões morais, mas porque:

  • Produz migração em massa;
  • Pressiona sistemas políticos vizinhos;
  • Radicaliza eleições e discursos de segurança;
  • Afeta energia, crime transnacional e estabilidade regional.

Pela lógica da Doutrina Monroe, instabilidade próxima pesa mais do que conflitos distantes.

A Venezuela deixa de ser um “problema ideológico”

Um dos méritos centrais da análise de Winter — e que dialoga diretamente com a negociação com Delcy — é deslocar o foco:

  • Não se trata mais de “democracia versus ditadura”;
  • Trata-se de governabilidade hemisférica.

A Venezuela deixou de ser apenas um regime autoritário e tornou-se:

  • Um exportador de instabilidade;
  • Um fator de pressão eleitoral em outros países;
  • Um problema sistêmico regional.

Nesse quadro, a lógica americana passa a ser contenção do caos, não redenção democrática.

A queda de Maduro e a reorganização interna do poder

A prisão de Nicolás Maduro nos EUA, em 3 de janeiro de 2026, não destruiu o regime, mas eliminou seu centro de equilíbrio. O poder, antes distribuído em quatro polos, passou a se organizar em três facções rivais:

  • Diosdado Cabello;
  • Vladimir Padrino López;
  • O eixo Delcy–Jorge Rodríguez.

Essa fragmentação abriu uma janela estreita e perigosa para negociação.

Trump, Monroe e pragmatismo absoluto

A atuação de Donald Trump confirma a leitura de Winter:

  • Não há cruzada democrática;
  • Não há universalismo liberal;
  • Há aplicação seletiva da lógica hemisférica.

Trump pergunta apenas: “Isso afeta diretamente os EUA?”

A Venezuela afeta. Logo, entra na agenda. Outros países, não.

Essa seletividade é inteiramente compatível com a Doutrina Monroe, que nunca prometeu coerência moral, apenas prioridade estratégica.

Por que Delcy Rodríguez é a escolhida

Dentro dessa lógica, Delcy não é vista como legítima, mas como funcional.

Ela oferece três ativos críticos:

  1. Continuidade administrativa imediata (Estado, PDVSA, bancos, portos);
  2. Canal com o poder armado, ainda que sem comando direto;
  3. Capacidade de entrega concreta (ordens, informações, assinaturas).

As alternativas eram piores:

  • Padrino López já havia rompido acordos;
  • Diosdado Cabello é intratável;
  • A oposição civil não controla armas nem território.

A escolha por Delcy é um movimento monroísta clássico: negociar com quem controla o espaço, não com quem representa valores.

Transição, não redenção

A crença de que a queda de Maduro levaria automaticamente ao “governo dos bons” ignora como transições reais ocorrem.

Elas seguem, quase sempre, três etapas:

  1. Controle do caos (com quem tem armas);
  2. Reacomodação do poder (técnicos e civis aceitáveis);
  3. Legitimação (eleições).

Delcy ocupa a primeira fase. Não é o futuro da Venezuela — é o freio de emergência.

Brasil e América Latina sob a lógica Monroe

A entrevista de Winter sugere um efeito colateral importante:

  • O espaço para ambiguidade estratégica diminui;
  • O não alinhamento se torna mais difícil;
  • Governos de esquerda moderada pagam o custo simbólico da implosão venezuelana.

O Brasil, apesar do profissionalismo do Itamaraty, aparece como:

  • Ator reativo;
  • Com menor capacidade de mediação;
  • Preso a escolhas passadas em um contexto que mudou.

Conclusão: Monroe nunca morreu — apenas dormiu

A negociação com Delcy Rodríguez não é uma aberração. Ela é a reatualização pragmática da Doutrina Monroe em um mundo pós-Guerra Fria.

O que termina não é apenas o ciclo Maduro, mas a ilusão latino-americana de que os EUA haviam abandonado definitivamente o continente.

A América Latina volta a ser tratada como:

  • Espaço estratégico direto;
  • Zona de contenção de riscos;
  • Território onde estabilidade vale mais que virtude.

A ditadura venezuelana não caiu, mas foi mortalmente ferida. E a transição, como sempre sob a lógica Monroe, não começa onde os valores mandam — começa onde o poder permite.

O que vimos até agora foram apenas os trailers. O filme, de fato, ainda vai começar.

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Walter Santos

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